Opinião 

Por que o marketing da diversidade prospera no setor automotivo

Diversity washing ganha força em uma série de empresas que levantam bandeiras, mas estão longe de investir para oferecer equidade de oportunidades

Por Giovanna Riato
  • 11/08/2021 - 00:00
  • | Atualizado há 1 semana, 4 dias
  • 3 minutos de leitura

    Nos últimos quatro anos, assumimos em Automotive Business o fomento à diversidade e à inclusão no setor automotivo como parte da nossa responsabilidade. Afinal, se somos um veículo de comunicação voltado à liderança de uma indústria reconhecida como símbolo de masculinidade, nada mais coerente do que trabalhar para provocar a evolução tanto nesse estereótipo, quanto na essência do negócio.

    Desde que nos debruçamos no tema, uma mudança rápida do setor automotivo me surpreendeu.

    Lá no começo, era raro encontrar uma empresa automotiva disposta a se expor quando o assunto era diversidade e inclusão. A maioria corria de debates e não tinha interesse em dar entrevistas sobre o assunto. A dificuldade era tanta que na primeira edição do Fórum AB Diversidade no Setor Automotivo, em 2018, não encontrei sequer uma fabricante de veículos ou fornecedor com disposição para subir ao palco. Foi suado colocar o debate de pé e fizemos todas as discussões com especialistas no tema, consultores e empresas de outros segmentos que tinham cases interessantes a compartilhar.

    Corta a cena para 2021: hoje a realidade é completamente diferente. No lugar de repelir, o tema passou a atrair as empresas e marcas, que valorizam qualquer espaço para contar as próprias iniciativas e participar das matérias que fazemos a respeito. A empolgação de ver esse movimento foi tanta que demorou para entender que, na verdade, a mudança aconteceu rápido porque, em muitos casos, não foi profunda, não foi genuína.

    NÃO FALTAM MAUS EXEMPLOS

    Aparentemente, o episódio seguinte ao green washing - divulgar iniciativas ecológicas enquanto há pouca consciência ambiental na empresa por trás das cortinas, é o diversity washing, de organizações que vendem uma imagem plural enquanto reproduzem uma série de práticas nada inclusivas internamente.

    E não faltam exemplos. Já teve fabricante de veículos que se autopromoveu por produzir um filme publicitário estrelado por uma mulher negra enquanto internamente não tinha sequer um projeto para fomentar a representatividade na equipe. Em palestras sobre diversidade em empresas automotivas, inúmeras vezes eu e a Paula Braga, CEO da Automotive Business, fomos procuradas depois das apresentações por colaboradoras que vinham denunciar os próprios gestores por atitudes preconceituosas e por colocar entraves à ascensão profissional de pessoas da equipe.

    Recentemente, uma profissional que acumulava mais de uma década de bagagem na indústria automotiva, com uma reputação admirável, veio me contar o por quê tomou a decisão de pedir demissão e sair do setor pelo qual era apaixonada. Ela descobriu que ganhava 40% a menos do que o colega homem que ocupava posição equivalente à dela na mesma equipe.

    Além disso, após anos de trabalho, a profissional cansou de lidar com os boicotes do próprio gestor. Para completar, o tal chefe que não se incomodava em ter mulheres em condição de desigualdade na própria equipe foi promovido. E adivinha? Publicamente, a empresa adora levantar a bandeira da diversidade.

    QUEM FICA PARA, DE FATO, ARREGAÇAR AS MANGAS?

    Não me entenda mal com o desabafo: tem muitas iniciativas sinceras e de fato transformadoras pela diversidade no setor automotivo. Há lideranças engajadas, empresas que têm trabalhado o tema com tanto foco que já geram mudanças visíveis (essas sim dignas de toda a publicidade) e companhias com projetos tímidos, que ainda têm resultados incipientes, mas promissores para o futuro pela dedicação com que são executados. Contamos algumas dessas histórias aqui.

    Quando se trata de diversidade, a questão nem sempre está no resultado, mas no envolvimento genuíno da organização no tema. O meu ponto é que aqui em Automotive Business acabamos desenvolvendo um faro sensível para o que é real e o que não passa de espuma.

    Nosso desafio mais recente tem sido a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, que está aberta para a participação das empresas até 13 de agosto (é só acessar aqui). Nos surpreendeu ver que companhias que sempre buscam visibilidade no tema, não responderam ao estudo até agora.

    Deve ser porque, nesse caso, o diversity washing não tem vez. A pesquisa é sigilosa, mas pede uma série de informações que são essenciais para entendermos como o segmento está caminhando no fomento à pluralidade. Por isso, participar do projeto só faz sentido para companhias que, de fato, querem entender o contexto e fomentar mudanças, não apenas levantar bandeiras vazias.

    SEMPRE É TEMPO DE NÃO SE CONFORMAR

    Esta será a terceira edição da pesquisa, que gera um conhecimento inédito e traz parâmetros à indústria automotiva quando se trata de diversidade (aqui estão os relatórios completos). Nos estudos, apuramos que as mulheres ainda têm remuneração até 34% menor do que a oferecida a homens que ocupam posições equivalentes.

    Também descobrimos que, apesar de mais da metade da população brasileira ser negra, no setor automotivo esse grupo representa menos de 10% da força de trabalho. E vale sempre destacar que 94% de quem toma decisões no setor automotivo são homens brancos – esse é o perfil da alta liderança das empresas.

    Muito além da impessoalidade dos números, se uma coisa ficou clara ao longo desses anos de trabalho pela diversidade é que, em muitos casos, grandes resultados surgem a partir de um indivíduo ou um pequeno grupo de pessoas que simplesmente não consegue se contentar em trabalhar para uma empresa que não busca oferecer equidade de oportunidades.

    E escrevo justamente para você que não quer se conformar com pouco: é sempre tempo de começar projetos ou, se for o caso, cobrar a sua organização por iniciativas genuínas para se tornar mais plural. Nem sempre é fácil, mas desse lado me comprometo a te ajudar a fazer barulho e a buscar visibilidade se a conversa for genuína.

    *Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business