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Veículos testam potencial do biogás brasileiro
Audi A5 g-tron é abastecido com biometano produzido a partir de resíduos de cana na planta da GEO Energética com tecnologia da Acesa Bioenergia: nova opção sustentável para o setor sucroenergético

Combustíveis | 29/11/2018 | 17h31

Veículos testam potencial do biogás brasileiro

Ônibus, caminhões, máquinas agrícolas e carros rodam em testes com biometano obtido de resíduos de cana e esgoto

PEDRO KUTNEY, AB

A exploração comercial de um novo tipo de biocombustível brasileiro começa a dar seus primeiros passos promissores no País. O biogás, extraído de resíduos orgânicos como lixo, esgoto e biomassa da agroindústria, já está sendo refinado em biometano para abastecer veículos em testes nas ruas e estradas brasileiras. A produção ainda é pequena, mas o potencial é enorme. Segundo estimativas da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogás), o Brasil tem matéria-prima para produzir 82 bilhões de metros cúbicos de gás biológico por ano, o maior potencial do mundo, o equivalente para substituir 70% do consumo nacional de diesel.

De acordo com a Abiogás, o setor deve experimentar rápido crescimento nos próximos anos. A meta é oferecer 10,7 milhões de metros cúbicos por dia de biometano no mercado brasileiro até 2025, chegando a 32 milhões de m3/dia até 2030. É combustível suficiente para abastecer 1,6 milhão de veículos leves ou substituir quase 20% do consumo de óleo diesel por caminhões, ônibus e tratores.

O uso do combustível gasoso renovável e sustentável apresenta ganhos ambientais e econômicos substanciais. Com preço similar ao do gás natural fóssil (metano), o biometano é mais 50% barato do que a gasolina e em relação ao diesel a economia pode chegar a R$ 1 por litro para grandes frotistas. Além disso, a produção nacional evita gastos com importações.

A vantagem para o meio ambiente é que o biogás apresenta queima mais limpa e eficiente, que na comparação com diesel reduz em 90% as emissões de material particulado e outros poluentes, e 95% do CO2 gerado é quase todo reabsorvido na origem – assim como acontece com o gás carbônico emitido no consumo veicular de etanol, que volta para as plantações de sua matéria-prima, a cana-de-açúcar.

Matéria-prima que já deu ao Brasil o título de maior mercado de biocombustível do mundo com o etanol, que pode ser usado em quase 90% dos veículos leves vendidos no País e responde por quase 20% da matriz energética veicular, a cana-de-açúcar também terá papel principal na expansão do bio-GNV (gás natural veicular biológico). A Abiogás calcula que os resíduos de cana (vinhaça, torta de filtro e palha) que sobram após o processamento nas usinas têm o maior potencial de geração: 41 bilhões de m³ de biogás por ano. Em seguida vem o restante da agroindústria com 38 bilhões de m3/ano e saneamento com 4 bilhões de m3/ano.

A ENERGIA GASOSA DA CANA




Usina da GEO Energética em Tamboara (PR) extrai biogás de resíduos de cana que a Acesa Bionergia refina em biometano para abastecer veículos leves e pesados. Audi A5 g-tron começou a fazer testes com o bio-GNV, também já usado em caminhões Scania e tratores New Holland

A usina da GEO Energética em Tamboara (PR) já começou a extrair biogás de resíduos de cana fornecidos pela Coopcana (Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana) e refinado em biometano dentro da mesma planta pela Acesa Bioenergia. O bio-GNV da GEO/Acesa vem sendo testado em caminhões Scania e tratores agrícolas New Holland, como substituto do diesel. Esta semana começou a ser testado também em um modelo leve, o Audi A5 Sportback g-tron, equipado com motor flexível 2.0 TFSI (turbinado e com injeção direta) de 170 cavalos, que pode rodar com gasolina ou gás natural fóssil, biológico ou e-gas sintético – uma experiência da Audi, produzido a partir de carbono capturado na atmosfera.

A Audi importou o modelo para o Brasil para executar os testes com biometano. Os tanques do A5 g-tron armazenam a uma pressão de 200 bar até 19 kg de gás, suficienetes para rodar 500 km com consumo médio de 26 km/kg de gás, segundo dados da fabricante alemã. O desempenho com biometano é similar ao de um carro a gasolina: 0 a 100 km/h em 8,4 segundos e velocidade máxima de 224 km/h (limitada eletronicamente).

Mas o uso em caminhões, ônibus e tratores a diesel parece ser o maior potencial do biometano de cana, pois abre uma nova possibilidade à indústria sucroenergética brasileira, que até o momento só abastece veículos leves com etanol.

“O uso do biometano como substituto do diesel é o passo que falta para completar a economia circular no setor sucroalcooleiro do nosso País”, destaca Alessandro Gardemann, diretor da GEO Energética e presidente do conselho administrativo da Abiogás.



Empresa de capital nacional, a GEO Energética começou em 2006a desenvolver tecnologia própria para a produção de energia e biogás a partir dos resíduos da cana. Em parceria com a Coopcana, em 2011 colocou em operação sua primeira planta comercial, em área de 10 hectares no noroeste do Paraná, com capacidade instalada para gerar 4 MWs de energia elétrica com a queima de biogás extraído da reciclagem de vinhaça, torta de filtro e palha de cana. Após a extração do gás, esses resíduos também não geram qualquer impacto ambiental, pois voltam à natureza na forma de adubo orgânico sólido e fertilizante líquido.

A solução biotecnológica da GEO foi patenteada em 2009. O processo utiliza todos os resíduos das usinas de cana para a produção de biogás, que é armazenado para ser usado em geradores elétricos ou ser transformado em biometano para uso como combustível em tratores, colheitadeiras, caminhões e ônibus.

A planta em Tamboara já está sendo ampliada para gerar 10 MW de energia e produzir mais biometano. O refino do gás é feito em parceria com a Acesa Bioenergia, que instalou uma unidade dentro da usina da GEO com capacidade para processar 140 m3 de biogás por hora, o que representa produção diária de 1,8 mil m3 de biometano, o suficiente para abastecer até 90 veículos por dia. O biometano produzido tem qualidade energética similar ao metano, o gás natural de petróleo, com parâmetros de qualidade estabelecidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

DO ESGOTO AO TANQUE




Em Franca (SP), Sabesp abriu a primeira estação de tratamento de esgoto com geração de biogás e instalou estação de abastecimento de biometano para ônibus urbano: Scania faz testes com o bio-GNV

A Sabesp explora outra fonte promissora de biogás no País. A companhia de saneamento do Estado de São Paulo desde abril deste ano produz biometano em Franca, no interior paulista, a partir de uma estação de tratamento de esgotos da cidade. No início deste mês um ônibus urbano de 15 metros Scania K 280 6x2 abastece ali seus tanques de gás para rodar em testes.

O projeto em Franca é o primeiro e até agora único na América Latina a incluir o esgoto urbano na cadeia de produção do biometano. Assim uma fonte de poluição de mananciais pode ser convertida em energia limpa, com mínima emissão de gases poluentes, assim como o biogás extraído de resíduos agrícolas. Como as cidades são as maiores geradoras de esgoto, o bio-GNV extraído dessa fonte tem grande potencial de ser aproveitado nos ônibus do transporte urbano de passageiros.

Em recente evento em São Paulo promovido pela embaixada da Suécia – país que tem investido fortemente no uso de biocombustíveis –, Nicklas Johansson, vice-ministro sueco da indústria e tecnologia, destacou o enorme potencial brasileiro de produção de biogás a partir de várias fontes.

“No Brasil, o biogás é produzido atualmente a partir de resíduos do setor agrícola e utilizado na geração de energia elétrica, porém existe um potencial ainda não explorado que dará acesso a um recurso verde e inesgotável, com a produção deste biocombustível em larga escala. A utilização do biometano como combustível limpo para o transporte público pode ajudar a solucionar vários problemas das cidades brasileiras”, reforça o vice-ministro sueco Johansson.



Especialistas calculam que os resíduos da agropecuária (na criação de animais) em conjunto com o lodo das plantas de tratamento de água e esgoto produzido no Brasil têm potencial de gerar mais de 50 bilhões de metros cúbicos de biogás por ano, suficientes para atender a demanda por combustível das frotas de ônibus de todas as cidades brasileiras.

Há décadas a Suécia direciona a maior parte do biogás que produz para o transporte público. Com desenvolvimento de tecnologia e os incentivos do governo, 90% da rede de gás veicular sueca é abastecida com biometano. “A cadeia do biometano é uma forma de introduzir o conceito de economia circular, a qual propõe um novo desenho de sociedade e sua relação, de forma sustentável, com as matérias-primas e os resíduos gerados”, pondera Johansson.

Henrik Henriksson, CEO global da Scania, avalia que o biometano deverá aumentar significativamente sua presença no transporte de carga e passageiros nos próximos anos. No último Salão de Veículos Comerciais de Hannover, em setembro passado na Alemanha, a marca sueca apresentou diversas opções de caminhões e ônibus equipados com novos motores que funcionam com qualquer tipo de gás, fóssil ou biológico, com potência e torque similares ao dos modelos diesel. Henrikson lembrou que o Brasil tem potencial para ser um dos maiores fornecedores do biocombustível gasoso.

“No Brasil o potencial de produção de biogás é enorme. Costumo lembrar que apenas 600 toaletes são suficientes para abastecer um caminhão por um ano inteiro. E o País ainda tem muitas outras fontes para gerar biometano”, afirma Henrik Henriksson, CEO da Scania.





Tags: Biogás, Biometano, Bio-GNV, gás natural veicular biológico, biocombustível, resíduos de cana, esgotos, ônibus Scania, Audi A5 g-tron, sustentabilidade, GEO Energética, Acesa Bioenergia, Sabesp, Abiogás.

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