
O início da operação da BYD no Brasil ganha mais um desdobramento controverso. O governo brasileiro decidiu suspender a emissão de vistos de trabalho temporários para a montadora. Tudo porque o Ministério Publicou do Trabalho (MPT) flagrou 163 pessoas em condições similares á escravidão nas obras da fábrica da empresa em Camaçari (BA).
A decisão é provisória, até que a montadora apresente esclarecimentos à justiça. Os trabalhadores eram terceirizados, contratados do Grupo Jinjiang, empresa responsável pela construção do complexo industrial da BYD. Eles vieram ao Brasil com vistos Vitem V, concedidos a profissionais com competências necessárias ao trabalho que vão exercer no Brasil ou, ainda, que estejam no país para oferecer treinamento a trabalhadores locais.
Diante das irregularidades trabalhistas, as obras da fábrica da BYD também foram temporariamente interditadas.
BYD e Jinjiang negam trabalho análogo à escravidão
A BYD defende que a descrição do MPT de que há trabalhadores em condições similares à escravidão na obra é imprecisa. A empresa também aponta ter encerrado contrato com o Grupo Jinjiang, além de providenciar hotéis para que as 163 pessoas resgatadas fiquem instaladas em melhores condições.
Já a construtora publicou nas redes sociais vídeo em que seus funcionários que atuam no Brasil diziam receber benefícios e condições justas. A explicação seria que houve confusão na hora de regularizar a documentação dos profissionais. Os passaportes dos trabalhadores teriam sido recolhidos temporariamente para os trâmites, mas jamais confiscados como forma de cercear a liberdade das pessoas.
Privação de liberdade, salários retidos e condições degradantes
A força tarefa do MPT feita nas obras da fábrica da BYD em Camaçari (BA) apurou que, além de terem os passaportes retidos, o que impede o retorno ao país de origem, os trabalhadores recebiam apenas 40% do salário em moeda chinesa. Os outros 60% ficavam com a empresa.
Além disso, essas pessoas teriam ônus excessivo para encerrar seus contratos e enfrentavam jornadas exaustivas de trabalho, de 10 horas diárias, com folgas irregulares. Nos poucos momentos de descanso, tinham condições ruins para isso, com alojamentos precarizados, com camas sem colchões, itens pessoais misturados aos alimentos e banheiros insuficientes.
O MPT chegou a declarar que os trabalhadores chineses da fábrica da BYD foram vítimas de tráfico internacional de pessoas.


BYD nega violações e promete empregos
Todo o escândalo envolvendo os trabalhadores em condições similares à escravidão nas obras da fábrica da BYD na Bahia começou a ser revelado em reportagem da Agência Pública publicada no fim de novembro.
Logo após a veiculação, a montadora convidou parte da imprensa para visitar o complexo de Camaçari (BA). Na ocasião, a BYD anunciou a criação de 10 mil empregos e adotou discurso enérgico contra qualquer irregularidade.
“Não vamos tolerar qualquer desrespeito à dignidade humana”, disse Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da companhia no Brasil. “Respeitamos as leis brasileiras, sejam elas trabalhistas, de meio ambiente ou relações comerciais. Tudo passa por minuciosa auditoria”, complementou o executivo.