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Negócios | 02/08/2018 | 18h44

Lucro da cadeia automotiva vai para as mãos de empresas de tecnologia, alerta Roland Berger

Consultoria aponta que há muito investimento na mobilidade do futuro, mas ele não está direcionado para a indústria

GIOVANNA RIATO, AB

Nos últimos anos as melhorias incrementais da indústria automotiva receberam menos atenção do consumidor e dos investidores, que acompanhavam com atenção outro movimento: a rápida transformação da mobilidade, com o surgimento de novos serviços e soluções. Rodrigo Custódio, diretor da Roland Berger no Brasil aponta que o segmento atrai forte fluxo de capital, enquanto a indústria automotiva patina para fechar as contas e conseguir fazer os investimentos necessários no desenvolvimento de tecnologias essenciais para sua sustentabilidade no futuro, como carros elétricos e autônomos.

“A transformação é acelerada. O lucro da cadeia automotiva está mudando de mãos, indo para companhias como Waymo e Uber. A indústria precisa entender como se beneficiar disso, em que momento vai conseguir se apropriar e gerar receitas em algum novo negócio”, destaca.

De uma lado, as empresas do setor investem em ativos fixos e em pesquisa e desenvolvimento. De outro, startups de mobilidade e tecnologia recebem generosos aportes de investidores para desenvolver software e escalar seus negócios. “É investimento para queimar dinheiro”, diz Custódio, lembrando que boa parte destas organizações ainda não atingiram equilíbrio financeiro. A Uber, por exemplo, apesar de apresentar consecutivos balanços no vermelho, capitou US$ 11 bilhões em aportes. A chinesa Didi, que comprou a brasileira 99, recebeu US$ 15,7 bilhões. “Na China o movimento á mais acelerado”, diz.

Custódio entende que, depois de algum tempo sem entender este movimento, as empresas automotivas começaram a investir nestas novas companhias para ter alguma participação na transformação. “Agora as próprias montadoras começam a criar divisões de mobilidade, que é o setor que recebe uma avalanche de investimentos”, diz, citando o exemplo da Daimler, que anunciou que vai separar suas operações .

A tendência é que o movimento se aprofunde, diz o consultor. “Em Cingapura, 10% da frota de veículos já são carros compartilhados ou de frotas de serviços de mobilidade”, diz.

É PRECISO SIMPLIFICAR


Ao lado da mobilidade, outro segmento que atrai forte fluxo de capital é o desenvolvimento de carros autônomos, projeto prioritário para todas as companhias que atuam no segmento. “Há grandes empresas envolvidas aí, incluindo as gigantes de tecnologia, como o Google”, lembra. A Roland Berger traça dois cenários para a tecnologia. O mais conservador indica que estes modelos terão participação de 8% nas vendas em 2030. Se a evolução for mais agressiva do que o esperado, a penetração pode chegar a 26% no mesmo ano”, aponta.

A recomendação que ele dá às empresas automotivas é encontrar novas maneiras de monetizar, criando receitas recorrentes. Custódio cita a possibilidade de usar dados dos clientes para oferecer novos modelos de venda ou pagamento pelo uso do carro, trabalhar a manutenção preditiva e serviços baseados na nuvem, tornando o automóvel o hardware que concentra diversas possibilidades de software.

“A tendência é que a venda de veículos seja menor no futuro, mas com margens maiores para as empresas envolvidas, que estarão concentradas em serviços.”

Outra recomendação é que as empresas automotivas simplifiquem a própria atuação. “Não há necessidade de desenvolver todas as tecnologias envolvidas nos carros do futuro”, diz. Ele cita o exemplo da BMW, que decidiu diminuir drasticamente o uso de software customizados e aumentar o aproveitamento de soluções de prateleira, que não impactam a qualidade de seus serviços e são mais baratas.



Tags: cadeia automotiva, lucro, mobilidade, tecnologia, carro autônomo, Roland Berger.

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