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Foton quer herdar rede da Ford Caminhões
Ricardo Mendonça de Barros: empenho para trazer concessionário da Ford Caminhões para a Foton

Estratégia | 13/02/2020 | 19h35

Foton quer herdar rede da Ford Caminhões

Marca chinesa completa 10 anos persistentes no Brasil e vai retomar produção em Guaíba

PEDRO KUTNEY, AB

“Persistente e errática”, concorda o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente do conselho da Foton no Brasil, ao definir a difícil trajetória de 10 anos da marca chinesa de caminhões que ele trouxe ao País, que entre pequenos avanços e muitos tropeços, começa mais uma vez a traçar seu futuro para deslanchar no mercado nacional. Desta vez, por obra do acaso, surgiu a oportunidade concreta para superar o maior problema da Foton por aqui, a falta de uma rede de distribuição consolidada. A maior aposta agora é herdar parte das concessionárias deixadas pela Ford, que em 2019 decidiu fechar fábrica de São Bernardo do Campo (SP) e sair do negócio de caminhões.



A Ford tinha 101 concessionárias de caminhões administradas por 53 grupos empresariais. Destes, a Foton já conseguiu atrair oito que acrescentaram 21 pontos de venda e assistência à sua rede, que já tinha 19. Com isso, o número de casas da marca chinesa foi dobrado para 40 no ano passado. Ricardo Mendonça de Barros, filho do fundador da empresa e diretor de vendas e rede, afirma que colocou foco total nesta oportunidade. Ele avalia que existem boas chances de fechar com mais 20 a 25 grupos este ano, todos ex-Ford, dobrando novamente a rede da Foton no País.

“Alguns grupos receberam indenização da Ford e até desistiram do negócio de caminhões. Outros esperavam por uma definição para ver se o Grupo Caoa iria assumir a operação, mas com a desistência aqueles que querem continuar têm boas chances de vir trabalhar com a Foton, porque temos produtos muito parecidos e eles têm a estrutura pronta”, afirma o diretor. “Somos flexíveis. A única exigência é ter um showroom só para a Foton, os concessionários podem ter oficinas multimarca e vender veículos de outras marcas. Já fui concessionário de outra montadora e sei que as negociações não são fáceis, empurram produtos e fazem você comprar de fornecedores deles. Pretendemos mudar isso e conversar mais com os distribuidores, até para decidir a linha de produtos. Inclusive, vamos fazer na mesma rede a distribuição de SUVs e picapes que pretendemos importar da Foton”, revela.



APOIO DA CHINA E CRESCIMENTO



No ano passado a Foton abriu uma subsidiária própria para apoiar os negócios no Brasil e financiar suas importações. Agora os veículos e peças são importados diretamente pela companhia chinesa, que após o desembaraço aduaneiro são entregues para distribuição e venda à empresa de Mendonça de Barros, que ficou descapitalizada com a intensa crise dos últimos anos e em 2019 precisou entrar em recuperação judicial.

“Antes tínhamos limitações financeiras para importar. Com o apoio direto da China, agora podemos importar todo o volume de veículos e partes que precisamos, sem restrições, enquanto nos recuperamos com o aumento das vendas”, explica Ricardo Mendonça de Barros.

A nova configuração do negócio já fez bastante diferença no ano passado. Mesmo com volumes ainda baixos, os 135 veículos vendidos (127 comerciais leves de 3,5 toneladas e oito caminhões leves) em 2019 representaram forte crescimento de 214% sobre as 43 unidades de 2018. “O resultado até superou um pouco a meta que tínhamos com a Foton”, diz Ricardo.

Este ano a expectativa é avançar mais 30%. “Mas é uma projeção conservadora, se as negociações com concessionários derem certo e o mercado retomar com mais força nossas vendas podem crescer até 50%”, aposta Ricardo. “Temos potencial para crescer muito no Nordeste, que já representou 70% das nossas vendas, mas hoje tem poucas concessionárias e ficou desassistido”, pontua.

MAIS PRODUTOS E MONTAGEM NO BRASIL




Foton de 3.5 toneladas: comercial leve é o carro-chefe da marca no Brasil

Existem planos de incrementar o portfólio de produtos da Foton no País, atualmente formado por dois comerciais leves de 3,5 toneladas (um com rodado traseiro simples e outro duplo) e um caminhão de 10 toneladas. A ideia é introduzir novos modelos de 2,5 toneladas e caminhões de 6 e 11 toneladas. A Foton tem linha completa de caminhões na China, mas aqui, por enquanto, o foco será em trazer os leves e médios, para reduzir riscos de prejuízos. “O mercado de pesados é de alto valor e já tem fabricantes muito bem posicionados aqui, fica difícil competir. Outras marcas chinesas tentaram e não conseguiram. Se tivéssemos feito o mesmo o tombo teria sido irrecuperável”, diz Ricardo.

Desde que se instalou no Brasil, há 10 anos, a Foton vendeu no total 1,6 mil veículos, dos quais 250 foram montados em linha alugada da Agrale em Caxias do Sul (RS) até o fim do ano passado. A operação de montagem nacional será retomada na semana que vem, mas desta vez em instalações da Gefco, que se instalou na também gaúcha Guaíba para atender a GM de Gravataí e fechou contrato também com a Foton, para executar serviços de montagem e adaptações dos caminhões importados.

A Gefco se instalou em Guaíba em uma área de 500 mil metros quadrados dentro do mesmo terreno de 4 milhões de m2 que, nos fim dos anos 1990, foi destinado para a Ford fazer uma fábricam – que após desentendimento com o governo gaúcho acabou sendo construída em Camaçari (BA). Em 2013, uma fatia de 1,5 milhão de m2 foi destinada pelo Estado para a Foton fazer sua planta industrial no País, mas as obras foram paralisadas ainda nas fundações, em 2014, com o aprofundamento da crise econômica e a queda abrupta do mercado nacional de caminhões.

Só em 2016 foi tomada a decisão de montar os caminhões Foton na Agrale, para cumprir o compromisso de produção nacional do Inovar-Auto. “Não ficamos devendo nada no Inovar-Auto, passamos sem problemas na auditoria do (antigo) MDIC”, destaca Ricardo. Agora a empresa volta para o local onde orginalmente deveria ter feito sua fábrica, mas com a Gefco.

“Durante todo esse tempo lutamos pela sobrevivência da empresa, persistimos porque vimos na Foton um parceiro que valia a pena, que ia crescer muito, como de fato aconteceu”, disse Luiz Carlos Mendonça de Barros.



HISTÓRIA ERRÁTICA E PERSISTENTE




Luiz Carlos Mendonça de Barros: amigo da China

O economista teve seu primeiro contato com a China em 1996, quando era presidente do BNDES e viajou ao país para assinar um empréstimo para financiar a importação de turbinas do Brasil para a usina hidrelétrica de Três Gargantas. “Na época os chineses não tinham nem dinheiro nem tecnologia para isso, daí se vê como foi rápida a evolução”, lembra. Nesta mesma viagem, Mendonça de Barros manteve contato com várias autoridades do governo e foi incluído em um livro de “amigos da China no exterior”.

Em 2009, a Foton enviou uma delegação ao Brasil e chegando aqui procuraram “o brasileiro amigo dos chineses”, e propuseram a ele representar a marca no País. Foi quando Mendonça de Barros ofereceu sociedade no negócio ao filho Ricardo, que gostou da ideia. Após uma viagem à China, no começo de 2010, os dois voltaram de lá com a representação da empresa para o mercado brasileiro.

Antes mesmo do navio trazendo o primeiro lote de caminhões Foton chegar ao Brasil foi lançado o Inovar-Auto, programa que para forçar a nacionalização da indústria previa a sobretaxação de 30 pontos porcentuais de IPI sobre veículos importados.

“Nos habilitamos no Inovar-Auto com o compromisso de produzir aqui para poder importar sem a sobretaxa. O governo do Rio Grande do Sul nos deu as mesmas condições que tinham sido oferecidas à Ford para instalar a fábrica em Guaíba. Aceitamos a proposta, mas aí veio a crise, o mercado de caminhões foi derrubado de 180 mil unidades para 40 mil. Então tivemos de parar tudo para lutar pela sobrevivência da empresa”, conta Mendonça de Barros, que agora fica na presidência do conselho e passou todas as decisões executivas para os diretores, incluindo seu filho. Cabe agora a Ricardo a nova investida para construir o mercado da Foton no Brasil.



Tags: Foton, caminhões, Ford, Guaíba, resultado 2019, projeção 2020, fábrica, indústria, distribuição.

Comentários

  • Dorival Saraiva

    AFoton faz bem em investir pesado no mercado brasileiro. Em breve, a empresa chinesa colherá os frutos.

  • Ezequiasferreira de oliveira

    Tiveoportunidade de trabalhar na Concessionária Mundial Caminhões de Recife como mecânico, e fechando a empresa aqui tive a ideia de abrir uma oficina pra mim e atender as demandas dos Foton, a única dificuldade é peças para manutenção dos mesmos. Mais acredito que com a fábrica no Brasil será muito mais fácil. São caminhões muito bons e os clientes estão satisfeitos com a marca e com os produtos que eles possuem.

  • WainerMaruca

    Srs Bomdia Início meu comentário sempre deixando expresso tratar-se de minha opinião pessoal. Solicito desculpa se as mesmas forem contrárias aos demais leitores. Infelizmente as tratativas comercias com a Foton (China) e o grupo brasileiro não evoluem devido a um fato bem simples CHINÊS NÃO É SÉRIO pelo menos neste segmento (automotivo) , não vamos nos iludir sirvamos de inúmeros outros exemplos : Sinotruck etc. São verdadeiros parasitas sempre prometendo iludindo e não cumprindo nada . Acordem pessoas séria envolvidas (iludidas) . Mais uma vez solicito minha desculpas se desagradou os envolvidos. Fiquemos com Deus no coração. Abçs

  • Nilton Lopes Jr.

    Gostaria de realizar uma crítica construtiva ao leitor Wainer Maruca, mas os chineses estão avançando muito na indústria automobilística. O problema é que o Brasil está em crise financeira e as vendas estão muito ruins. Do contrário, tenho a certeza de que muitas fabricantes da China estariam investindo em nosso país. Chery, SAIC, BAIC, JAC, Geely etc. estão em outro patamar tecnológico, não muito distante dos japoneses e coreanos. Aliás, a Geely já é dona de marcas como Lotus, Volvo etc.

  • AlecsandroCamara

    Fuivendedor da marca na concessionária em Recife, veículos muito bons, clientes satisfeitos com o produto, porém hoje se sentem "abandonados" pela marca, apesar de contarem com oficina credenciada para serviços, a desvalorização e dificuldade em repassar os usados é queixa geral, mas quando questionados, são unânimes em afirmar que trocariam por um novo, caso a rede se instale novamente na região. A lacuna no mercado ainda existe, fica a dica.

  • Layla M. Bueno da Silva

    A China tem tudo para ter as maiores e melhores montadoras do mundo. Tenham a certeza de que, logo que a economia melhorar, muitos carros chineses estarão em circulação em nosso país. A BYD é a maior fabricante de carros elétricos do mundo e tem tudo para derrotar a Tesla. Quero muitas fábricas de carros da China no Brasil. Beijos!

  • Pedro Henrique Salvador do Carmo

    Foium comentário muito infeliz o do Sr. Wainer Maruca, ao afirmar que o chinês não é sério. Tudo é um aprendizado e os chineses estão se esforçando muito e conquistando ao poucos o seu espaço. A Geely e a BAIC estão entre os principais acionistas da Daimler (Mercedes). Os chineses estão fazendo um ótimo trabalho com os alemães. A Foton, por certo, crescerá muito no Brasil.

  • Reinaldo Macedo Gomes

    Que venha não só a Foton, mas também muitas outras fabricantes da China, a fim de gerar milhares de empregos para o nosso país!

  • Maria dos Santos Silva

    Marcas chinesas de motocicletas, carros, caminhões e ônibus vieram para ficar. Receberemos toda e qualquer montadora da China de braços abertos.

  • Ricardo de Oliveira

    A China, em poucos anos, vai dominar muitos mercados importantes como o Brasil, os EUA etc. Eles já estão fabricando produtos de primeira linha, sem dever nada para Tesla, VW, Toyota etc. Acostumem-se, pois o SEU carro será chinês. A Foton veio para ficar e incomodar a Volvo, Mercedes, Scania etc.

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