logo

“Nosso cliente sinalizou que espera ver um motor híbrido nos carros da Chevrolet, e ele verá”

Em entrevista exclusiva, Fabio Rua, VP da GM, fala da transição energética da montadora no Brasil, de investimentos da empresa e das expectativas quanto ao Mover
Author image

Fernando Miragaya

22 mai 2024

11 minutos de leitura

Imagem de Destaque

O carro híbrido da General Motors (GM) no Brasil pode chegar mais rápido do que se pensa. Mesmo sem definir datas, prazos ou mesmo o nível de hibridização, Fabio Rua, vice-presidente de relações públicas, comunicação e ESG da montadora para a América Latina, deixa no ar que o centenário da Chevrolet no país, em 2025, pode ser adequado para isso. 

Em entrevista exclusiva à Automotive Business durante apresentação da Chevrolet S10 2025 em Pirenópolis (GO), o executivo reforçou a estratégia da GM em fazer dos híbridos a ponte para a transição energética. Uma demanda que seria do mercado e dos consumidores brasileiros, mas que também coincide com a mudança de estratégia global da empresa.

Nestes novos planos, os 100 anos de atividades da GM no Brasil poderiam ser o cenário perfeito para a estreia do primeiro híbrido da empresa por aqui. “A partir do ano que vem, talvez, você veja um novo reposicionamento das tecnologias que temos para oferecer para o mercado”, afirmou.


VEJA MAIS:– À espera de investimentos, GM de Gravataí fecha acordo com funcionários

– Combustão viva: além de carros elétricos, GM aposta em veículos tradicionais em 2024


Na entrevista, Fabio Rua também fala sobre como os investimentos de R$ 7 bilhões da montadora anunciados em abril serão aplicados dentro deste contexto da eletrificação. Além disso, o VP da GM conversa sobre as expectativas quanto ao programa Mover e exportações.

A GM prometeu seis veículos este ano, o que inclui modelos de combustão tradicionais (S10, Trailblazer e Spin) e elétricos (Blazer e Equinox). Como será a estratégia de produto e a busca por este equilíbrio entre eletrificação e um mercado de combustão que não pode ser rejeitado neste momento no Brasil?

Nos carros a combustão cada vez mais temos a preocupação em aumentar a eficiência energética e diminuir o impacto ambiental. Isso faz parte do processo de transição pelo qual estamos passando e existe legislação que exige que tenhamos essa preocupação. Procuramos ir além. Pode ver que os níveis alcançados por esses lançamentos estão acima dos requeridos hoje pelas regulamentações. Em breve vem o Proconve L8 e nossos produtos estarão adaptados para essa nova regulamentação. 

Mas dentro das metas de eletrificação da matriz…

Nosso futuro é elétrico e temos o compromisso de até 2035 não produzir mais veículos a combustão no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Até lá, vamos fazer uma transição e essa transição vai ser no ritmo ditado pelo consumidor e pelo mercado. Temos novos entrantes que deram uma chacoalhada no mercado e que nos obrigam a ter maior agilidade, maior volume de lançamentos, de inovação e de condições de fazer essa transição de uma forma também mais acelerada. Até o ano passado tínhamos uma postura global de que não faríamos nessa transição uma passagem pelo híbrido. Pelas condições de mercado e com a exigência do nosso cliente, que entende que, no Brasil, principalmente, o híbrido é uma solução viável, uma solução que traz a segurança que ele precisa enquanto a gente não tem um nível de infraestrutura que gostariamos, o híbrido passa a fazer parte do nosso hall de opções em vários países do mundo, inclusive no Brasil.

Você citou o Proconve e uma nova fase do programa já bate na porta da indústria, que será mais restritiva em questões de emissões. Vocês renovaram alguns motores, como o da S10, mas têm motores antigos no portfólio. A hibridização e a eletrificação ajudariam também a GM a se antecipar ao Proconve L8?

Eu diria que a hibridização é menos impulsionada pelo Proconve e mais por essa nossa determinação de acelerar o nosso processo de eletrificação.

Desta forma, o que podemos esperar em termos de produtos da GM no Brasil no ano que vem?

Ano que vem é o ano do nosso centenário. Neste ano estamos focando nesses seis lançamentos que você mencionou, inclusive dois elétricos. A partir do ano que vem, talvez, você veja um novo reposicionamento das tecnologias que temos para oferecer para o mercado, e isso é um processo contínuo. Começamos dando uma intensificada maior nas nossas ofertas de elétricos, para também testar a aceitação do consumidor. E se você acompanhar o portfólio americano de elétricos pode ter pistas do que eventualmente pode vir para o Brasil em um segundo momento. E acompanhando o movimento dos nossos investimentos que foram anunciados no início deste ano, também se pode ver pistas do que pretendemos fazer com esses investimentos para modernizar as fábricas, o portfólio de produtos e as tecnologias que a gente tem para oferecer a partir do Brasil.

A gente já pode esperar um híbrido da GM para 2025, celebrando o centenário no Brasil?

Eu não posso anunciar isso agora, mas o que eu posso dizer é que essa é uma decisão da nossa corporação de oferecer alguns modelos dos nossos veículos em formato híbrido. Não vou antecipar o nível de hibridização, mas o que eu posso afirmar é que o nosso cliente sinalizou que esse é um motor que ele espera ver nos carros da Chevrolet em algum momento. Nos próximos meses ou em um ano, ele verá.

Você também lembrou que houve uma mudança de rumos da própria GM, até para o Brasil falava-se muito em elétrico. Mas vimos que em muitos mercados, como nos EUA, os consumidores e as marcas estão voltando para os híbridos. Isso facilitou a estratégia para a filial da GM no Brasil?

Diria que desse novo ciclo de investimentos que acabamos de anunciar consideramos investir boa parte desses recursos em novas tecnologias, e aí você coloca híbrido, nas suas três variações, e elétrico. Ao longo do tempo eu entendo que nosso portfólio de produtos produzidos no Brasil será transformado nessa mesma linha.

Houve vários anúncios de investimentos e movimentos de outras montadoras após a publicação do Mover. Na sua visão, o programa setorial precisa de ajustes, pode melhorar?

O Mover precisa virar lei, precisa ser aprovado pelo Congresso até o dia 31 de maio sob o risco de ficarmos em um limbo regulatório que não vai ser bom para ninguém (Nota da redação: a entrevista foi feita no dia 14 de maio, quando o programa ainda não havia sido votado). O relatório que foi apresentado pelo deputado Átila Lins, que é o relator do Mover na Câmara dos Deputados, está bastante satisfatório. Atende a todas as conversas que foram mantidas com o Ministério ao longo dos últimos meses, está equilibrado, com tudo o que foi anunciado no decreto do final do ano passado, dá a previsibilidade jurídica que a gente precisa para seguir apostando no Brasil. Mas ele tem um risco. 

Qual risco?

Existe a possibilidade de surgirem emendas de plenário, que não são anunciadas previamente. Simplesmente aparecem, o presidente da mesa anuncia, abre uma votação e se aprovar entra lá no texto. Temos receio que emendas de plenário, que podem favorecer eventualmente um em detrimento de vários, sejam apresentadas e aprovadas. Então o nosso objetivo, antes de qualquer coisa, é ser vigilante em relação ao processo de aprovação do Mover. Nosso entendimento é de que o texto está bom e tem que ser aprovado assim como foi apresentado. Emendas não vão ajudar, independentemente de onde elas venham e de qual teor que apresentam, pois vão trazer uma assimetria que hoje não têm em relação aos benefícios concedidos.

O Mover é imprescindível para esta nova fase do setor?

O Mover é um programa fundamental para seguir desenvolvendo a indústria, para que projetos de pesquisa e desenvolvimento sejam feitos no Brasil, para que a gente desenvolva tecnologia e inovação no Brasil e para que a gente tenha condições de acelerar o processo de transição energética dos nossos veículos. O Mover bonifica a carbonização e pune quem não está olhando isso com a atenção devida.

De alguma forma o investimento anunciado pela GM foi cadenciado ou pautado pela expectativa em relação ao Mover?

O compromisso da GM com o Brasil é inequívoco, é histórico e é praticamente centenário. Anunciaríamos, com Mover ou sem Mover, um novo ciclo de investimentos. O que fizemos este ano foi anunciar, antes do Mover, uma primeira fase desse novo ciclo de investimentos, de R$ 7 bilhões. Pós-Mover, uma vez regulamentado e entrando em vigor, temos a expectativa de anunciar uma nova fase desse ciclo, mas precisamos ter a certeza de que o Mover esteja equilibrado, que não tenha nenhuma assimetria, nenhum desfavorecimento ao ambiente competitivo que a gente preza no Brasil.

De volta à questão da hibridização. A GM tem quatro unidades principais no Brasil. Qual estaria mais apta a receber esse processo de produção de carro híbrido neste momento?

Todas as nossas plantas têm um fator de atualização no aspecto tecnológico muito forte. Todas elas têm condições, obviamente feitas modificações na linha e com novo maquinário, de receber qualquer linha de produtos. Elas são flexíveis e temos condições de fazer isso com adaptações, de certa forma que não vão exigir grandes quantidades de investimento. Mas um motor híbrido será fabricado no Brasil? Não sei. Como é que vai ser feito o processo de desenvolvimento desses carros híbridos, em que planta, não temos ainda essa definição.

A indústria, de uns tempos pra cá, tenta equilibrar produtos de maior valor agregado com volume. A GM faz isso com as linhas Onix, Tracker e S10, para dar um exemplo. Esse equilíbrio entre rentabilidade e volume é o ideal para se operar no Brasil hoje? 

Temos como objetivo oferecer produtos para os nossos clientes com toda a gama de valores que podemos produzir. Desde carros acessíveis a carros premium estão, e estarão, cada vez mais presentes no nosso portfólio. O Blazer EV e o Equinox EV que vamos lançar, saem de um patamar um pouco mais alto para atender a uma camada de clientes que têm interesse nesses nichos. Isso não quer dizer que a gente vá diminuir a produção de carros mais acessíveis ou que vá deixar de atender alguns mercados. Queremos ter um portfólio cada vez mais diversificado para que possamos atender a todos os públicos que têm interesse em comprar nossos produtos.

Nesse montante do investimento que vocês anunciaram, já foi definido quanto vai para cada unidade?

Devemos anunciar isso em breve. 

Recentemente, a GM informou sobre o fim das atividades industriais na Colômbia e no Equador, mercados onde a fabricante têm liderança histórica. Isso pode se tornar uma oportunidade para as exportações da GM do Brasil?

Antes de tudo, não sairemos de nenhum desses países. Estamos transformando o nosso negócio, que hoje é manufatureiro, para um negócio de vendas com um portfólio novo, reformulado e amplo. Teremos uma estrutura muito parecida com o que temos no Chile, tanto na Colômbia quanto no Equador. Por serem países muito abertos, o Equador inclusive acabou de assinar um acordo de comércio com a China, esses carros podem vir de qualquer uma das nossas subsidiárias, inclusive do Brasil. Temos desafios ainda no Brasil de exportação para a América do Sul. No ano passado decresceu nosso volume de exportações e esse ano não temos perspectivas de ampliar esse volume. Mas tendo condições de exportar, temos capacidade ociosa nas nossas fábricas. Temos totais condições de acelerar e produzir cada vez mais carros para o mercado da América do Sul.

O que falta para isso?

Precisamos de condições para isso e os governos têm trabalhado nesse sentido. O presidente Lula esteve na Colômbia recentemente. Tem um compromisso do governo de ampliar as condições para que o Brasil tenha a sua vocação natural implementada, que é a de ser um hub de exportação para América do Sul, especialmente no setor automotivo.

É muito difícil para o Brasil hoje exportar overseas? Ou perdemos competitividade?

Perdemos competitividade e há questões logísticas, o frete acaba ficando muito caro e em alguns países, obviamente com tarifas de importação, fica impraticável. Por isso que temos essa estratégia na maioria das regiões de produzir onde vende. Não adianta fazer um carro aqui e vender para a Ásia. Tenho que vender onde logisticamente sou mais favorecido para economizar em frete e aumentar o dinamismo do fluxo de comércio. Já exportamos para vários outros países do Caribe, por exemplo. São volumes menores, mas exportamos. Mas saindo dessa região neste momento não temos fluxos consideráveis.

Um acordo mais amplo além do Mercosul beneficiaria essas negociações?

Temos total interesse em ver o Brasil se abrindo para o mundo no que tange a exportação de veículos de qualquer categoria. Temos acordos automotivos com México, Colômbia e Argentina, e temos que intensificar esse acordos, que foram construídos lá atrás, com volumes mais baixos e em condições diferentes. Então, já estamos conversando com o governo brasileiro para que essas negociações sejam abertas e aprofundadas.