Com fomento da ABDI, cidades brasileiras criam laboratórios vivos para novas tecnologias de mobilidade

As chamadas sandboxes abrem caminhos para testes de carros elétricos, semáforos inteligentes e 5G

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Victor Bianchin, AB
  • 14/09/2021 - 16:30
  • 3 minutos de leitura
    
             Projeto Vem DF conta com 16 carrinhos elétricos Twizy, da Renault, usados para transporte de servidores públicos

    Desde 2018, o Brasil está ganhando laboratórios silenciosos onde estão sendo testadas as tecnologias que farão parte da vida de todos os brasileiros nas próximas décadas. São as sandboxes, áreas físicas dentro de grandes cidades em que, com parcerias entre setor público e privado, novas ferramentas tecnológicas são aplicadas antes de serem liberadas para o grande público.

    Essa história começou em 2018 quando a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) fechou um convênio com o Parque Tecnológico Itaipu para a criação de um “living lab” para testar tecnologias em Foz do Iguaçu. A agência apresentou um projeto piloto de compartilhamento de veículos elétricos para frotas públicas e o Parque desenvolveu o software para a iniciativa, com foco em uso para governos.  O projeto depois foi exportado para Brasília e para Londrina.

    
             Os Renault Twizy sendo carregados no Distrito Federal

    Com tantos projetos tecnológicos em cidades diferentes, a ABDI decidiu firmar o modelo de sandbox para esse tipo de teste. Nesse sistema, o governo firma um acordo formal cedendo uma área física da cidade, habitada, para que as tecnologias sejam testadas. Hoje, são sete cidades com sandboxes oficialmente firmados: Foz do Iguaçu (PR), Brasília (DF), Curitiba (PR), Petrolina (PE), Macapá (AP), Salvador (BA), Francisco Morato (SP) e Campina Grande (PB).

    “Estamos criando ambientes de experimentação e testes de tecnologia”, afirma Tiago Faierstein, gerente da Unidade de Novos Negócios da ABDI. “Isso é uma recomendação da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que pede que a gente teste tecnologias para que os municípios errem menos. Por exemplo, semáforos inteligentes. Se eu colocar na cidade inteira e não funcionar de forma adequada, eu posso ter um megacongestionamento na cidade. Mas se eu fizer isso num bairro, num ambiente controlado, se houver erro eu consigo adequar”, explica ele.

    Mobilidade na vanguarda

    Entre os projetos atualmente realizados nesses espaços, destacam-se os de mobilidade. Em Brasília, o projeto de veículos compartilhados é chamado de VEM DF e conta com 16 carrinhos modelo Twizy, da Renault, que são usados para transportar servidores públicos. Os veículos, que têm autonomia de 100 km e velocidade máxima de 80 km/h, foram cedidos ao governo em forma de comodato, com cláusulas sobre operação, manutenção, taxas e seguros. 

    O compartilhamento dos carros é viabilizado pelo software MoVe, que permite reservar os veículos disponíveis e acompanhar sua localização. Cada servidor tem um cartão cadastrado no programa que permite desbloquear o carro. O aplicativo rastreia o automóvel, monitora a velocidade, a carga da bateria e as rotas percorridas. Para garantir o carregamento dos veículos, foram instalados em Brasília eletropostos fabricados pela empresa WEG.

    Mesmo com a pandemia, em quase dois anos de operação (de outubro de 2019 a agosto de 2021), o programa já realizou mais de 6 mil viagens e impediu a emissão de mais de oito toneladas de CO2 (veja quadro). “Cada veículo compartilhado substituiu oito da frota normal”, afirma Faierstein.

    O outro projeto de mobilidade é referente aos semáforos inteligentes, que funcionam nos sandboxes de Petrolina, Londrina, Foz do Iguaçu, Macapá e Salvador. Os sistemas contam com luminárias inteligentes, câmeras de monitoramento em 4k, software de reconhecimento facial, câmera leitora de placa de veículos e softwares de inteligência artificial que ajudam em todo o controle de fluxo de veículos e pessoas. 

    
             Cruzamento de Petrolina (PE) em que semáforos inteligentes foram instalados: congestionamentos zerados

    Em Petrolina, o semáforo inteligente foi instalado no cruzamento das avenidas Guararapes e Joaquim Nabuco, um dos mais movimentados da cidade. E olha só: os congestionamentos no local foram zerados. “O fluxo de veículos é gerido por inteligência artificial, fazendo com que não haja mais retenção nestas vias”, afirma Thiago Britto, secretário executivo de desenvolvimento econômico. “Além disso, todas as cinco faixas de rolagem contam com câmeras LPR de leitura de placas de veículos, onde podemos ter todo o controle de veículos que transitam pelo local. Neste cruzamento também foi melhorado toda acessibilidade com rampas para cadeirantes e botoeiras com sinais visuais e sonoros”, conta ele.

    Além da questão da mobilidade, o semáforo inteligente também ajuda na segurança, pois o monitoramento permite que sejam identificados carros procurados pela polícia. “O sistema sabe te dizer por qual rua esse carro entrou, por onde ele saiu, se tinha outro carro acompanhando ele, etc.”, afirma Faierstein.

    E não vai parar por aí. A ABDI agora firmou acordo com a Anatel para começar a testar nesses sandboxes, em 2022, o 5G voltado a recursos de smart cities. A ideia é que sejam testadas novidades como carros autônomos que se comunicam entre si e com a cidade. “Ainda não sabemos quais cidades terão 5G, estamos aguardando a Anatel, mas provavelmente será estratificado por regiões brasileiras, um teste em cada uma”, prevê Faierstein.

    Empresas privadas também podem testar projetos nos sandboxes. É preciso esperar os editais ou chamamentos realizados pelas prefeituras de cada município, porém. Recentemente, Foz do Iguaçu e Petrolina fizeram essas convocações e obtiveram sucesso, com até mesmo empresas estrangeiras se candidatando. Companhias interessadas podem procurar a ABDI para saber dos próximos editais.