
Se a debatida fusão entre Honda e Nissan der certo, o novo player fruto dessa união será a terceira maior montadora do mundo em volume de vendas, ficando atrás apenas de Volkswagen e Toyota. No ano passado, o volume conjunto vendido pelas companhias no mundo ficou perto de 7,5 milhões de unidades, superando, portanto, a Hyundai, que entregou 4,1 milhões de veículos.
As líderes Toyota e Volks, por sua vez, venderam respectivamente 11,2 milhões e 9,2 milhões de unidades no mundo ao longo de todo o ano passado. Em uma análise fria, o volume comercial por si só justificaria a fusão entre as montadoras como um bom negócio para ambas.
Quem ganha com Nissan e Honda juntas?
Sozinhas, as organizações enfrentam futuro incerto por causa de perda de participação de mercado na China e, também, pelas patinadas em termos de desenvolvimento de veículos elétricos – além da necessidade de arcar com o alto custo desse processo. Assim, a possível fusão Nissan-Honda poderia aliviar alguns desses desafios que as levaram a perder protagonismo.
O negócio também tem potencial para aliviar a barra de outros agentes que circundam o entorno das companhias. A Nissan sofreu nos últimos meses forte desvalorização dos seus papeis em bolsa, sobretudo após reconfiguração do seu desenho dentro da aliança que manteve com a Renault.
As ações da montadora acumularam até novembro uma desvalorização de 33,5%, o que a tornou, de certa forma, ativo atrativo no mercado em termos de preço.
Manter japonesa uma empresa… japonesa
A aproximação da Honda nesse contexto, diz o consultor David Wong, da Alvarez & Marsal, poderia servir como uma espécie de garantia de que a Nissan seguiria sendo uma empresa de capital japonês em uma eventual fusão ou aquisição no mercado.
“Isso, para os japoneses, é muito importante, essa questão de manter grandes nomes da economia local com o capital japonês. Vimos isso de forma clara na aliança Renault-Nissan”, disse Wong.
Em um passado não tão distante, o aumento do poder da Renault – e do governo francês – na aliança criou um ambiente de muitas intrigas e troca de acusações que culminou na fuga espetacular do CEO Caros Ghosn do Japão, que estava preso justamente por questões envolvendo a Nissan.
De lá pra cá o clima nunca mais foi o mesmo, e uma certa calmaria pairou sobre a aliança depois de costurado um acordo no qual a Renault concordou em reduzir sua participação na Nissan de 43% para 15%.
Se, por um lado, a fusão poderia enfim atender a um pleito japonês de aumentar a influência de executivos do país na montadora, por outro, o negócio abriria a brecha ideal para a Renault sair de uma aliança que só lhe trouxe dores de cabeça nos últimos anos.
E por um preço bom: na terça-feira, 17, quando pipocou no noticiário internacional a possível fusão, o valor das ações da Nissan aumentou 24% na Bolsa de Tóquio.
Ainda falta combinar com os franceses
O consultor automotivo Milad Kalume Neto considera pouco provável a concretização da fusão Nissan-Honda, uma vez que a Renault ainda pode ter motivos para ter a marca dentro da aliança.
Ele destaca também diferenças culturais entre as empresas que poderiam tornar o processo de fusão menos atrativo, como, por exemplo, o fato da Honda estar muito atrelada ao controle japonês, ao passo que a Nissan, em termos de gestão, consegue operar bem por meio de mãos ocidentais.
“A Honda é muito descentralizada. Há diversas Honda pelo mundo, todas sob forte tutela da matriz japonesa. A Nissan, por sua vez, já tem uma cultura corporativa muito ao estilo dos Estados Unidos, e isso poderia gerar algum tipo de barreira para a fusão”, contou o consultor.
