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GM consegue unir sindicatos e trabalhadores contra cortes
Manifestação e assembleia na porta da da GM em São José dos Campos atrasou em mais de uma hora a entrada dos funcionários: empresa fez recuos, mas metalúrgicos rejeitam congelamento de reajustes e aumento de jornada de trabalho

Trabalho | 01/02/2019 | 20h00

GM consegue unir sindicatos e trabalhadores contra cortes

Empresa desiste de renegociar acordo em Gravataí e faz recuos em para São José; São Caetano recusa todas as propostas

PEDRO KUTNEY, AB

Após dezenas de reuniões, até o fim da semana a único resultado concreto que a GM conseguiu com suas imposições de cortes de custos trabalhistas foi a construção de uma rara união de trabalhadores de todos os sindicatos de metalúrgicos e centrais sindicais, de diferentes matizes ideológicos, agora unânimes contra todas as propostas da companhia de congelar bônus e reajustes salariais, reduzir pisos e eliminar benefícios em suas fábricas paulistas de São Caetano do Sul e São José dos Campos, além na gaúcha Gravataí.

Provocadas pela ameaça de deixar o país por meio de e-mail aos funcionários, as reuniões entre representantes da empresa e dos sindicatos das três fábricas aconteceram quase que diariamente ao longo das duas últimas semanas, sem que a GM tivesse conseguido convencer seus empregados a aceitar “sacrifícios de todos”, como proposto no e-mail por Carlos Zarlenga, presidente da operação no Mercosul.

Muito pelo contrário, até o momento os trabalhadores rejeitaram todos os sacrifícios propostos, obrigando a companhia a fazer alguns recuos – e provocando a convocação de uma espécie de união nacional e internacional de metalúrgicos de diferentes entidades sindicais, inclusive de algumas sem envolvimento direto com a GM, para resistir ao fechamento de fábricas e replicação por outras empresas de propostas de cortes trabalhistas parecidos.

“Já ficou claro que esta luta não é só dos metalúrgicos da GM, mas de todos os setores”, afirma Renato Almeida, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos.



GRAVATAÍ CONSEGUE MANTER ACORDO ATÉ 2020



Até agora quem conseguiu os melhores resultados foram os metalúrgicos da GM em Gravataí, que no início desta semana também foram surpreendidos por 21 propostas de cortes nos mesmos moldes dos apresentados nas outras fábricas do grupo no País, que na prática revogavam os ganhos de acordo firmado com a montadora em 2017 e válido até 2020.

Após várias reuniões sem chegar a entendimento, na manhã da sexta-feira, 1º, os trabalhadores organizaram manifestação que paralisou toda a produção por quase quatro horas. Em assembleia organizada na frente da fábrica pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí (Sinmgra, filiado à Força Sindical), foi decidida a volta ao trabalho depois que a empresa concordou em cumprir o acordo atual até o fim do ano que vem – incluindo o pagamento de participação de lucros e resultados (PLR) que este ano pode chegar à casa de R$ 16 mil por empregado.

Não por acaso, a GM cedeu em sua fábrica mais eficiente na América do Sul, que opera hoje em três turnos para produzir os carros mais vendidos da região (Onix e Prisma), o que torna qualquer paralisação ali potencialmente mais danosa para elevar os já altos prejuízos que a companhia afirma ter acumulado nos últimos três anos no País. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, essa perda chegou a R$ 1 bilhão no ano passado.

Gravataí também abriga o investimento mais maduro da montadora, informado em R$ 1,4 bilhão, para produzir a partir de julho a nova geração de Onix e Prisma, com também novos motores tricilíndricos 1.0 e 1.2, aspirados e turboalimentados, que este ano começam a ser fabricados em Joinville (SC). A planta emprega cerca de 2 mil pessoas diretamente e outras 4 mil nos fornecedores que atuam dentro do mesmo condomínio industrial.

EM SÃO JOSÉ, SEM ACORDO E COM RECUOS



Ao contrário de Gravataí e São Caetano, os cerca de 4,8 mil empregados da fábrica de São José dos Campos não têm nenhum acordo formal em vigor com a GM. Ali a empresa sempre teve relação conflituosa com o sindicato dos metalúrgicos da cidade, filiado à central CSP-Conlutas, por isso a planta foi deixada de fora do último ciclo de investimentos, a linha de veículos leves que fabricava o antigo Corsa foi desativada e hoje a unidade produz a picape S10 e o SUV de grande porte Trailblazer, além de motores e transmissões. Assim os trabalhadores receberam a maior lista de sacrifícios, com 28 itens que incluíam redução de 30% no piso salarial (de R$ 2,3 mil para R$ 1,6 mil) e até o fim do transporte fretado dos funcionários.

De acordo com informações não confirmadas pela GM, a montadora espera “dobrar” os funcionários para definir a produção da nova geração da S10 na unidade, a partir de 2020. O sindicato afirma que a montadora quer retirar direitos adquiridos sem no entanto confirmar nenhum investimento, em uma repetição de 2013, quando houve negociações de um acordo com trabalhadores e município para a fabricação de um novo produto na unidade, que nunca se concretizou.

Segundo comunicado distribuído pelo sindicato, “depois de 10 dias desde o começo das negociações (iniciadas em 21 de janeiro), houve alguns avanços em determinados pontos, a GM recuou, por exemplo, na tentativa de aumentar a jornada de 40 para 44 horas semanais, aplicar o trabalho intermitente e contrato parcial na fábrica de São José dos Campos, mas as negociações estão longe de acabar”, afirma a entidade.

Em assembleia na porta da fábrica na manhã da sexta-feira, 1º, os trabalhadores atrasaram em uma hora e meia o início da produção e rejeitaram todas as propostas remanescentes. De acordo com o sindicato de São José, “a GM insiste em manter congelamento de salário, nova grade salarial, terceirização irrestrita e fim da estabilidade no emprego para lesionados”.

TENSÃO GRADUAL EM SÃO CAETANO



Os trabalhadores da GM em São Caetano do Sul – a mais antiga fábrica da companhia em operação no País, inaugurada em 1930 – também tinham acordo fechado até 2020, que serviu de condição para a montadora anunciar, no fim de 2017, investimento de R$ 1,2 bilhão para ampliar a capacidade de 250 mil para 330 mil veículos/ano, com a produção do primeiro SUV nacional da fabricante (possivelmente o novo Tracker). A planta emprega 9,3 mil pessoas e produz uma linha antiga de modelos (Onix Joy, Cobalt, Cobalt e Montana), mas vinha sendo preparada para fazer o novo modelo a partir de dezembro, segundo o sindicato dos metalúrgicos da cidade.

Assim como aconteceu em Gravataí, os empregados da planta de São Caetano também foram surpreendidos com uma lista de 22 itens que anulava o acordo em vigor, impondo em linhas gerais cortes de custos muito parecidos com os solicitados aos trabalhadores das outras duas plantas. Desde o fim de dezembro até a semana passada, os funcionários estavam em férias coletivas, justamente para que a linha de produção pudesse ser preparada para receber novos produtos. Desde que voltaram ao trabalho na segunda-feira, 28 de janeiro, foram realizadas diversas assembleias até a última delas, na tarde da sexta-feira, 1º de fevereiro, foram rejeitadas as propostas da empresa, que ainda não havia apresentado recuos.

“Queremos o cumprimento de todas as cláusulas do acordo que temos até o ano que vem. É o que estamos defendendo. Já falamos com todos os turnos da fábrica, horistas e mensalistas, fizemos assembleias até o fim do dia na sexta-feira e os empregados foram unânimes em rejeitar as novas propostas da GM. São eles que decidem. Até agora não vimos nenhum recuo da GM, mas vamos voltar a negociar com eles a partir da segunda-feira (4)”, afirmou José Timóteo da Silva, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul, também filiado à Força Sindical.

UNIÃO DE METALÚRGICOS CONTRA A GM



As propostas de cortes de custos da GM também serviram para reativar as ações do Movimento Brasil Metalúrgico, uma agremiação intersindical que surgiu em agosto de 2017 com a proposta de lutar contra a reforma trabalhista, por iniciativa dos dirigentes de todas as centrais sindicais do País, incluindo CUT, CTB, Força Sindical, CSP-Conlutas, UGT e Intersindical. Motivados desta vez especificamente pelas ações da GM no Brasil, os representantes do movimento realizaram uma reunião plenária na manhã da sexta-feira, 1º, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Os sindicalistas avaliam os acontecimentos como uma ameaça a toda a cadeia automotiva, que pode inclusive resvalar em outras categorias profissionais.

“Quando fazemos a discussão do setor automotivo sem olhar a cadeia, não estamos olhando o setor automotivo. Quando a GM toma uma decisão como essa, é claro que isso vai afetar Osasco, Catalão, o ABC, Santa Rita, Piracicaba”, disse Mônica Veloso, vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos.



Como demonstração de força da categoria, participaram da reunião em São Paulo os dirigentes das centrais sindicais e também de diversos sindicados de metalúrgicos de todo o País, incluindo todos dos principais polos automotivos, como São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo, Santo André e Mauá, São José dos Campos e Curitiba. Também foram ouvidos por videoconferência integrantes de sindicatos do Canadá (Unifor) e Estados Unidos (UAW), que falaram sobre os fechamentos de fábricas anunciados pela GM em ambos os países.

“A companhia não tem sido nada além de arrogante conosco, não se importa com nada além dos lucros, não respeita os trabalhadores e os sacrifícios que fizemos por eles”, disse Dino Chiodo, representante de relações internacionais da central sindical canadense Unifor. “Fechamos fábricas, ocupamos o escritório central da empresa por três dias, colocamos outdoors nas estradas, comerciais na televisão, e estamos ganhando a opinião pública”, contou.

Entre as propostas apresentadas na reunião, os sindicalistas estabeleceram que vão promover em conjunto com entidades internacionais uma “ação sindical mundial, com protestos em concessionárias, contra as ameaças da GM de fechamento de plantas de unidades da empresa, demissões e redução dos direitos dos trabalhadores”.

A GM vem reduzindo seu tamanho globalmente, com a política de se livrar de todas as operações deficitárias, como já aconteceu na Europa, onde a empresa em 2017 vendeu a Opel à PSA. Em anúncios recentes, a GM confirmou fechamentos de quatro fábricas nos Estados Unidos e uma no Canadá que afetam cerca de 30 mil empregados. Também está em processo de encerramento de operações uma unidade na Coreia do Sul e existe a indicação de encerrar atividades de outras duas plantas fora da América do Norte.



Tags: GM Mercosul, General Motors, cortes, trabalho, metalúrgicos, autopeças, fornecedores, negociação, indústria, investimento.

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