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“A ZF mudou nos últimos 5 anos. Nos abrimos para as oportunidades”

Estratégia | 13/09/2018 | 20h25

“A ZF mudou nos últimos 5 anos. Nos abrimos para as oportunidades”

Wilson Bricio, CEO da companhia, fala sobre os 60 anos da companhia no Brasil e da busca da empresa por se reinventar e permanecer relevante

GIOVANNA RIATO, AB

A alemã ZF é uma das grandes fornecedoras da indústria automotiva no mundo e carrega os louros e o peso que um título como este traz. Com o setor em processo de transformação, a companhia promove revolução interna para não se perder pelo caminho, com investimento em novas tecnologias e modelos de negócio capazes de garantir relevância para o futuro, ainda que o contexto mude. A empresa entra de cabeça na revolução digital e quer ficar cada vez mais distante da fama de fornecedora de simples partes mecânicas para entregar inteligência e eficiência para a indústria e os consumidores.

No Brasil, quem lidera este esforço é Wilson Bricio, CEO da ZF para a região e também da TRW, que foi comprada pelo grupo alemão em 2015. “Estamos adequando a organização as necessidades e demandas do mercado e isso acontece no Brasil também”, diz. Na companhia desde 2001, ele chegou aos 60 anos em 2018, justamente quando a operação local da organização também completa seis décadas de história. A ZF Brasil foi a primeira filial internacional do grupo, com início da construção da fábrica em 1958 para, no ano seguinte, começar a produzir transmissões localmente.

Atuar no país se tornou um teste importante da vocação internacional da empresa. “O ambiente volátil foi um grande ensinamento. Aqui há necessidade de ter percepção contínua do que está acontecendo no mercado e muita flexibilidade”, avalia Bricio. O contexto instável talvez seja uma das características que menos mudaram ao longo dos últimos 60 anos. “Já chegamos a representar mais de 10% dos negócios mundiais da ZF. Hoje esse porcentual caiu para em torno de 3%. Estamos com praticamente metade do volume que registramos no passado. A questão é que investimos para ter o dobro disso.”

Na entrevista a seguir ele faz o balanço dos 60 anos da companhia, fala dos desafios para que o Brasil se recupere, analisa o Rota 2030, as tendências e tecnologias globais e ainda reflete sobre seu papel como líder em todo o processo.

Como foi o primeiro semestre para a ZF globalmente?


Foi um primeiro semestre de mudanças organizacionais, o nosso novo CEO, Wolf-Henning Scheider, assumiu e fizemos uma revisão da estratégia para o futuro. O mais importante é que seguimos com a meta reduzir a zero o número de acidentes, as emissões dos carros e com o plano de avançar na automação e na eletrificação. Em termos de performance, o nosso volume aumentou, porém nós precisamos fazer maiores investimentos na área de desenvolvimento de produtos em função justamente dessas novas tecnologias. Também há um certo aperto em margens. Temos que competir de uma forma mais acirrada.

Como está a participação do Brasil nesse resultado?


O Brasil já chegou a representar mais de 10% dos nossos negócios mundiais. Hoje esse porcentual caiu para em torno de 3%. Estamos com praticamente metade do volume que registramos no passado. A questão é que investimos para ter o dobro disso. Nos últimos anos compramos a TRW, que que era uma empresa do tamanho da ZF aqui no Brasil, e atualmente as duas companhias juntas têm o faturamento que a ZF registrava sozinha em 2013. É uma redução importante de mercado aliada ao grande crescimento que vemos na China, à recuperação dos Estados Unidos e à estabilidade do mercado europeu.

Como a demanda está evoluindo no Brasil? A recuperação se traduz em volta dos volumes para a ZF?


Houve melhora considerável, não há dúvidas sobre isso. Na área de veículos de passeio há uma combinação de melhoria dos volumes e aumento da nossa participação em determinadas linhas de produto. Neste segmento, lançamos a nossa direção elétrica, a primeira do Brasil, e estamos alcançando ótimos resultados. Quando falamos de veículos comerciais, a recuperação também nos impacta de forma interessante. Na área de agrícola estamos mantendo patamar muito bom. Em resumo, este ano tem sido de melhoria, mas é uma melhoria relativa.

Ainda temos áreas em que estamos com 50% de ociosidade, enquanto outras têm 70% de ocupação.

A ZF trabalha em quantos turnos?


Tem algumas áreas que trabalhamos em três turnos, mas aqui em Sorocaba a maioria está voltando a dois turnos. É uma evolução considerável. Na época da crise chegamos a ter apenas 0,8 turno.

As exportações de veículos do Brasil começam a desacelerar depois de um começo de ano aquecido. Vocês já sentem este movimento? Qual é a expectativa para o ano?


Na área de veículos de passeio vemos alguns clientes planejarem redução nos turnos de produção nos próximos meses, mas ainda em patamar interessante para nós. Em exportações, tivemos crescimento grande, que agora começa a se estabilizar em patamar elevado. Porém ainda há mercados para explorar.

Vocês exportam diretamente?


Pouca coisa. Exportamos para a Argentina, mas direto para o cliente final. Também produzimos para alguma fabricas nossas em outros países. Hoje a exportação gira em torno de 5%. Nosso foco realmente é o mercado brasileiro, argentino e sul-americano.

Você está na ZF há 17 anos. Quais mudanças percebe na companhia neste período?


A ZF sempre foi uma empresa de muita tecnologia, voltada ao desenvolvimento de produtos e soluções. É algo que precisamos sempre olhar com muito cuidado, garantir que o mercado veja valor nisso.

Uma das grandes mudanças dos últimos anos foi colocar o cliente na frente da tecnologia. As soluções estão aqui para servir o cliente, não o inverso.

Trabalhamos também a liderança, treinando justamente para essa volatilidade que temos no mercado. Também trouxemos muita tecnologia para atender a estas novas demandas do mercado.

A operação brasileira foi a primeira da ZF fora da Alemanha. O que o trabalho local ensinou para a organização globalmente?


Certamente viver no ambiente volátil do Brasil foi um grande ensinamento. Aqui há necessidade de ter percepção continua sobre o que está acontecendo no mercado e muita flexibilidade. Esta capacidade de se adaptar só vem acompanhada de criatividade para encontrar soluções. Hoje encontramos em todas as divisões da companhia pessoas que foram treinadas ou tiveram uma vivencia aqui e conquistaram posições globais. É uma contribuição importante do Brasil: formar profissionais que estejam preparados para enfrentar instabilidades, que sejam flexíveis.

Globalmente a ZF trabalha com uma nova abordagem. Que espaço vocês querem ocupar neste momento de transformação do setor automotivo?


Nosso esforço para posicionar a ZF tecnologicamente de forma correta nesse novo mundo da mobilidade. Ainda estamos tentando entender como será este cenário, mas já temos algumas certezas: os veículos serão elétricos, com muita tecnologia de condução autônoma. Queremos ser líderes de mercado neste novo contexto, com competitividade para oferecer soluções avançadas que estejam ao alcance do bolso do consumidor. Garantir segurança e reduzir as emissões são as maiores preocupações.

O lucro e os investimentos antes destinados à indústria automotiva estão mudando de mãos, indo para empresas de tecnologia e mobilidade. Qual é o plano da ZF para se posicionar neste ambiente?


Criar valor e apostar em novas soluções tecnológicas e modelos de negócio. Nós estamos trabalhando para entender quais modelos de negócios surgirão com a mobilidade no futuro. As grandes corporações automotivas deverão oferecer serviços, com foco em veículos elétricos e autônomos. Ninguém sabe como esta mudança vai terminar.

O que percebemos é que a mobilidade deve se tornar uma questão mais pública, com menos posse do veículo e mais uso compartilhado.

A ZF criou uma divisão para tratar da eletrificação. Também fundamos uma empresa, a Zukunft Ventures, que comprou participação em uma série de startups na área de inteligência artificial, sensores, software. Temos parceria inclusive com outras grandes companhias, como a chinesa Baidu. A ideia é trabalhar de forma colaborativa.

Qual é o principal desafio tecnológico da ZF neste cenário?


A ZF tem a vantagem de ter hoje três linhas importantes de desenvolvimento para o veículo: see, think and act (do inglês ver, pensar e agir). Sempre trabalhamos muito bem o “act”, que é garantir que o carro tenha os sistemas mecânicos. Com a aquisição da TRW, ganhamos muita tecnologia na área do “see”, que são os radares capazes de fazer o sensoriamento em volta do veículo. O “think” é a grande batalha, é a área da inteligência artificial, onde a ZF tem investido bastante. Não estamos mais buscando apenas desenvolvimento interno, mas também parcerias externas para chegar às soluções mais rápido. O próximo passo é desenvolver o ecossistema de serviços e negócios ligados ao carro. Recentemente anunciamos o Car eWallet, que facilitará transações financeiras automatizadas. Enfim, há uma série de desdobramentos e a ZF está atuando em cada um deles.

Você concorda que esta é uma mudança de paradigma para a indústria automotiva, que sempre fez desenvolvimentos fechados, em segredo?


Sim. A questão é que esta transformação precisa acontecer muito rápido. É essencial estar antenado e trabalhar com o espírito de startup. Tem uma mística de que só aquele cara do Vale do Silício pode ter essa abordagem, mas nós temos uma força de trabalho jovem e antenada, que quer cada vez mais criar novas soluções em um ambiente flexível e colaborativo.

A ZF de hoje é muito diferente da empresa cinco anos atrás. Estamos nos abrindo para as oportunidades.

Como isso se traduz aqui para o Brasil? De que forma vocês conseguem arejar a companhia aqui?


O nosso primeiro grande passo foi usar melhor a colaboração entre a empresa e as universidades e instituições de pesquisa. Nós já fizemos vários trabalhos com o ITA e estamos muito próximos da Facens, Faculdade de Engenharia de Sorocaba. Estas colaborações nos ajudam a trazer essa mentalidade jovem, com vontade de aprende, para dentro da ZF. Também atuamos em parceria com o Insper.

Na via contrária, temos colaborado com algumas instituições porque entendemos que o aprendizado de engenharia precisa mudar. Ninguém mais quer o conhecimento enlatado, que você recebe na universidade e pode exercer a profissão.

Hoje o conhecimento tem começo, mas não tem fim. A academia precisa se tornar mais próxima da realidade, do dia a dia.

Grandes empresas, como as automotivas, tendem a ficar mais lentas e burocráticas. Como é para a ZF buscar uma abordagem ágil?


Percebo que nós, como brasileiros, já temos um pouco disso. É aquela flexibilidade que sempre exercemos em função da volatilidade do mercado. Vejo que aqui a empresa já é mais aberta e colaborativa. A questão é que agora essa postura tem mais impulso porque há condições no mercado. Coisas que parecem distante do Brasil, como o crescimento do uso de carros elétricos, vão começar a acontecer muito rápido. Se ficarmos céticos, achando que não vai dar certo, corremos um risco sério de ficar para trás.

A nossa indústria vai sofrer um desafio muito grande e o nosso papel também é incentivar os nossos fornecedores e outros parceiros a enxergar o que isso significa. Já temos projetos de eletrificação para o Brasil. Queremos trazer powertrain elétrico, mas estamos buscando parcerias para isso. Acredito que isso vai acontecer mais rápido do que a gente imagina.

Entre estas novas tecnologias para o setor automotivo, quais têm potencial de chegar mais rápido no Brasil?


A eletrificação é uma delas, mas não para todos os segmentos. Tem mais potencial para o transporte em grandes cidades, de passageiros ou de mercadorias. Os sistemas de apoio à condução também vão crescer rápido no Brasil, como dispositivos para evitar choques, atropelamentos. A condução autônoma, no primeiro momento, vai ser um pouco mais difícil para o Brasil por causa da infraestrutura no Brasil. Ainda temos um dever de casa para fazer nesse ponto.

Você entende que a decisão de reduzir o IPI para carros elétricos e híbridos é um estímulo efetivo?


Ainda estamos brigando muito por incentivos pontuais, algo que se aplicava em uma economia fechada. Globalmente isso não se justifica. O incentivo pontual tem efeito de curto prazo, não vai resolver o problema no Brasil. Precisamos encarar de frente a questão da falta de competitividade brasileira.

Isso envolve também o Rota 2030, novo conjunto de regras para o setor automotivo aprovado pelo governo?


É indiscutível que programa apresenta preocupação com áreas importantes, como segurança e eficiência energética. A questão é que passamos meses debatendo, com uma série de recursos envolvidos, para chegar a uma legislação que, no melhor cenário, oferece desconto de dois pontos porcentuais de IPI para as montadoras (somente para aquelas que superarem as metas de eficiência energética). É uma abordagem fora de contexto para uma economia global. A preocupação deveria ser criar fórmulas para inserir o Brasil em cadeias produtivas mundiais, garantir insumos, como o aço, a preços competitivos, desonerar a mão de obra e garantir maior produtividade, reduzir e simplificar os tributos. Se tudo isso for encarado de frente, ninguém precisará de dois pontos de desconto no IPI.

Diante disso, você acha que o programa terá impacto para a indústria brasileira?


É difícil falar agora, precisamos ver as coisas andarem antes. De qualquer forma, entendo que não resolve o problema, mas poderá incentivar algumas coisas.

Qual é a sua expectativa para o médio e longo prazo no Brasil, pensando que temos eleição presidencial neste ano?


Entendo que não podemos nos render ao pessimismo. É preciso lembrar que, mesmo depois de todas as dificuldades que passamos nos últimos anos, ainda estamos de pé. Seguimos com áreas pujantes, como a agricultura, que se esforça para estar à frente em tecnologia, instituições de ensino inovando e um interesse muito grande da iniciativa privada honesta do Brasil de buscar a solução, de trabalhar. As pessoas aqui têm uma garra e uma vontade de melhorar que não é comum em outros países.

Em cenário de transformação tão intensa, estar à frente de uma empresa automotiva é um desafio grande. Como é ser um líder nessa indústria hoje?


A liderança precisa ser hands on, estar junto, ser participativa e próxima das pessoas. Não dá para ter um objetivo próprio, precisa ser um objetivo comum, disseminado, que envolva os colaboradores. Se eles não estiverem convencidos, não conseguirão fazer o que precisa. Buscamos criar um ambiente em que nossos colaboradores possam se expressar, dizer o que pensam.

Liderar hoje é se adaptar às novas necessidades, estar sempre sentindo o pulso, ouvir muito. É um trabalho complexo, em que você investe muito sem ter a certeza do sucesso, que só vem com o tempo.

Aqui na ZF temos há anos a preocupação e formar uma nova liderança. Contamos com duas academias internamente, uma operacional, em que trabalhamos a questão de como atuar na fábrica, na operação, e outra focada em gestão. Um ponto importante para nós é fazer uma mistura das gerações. Todas as idades têm uma contribuição a dar, mas existe a geração do futuro e nós, a geração do passado. Precisamos oferecer a plataforma para que os mais jovens se desenvolvam como pessoas e profissionais e construam as coisas daqui para frente.

Como estão os investimentos da ZF? Há aportes em curso?


Nós diminuímos consideravelmente nos últimos anos, mas não paramos de investir. Estamos fazendo aportes na área de veículos de passeio, na produção de direções elétricas, de produtos no segmento de freios. Também temos um grande plano para trazer novas tecnologias de transmissões para veículos comerciais, com a localização da produção da TraXon. Também lançamos uma linha de eixos para a área agrícola de alta performance. O Brasil é hoje o centro de engenharia global para eixos agrícolas do Grupo ZF. Esta é uma posição importante para a nossa operação.

Pensando no futuro, qual posição você espera que a operação brasileira tenha para a ZF?


Há áreas em que podemos nos desenvolver muito, como a de energias alternativas. No passado o Brasil já teve participação importante no mercado de ônibus. Quando entram países como China e Índia os nossos volumes ficam pequenos. Por isso, nosso esforço aqui é por sermos rápidos, ágeis, trazer soluções, buscar modelos de negócio, testar. Este é o legado que eu gostaria de deixar: essa garra por fazer melhor para, quem sabe, sermos a maior operação da companhia um dia. Porque só ser o maior mercado não nos dá garantia de futuro.



Tags: ZF, estratégia, 60 anos, negócios, Wilson Bricio, inovação.

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