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Antonio Filosa

Stellantis resgata executivos nos EUA para reverter estragos da era Tavares

Retorno de nomes fortes é uma das medidas tomadas por Antonio Filosa para reduzir estoques e recuperar vendas da Stellantis nos EUA
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Redação AB

28 jan 2025

6 minutos de leitura

Tim Kuniskis, CEO da Ram
Kuniskis voltou ao comando da Ram após ter se aposentado em junho de 2024

A Stellantis vive novos dias nos Estados Unidos após a saída de Carlos Tavares. Antes apática e até um pouco descompromissada diante dos péssimos resultados de vendas das marcas Jeep e Ram, a empresa se esforça para remediar os estragos feitos pela antiga administração.

Prova disso foi a volta do CEO Tim Kuniskis ao comando da Ram apenas seis meses após sua aposentadoria. O executivo revelou à imprensa local que retornou com a missão de mudar completamente a postura da marca nos EUA.

Inclusive, as mudanças já começaram: Kuniskis adiou o lançamento da picape elétrica 1500 REV de meados de 2025 para o começo de 2026. O motivo está na baixa demanda pelo segmento na atualidade. Assim, a Ramcharger, versão híbrida da nova 1500, será lançada antes disso.

“Não foi uma decisão difícil (de tomar)”, afirmou o novo CEO da Ram à agência “Automotive News” durante o Salão de Detroit.

O plano emergencial inclui reconstruir o bom relacionamento com concessionários, fornecedores e sindicatos.

Filosa promoveu volta de executivos da Stellantis nos EUA

A volta de Kuniskis, inclusive, foi uma das várias medidas tomadas por Antonio Filosa, atual diretor de operações da Stellantis América do Norte.

A intenção do ex-CEO da Stellantis América do Sul é fortalecer o comando da empresa promovendo o retorno de executivos que entendem do mercado e o consumidor nos EUA.

Filosa também recolocou Jeff Kommor no cargo de diretor de vendas dos EUA. Tavares havia transferido o profissional para um posto na área comercial em fevereiro de 2024.

Desde então, a montadora teve um ano desastroso que culminou na perda de quase 2% de participação de mercado. Além disso, a empresa precisou tomar medidas drásticas para desovar os milhares de carros em estoque no país.

De acordo com Filosa, “as coisas estão mudando muito rapidamente” após a saída de Tavares no começo de dezembro passado.

“Uma das minhas primeiras decisões foi trazer de volta os talentos que perdemos no passado. É por isso que fiquei feliz quando Kuniskis aceitou o desafio de voltar. Também comemorei quando Jeff Kommor fez o mesmo”, afirmou a jornalistas em meados de janeiro.

Chairman deu maior autonomia às operações regionais

Enquanto a Stellantis trabalha para escolher um novo CEO até o meio do ano, a empresa é liderada por um comitê executivo interino comandado por seu chairman, John Elkann.

Em outra mudança frente à “era Tavares”, Elkann deu maior autonomia às operações regionais. Por exemplo, Filosa é responsável por supervisionar as atuações dos mercados das Américas do Norte e do Sul.

“Nosso chairman deixou claro a todos que as regiões precisam estar à frente do negócio. Essa é uma grande mudança em relação ao passado e estamos seguindo o plano. Então, estamos reformulando processos organizacionais”, afirmou Filosa.

Desde quando ganhou maior autonomia, o diretor da Stellantis América do Norte se reúne constantemente com concessionários e pretende manter essa rotina pelo maior tempo possível.

Segundo Filosa, a prioridade número um “é entender o que eles (concessionários) sabem como vender carros, qual é a forma correta de fazê-lo e qual é o plano correto” para acabar com problemas como estoques grandes.

Kuniskis diz que queria voltar à empresa

Kuniskis era CEO das marcas Ram e Dodge até se aposentar em 1º de junho. Entretanto, o executivo admitiu que já estava com vontade de voltar à empresa antes de Filosa procurá-lo. Então, Tim afirmou que definir seu retorno ao comando da Ram “não foi uma negociação difícil”.

Após 32 anos de carreira na Chrysler, Tim admitiu que não “desligou” durante o tempo em que esteve aposentado. Manteve conversas com vários executivos da Stellantis nos EUA (incluindo Elkann e Filosa) e foi até procurado por revendedores que perguntavam se ele poderia fazer algo para ajudá-los.

Ram vai apostar em segmento de vans de passageiros

Além de ter adiado o lançamento da 1500 elétrica, Kuniskis tem outros planos em mente. O projeto é investir nos segmentos de vans e picapes.

Embora tenha construído uma imagem de sofisticação em mercados como o Brasil, a Ram é bastante forte no segmento de comerciais leves nos Estados Unidos.

É por isso que Tim pretende investir em uma van de passageiros, segmento no qual a Ram não participa hoje. A gama atual da marca tem apenas a ProMaster, essencialmente uma versão da Fiat Ducato com a logomarca da Ram, que é voltada para o transporte de carga.

Especula-se que o plano seria lançar um modelo no segmento onde já estão modelos como a Chrysler Pacifica, mas um degrau abaixo do veículo que hoje lidera a categoria. Assim, o novo produto seria algo semelhante à Dodge Grand Caravan descontinuada em 2020.

CEO da Ram quer picape média, mas Rampage não deve ser saída

Um “problema de longo prazo” que Kuniskis espera resolver é a falta de uma picape média em seu portfólio. A Ram é, hoje, a única grande marca nos EUA sem um modelo no segmento.

Alguns apontam que a Rampage, cuja aceitação foi bastante positiva no Brasil, poderia ser uma alternativa interessante. Entretanto, a empresa deve optar por um projeto mais adequado às preferências locais.

A solução pode estar justamente em uma das questões mais controversas da gestão de Tavares. O ex-CEO adiou um investimento bilionário para reabrir a linha de produção em Belvidere.

Lá seria produzida uma inédita picape média a partir de 2027. Além disso, a empresa também prometeu inaugurar uma planta para produzir baterias de carros eletrificados a partir de 2028.

Filosa garantiu que a Stellantis não cancelou nenhum dos planos.

Decisões de Filosa foram elogiadas por parceiros da Stellantis

Até agora, parceiros da montadora aprovaram as medidas da nova administração.

Michael Bettenhausen, chairman do Conselho Nacional de Revendedores da Stellantis nos EUA, elogiou as voltas dos executivos.

“Tim tem 30 anos de empresa e Jeff está conosco há quase 40 anos. Esses caras são capazes de não comerem para vender veículos. Esse é o tipo de ambição que eles têm e eles são capazes de incendiar nossos times e dar a intensidade necessária para vender”, afirmou, à “Automotive News”.

Amenizar a tensão criada por Tavares com os sindicatos também é uma prioridade de Filosa. Houve até ameaças de greve geral caso a empresa não cumprisse com as promessas feitas em 2023

Filosa disse que já conversou no passado com o presidente da UAW, Shawn Fain, e com o vice-presidente, Kevin Gotinsky, que administra a divisão da Stellantis dentro da associação, e pretende abrir novos diálogos.

O executivo está confiante que os dois lados podem chegar a um consenso.