
Parece descabido que, em 2024, uma liderança do setor automotivo precise reafirmar o básico: que a empresa em que trabalha respeita as pessoas. Ainda assim, é exatamente o que aconteceu na segunda-feira, 2, na BYD. “Não vamos tolerar qualquer desrespeito à dignidade humana”, disse Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da companhia no Brasil.
Tudo porque, nos últimos dias, a empresa está sob investigação do Ministérios Público pela possibilidade de ter trabalhadores chineses atuando na construção da fábrica local da empresa, na Bahia (BA), em condições degradantes. A pessoas seriam empregadas por companhias parceiras, terceirizadas, mas com atuação dentro do complexo da montadora. A situação foi revelada em reportagem da Agência Pública.
“Respeitamos as leis brasileiras, sejam elas trabalhistas, de meio ambiente ou relações comerciais. Tudo passa por minuciosa auditoria”, defendeu o executivo em evento para mostrar a construção da fábrica baiana e anunciar a abertura de 10 mil vagas de emprego ali já em 2025.
Terceirizadas submeteram pessoas ao trabalho degradante na BYD
A agenda positiva da BYD só foi revelada depois que o escândalo eclodiu, mas Baldy garante que o evento estava marcado antes que a montadora tivesse qualquer pista da investigação. Vale reforçar que o convite para que Automotive Business e a outros veículos de imprensa participassem da visita chegou no dia 25 de novembro, dias antes da publicação da reportagem da Agência Pública, que aconteceu no dia 28.
De qualquer forma, é seguro afirmar que a empresa foi consultada pela reportagem sobre o tema e recebeu a visita do Ministério Público antes disso, em 11 de novembro.
Questionado sobre a parceria entre a BYD com as empresas chinesas acusadas de manter trabalhadores em condições degradantes, responsáveis pela construção da unidade de Camaçari, o executivo tergiversou. “Pedimos o cancelamento do visto e a promoção do retorno à China daquelas pessoas envolvidas nas acusações. Promovemos aqui um investimento sério”, disse, sem especificar se a Jinjiang Group, Open Steel e a AE Corp, envolvidas em maus tratos dos empregados, seguem como terceirizadas da BYD.
A montadora aplica R$ 5,5 bilhões na construção de complexo industrial em Camaçari, no terreno antes ocupado pela produção da Ford. A operação começa em março de 2025 em regime SKD, a partir de kits importados da China, e deve alcançar para produção nacional propriamente dita em agosto do próximo ano.
Em plena era ESG (de governança ambiental, social e corporativa), a BYD tem trabalhado o posicionamento de green tech, com o discurso de oferecer soluções sustentáveis, que não contribuem com o aquecimento global. De nada adianta, no entanto, se não houver garantia de boas condições de vida e de trabalho às pessoas que, diariamente, contribuem com essa oferta de produtos e serviços.
