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FCA é cada vez menos Fiat e Chrysler
Marchionne fala a analistas no Capital Markets Day: menos Fiat e Chrysler, mais Jeep, Ram, Maserati e Alfa Romeo

Indústria | 07/06/2018 | 12h25

FCA é cada vez menos Fiat e Chrysler

Até 2022, Jeep, Ram, Alfa Romeo e Maserati responderão por 80% do faturamento e a maioria dos lançamentos e novas tecnologias; Fiat só segue relevante na América Latina

PEDRO KUTNEY | De Balocco (Itália)

Fiat e Chrysler, as duas marcas que deram origem ao Grupo FCA, criado em 2014 com a fusão das corporações italiana e americana, estarão cada vez menos presentes nos lançamentos de veículos da fabricante de veículos nos próximos cinco anos. A estratégia, claramente focada na busca de produtos mais rentáveis, foi confirmada por Sergio Marchionne, CEO da FCA, durante o Capital Markets Day, evento realizado em 1º de junho no campo de provas de Balloco, Itália, para divulgar a analistas de mercado e imprensa o plano quinquenal da companhia, de 2018 a 2022.

“Buscamos produtos de maior rentabilidade e mostramos aqui [em Balloco] só o que é mais significativo para isso, os lançamentos de quatro marcas globais que nos farão atingir os objetivos traçados até 2022”, explicou Marchionne.



Durante o evento, das oito marcas de automóveis, picapes e vans do grupo, foram divulgados planos detalhados de produtos para apenas quatro: Jeep, Ram, Alfa Romeo e Maserati, conjunto de onde a diretoria da FCA espera que venham 80% do faturamento de suas vendas em 2022 (contra 65% hoje), equivalente a € 116 bilhões dos € 145 bilhões projetados; enquanto os carros Fiat, Chrysler e Dodge reduzirão sua parcela nas receitas dos atuais 35% para 20%, perto de € 29 bilhões.

O deslocamento de lançamentos para modelos mais rentáveis é fundamental para fazer a FCA alcançar sua meta de aumento da margem de lucro. O Ebit (ganhos antes de impostos e despesas financeiras) foi de € 6,6 bilhões em 2017, ou 6,3% dos € 106 bilhões faturados. A companhia espera elevar esse porcentual até 2022 para faixa de 9% a 11%, o que significará de € 13 bilhões a € 16 bilhões da receita líquida projetada de € 145 bilhões.

APOSTA EM LANÇAMENTOS, ELETRIFICAÇÃO E AUTONOMIA






É esperado que 80% do faturamento venha de produtos completamente novos ou renovados. Por isso, metade dos € 45 bilhões em investimentos programados até 2022 serão aplicados no desenvolvimento de produtos, outros 20% em eletrificação e 15% em projetos de motores e transmissões. Os 15% restantes serão aplicados na infraestrutura industrial do grupo, que precisa de aportes menores agora, depois do processo de intensivas modernizações e ampliações de capacidade produtiva nos últimos cinco anos.

Com esses investimentos a FCA espera recuperar o tempo tecnológico perdido nos últimos anos, quando focou esforços na eliminação de sua dívida industrial (leia aqui) e ficou para trás na corrida por apresentar novidades e criar soluções para atender as duas principais tendências tecnológicas disruptivas da indústria, a eletrificação e sistemas de assistência avançada ao motorista e condução autônoma.

Nesse sentido, a companhia apresentou estratégia para eletrificar boa parte de seus modelos. Quase toda a gama da Jeep, Maserati e Alfa Romeo terá versões híbridas e elétricas até 2022, com incorporação de sistemas híbridos plug-in (HPEV, carros com motorização a combustão e elétrica de maior autonomia que podem ser recarregados na tomada) e 100% elétricos.

Ao mesmo tempo, o grupo vai evitar os altos custos envolvidos na redução das emissões de poluentes dos motores diesel: vai eliminar completamente esta opção de motorização em todos os seus veículos de passageiros. Só os comerciais leves Fiat e Ram serão movidos a diesel a partir de 2022.

A abordagem sobre adoção de sistemas autônomos de direção é mais cautelosa. Até 2022 a FCA não pretende ir mais longe do que o nível 3 de autonomia, em que o carro pode dirigir sem depender das mãos ou olhos do motorista, mas ainda requer sua atenção para assumir o volante em qualquer eventualidade. Mesmo assim, a tecnologia só será oferecida se houver demanda confirmada, pois os custos envolvidos são altos.

Para desenvolver esses sistemas a companhia vai diluir os riscos, ao se unir em um projeto de condução autônoma com a Waymo, companhia que toca o projeto de carro autônomo da Google, a fabricante alemã de automóveis de luxo BMW e a Aptiv, fornecedora de sistemas eletrônicos automotivos que nasceu no ano passado de uma cisão da Delphi.

FIAT RELEVANTE SÓ NA AMÉRICA LATINA. CHRYSLER, DODGE E LANCIA, NEM ISSO






A Fiat deverá manter protagonismo somente na América Latina, com maior relevância no Brasil e na Argentina, onde suas três fábricas produzem atualmente nove modelos (um em Goiana, sete em Betim e um em Córdoba) e até 2021 vão abrigar mais três novos SUVs produzidos nas plantas brasileiras para vendas exclusivas na região (leia aqui).

“Estamos reposicionando a Fiat, que vai operar em segmentos e mercados mais restritos. Reduzimos a área onde podemos ter sucesso com a legislação de emissões”, afirmou o CEO Marchionne sobre a marca-mãe da FCA.



Na Europa, onde a Fiat tem hoje só 5% de participação de mercado com 10 carros em linha, Marchionne não espera nada melhor que isso, vai parar de produzir a maioria dos modelos e investir apenas no segmento de nicho do minicarro 500 e suas variações L e X, com lançamentos de duas versões elétricas. “O apelo verde é a única qualidade exportável da Fiat nos Estados Unidos ou Europa. A marca não tem como competir com as opções mais sofisticadas desses mercados, portanto não adianta insistir nisso”, decretou o CEO.

Ainda assim, o destino da Fiat como marca original do Grupo FCA ainda é melhor do que para a Chrysler, hoje com apenas dois produtos em linha vendidos basicamente nos Estados Unidos e Canadá, o velho sedã grande 300C e a minivan Pacifica em versão convencional e híbrida.

A Pacifica deverá solitariamente fazer a marca Chrysler sobreviver nos próximos anos, graças ao acordo para o desenvolvimento de carros autônomos da FCA com a Waymo, que prevê até 2021 o fornecimento de 62 mil unidades da minivan híbrida para o projeto (estão sendo fornecidas 600 este ano).

Pior ainda parece ser o destino de outras duas marcas do grupo: a americana Dodge – de onde em 2009 a Ram foi destacada como marca exclusiva de picapes no plano de recuperação do então Grupo Chrysler – e a italiana Lancia, remanescente do antigo Grupo Fiat, hoje com três modelos e vendas praticamente restritas à Itália. Para nenhuma delas foi revelado qualquer plano de lançamentos para os próximos anos, deixando em dúvida sua sobrevivência.

JEEP LIDERA VOLUMES E ATENÇÕES






A Jeep tornou-se a marca mais benquista da FCA, pois é dela que vêm os maiores volumes de vendas do grupo. Nos últimos cinco anos a marca se globalizou e mais que dobrou suas vendas, partindo de 730 mil unidades em 2013 para 1,9 milhão projetados este ano, usando 100% de sua capacidade industrial, que passou de quatro fábricas em um país (Estados Unidos) para 10 em seis – incluindo a planta brasileira de Goiana (PE), inaugurada em 2016.

Lastreada no aumento do mercado global de SUVs, sua especialidade, a Jeep espera surfar no crescimento acelerado do segmento, que deve passar dos atuais 32 milhões/ano para 37 milhões até 2022. A marca quer que um a cada 12 utilitários esportivos vendidos no mundo seja um Jeep – algo em torno de 3 milhões de veículos/ano. “Se continuarmos nesse mesmo ritmo, mais adiante no futuro acreditamos poderemos aumentar ainda mais esse índice, vendendo um de cada cinco SUVs”, confia Michael Manley, chefe global da Jeep e Ram.

Para cobrir essa ambição, a FCA concentra na Jeep o maior esforço de lançamentos, ao ritmo de dois por ano até 2022, com adição de modelos mais urbanos à linha. Serão seis Jeep completamente novos: dois SUVs de grande porte que vão relançar os nomes já conhecidos Wagonneer e Grand Wagoneer; dois SUVs de sete assentos nos segmentos médio grande (linha do Grand Cherokee) e médio (Compass); a primeira picape média da marca e um míni SUV que vem sendo chamado de Junior Jeep (que não será produzido no Brasil como se especulava, pois na região esse segmento será reservado à Fiat). Além desses, serão lançadas novas gerações do Renegade, Cherokee e Grand Cherokee, o Compass passará por uma reestilização.

Ao todo, até 2022 a Jeep terá no portfólio 12 modelos em diversos mercados globais, 10 deles completamente novos ou renovados, 10 com opção de powertrain híbrido plug-in (HPEV) e quatro 100% elétricos a bateria (BEV). Todos terão alto grau de conectividade e, com exceção do Junior Jeep, poderão trazer sistemas de condução autônoma nível 3.

NOVO SALTO PARA A RAM






A estratégia aplicada por Marchionne em 2009 para reestruturar o Grupo Chrysler, que entre outras medidas separou da Dodge a Ram para criar uma marca exclusiva de picapes, efetivamente funcionou. De apenas 263 mil modelos Dodge Ram vendidos naquele ano, a Ram sozinha passou por oito anos seguidos de crescimento, vendeu 692 mil em 2017 e projeta 770 mil este ano.

Os planos divulgados para manter o crescimento da divisão de alta rentabilidade envolvem até 2022 a completa renovação da linha atual de dois modelos de grande porte 1500 e Heavy Duty, além da entrada em um novo segmento deste mercado com o lançamento de uma picape média de uma tonelada – do tipo Dodge Dakota, que já foi produzida no Brasil no fim dos anos 1990. O objetivo é aumentar a presença global da divisão, muito restrita à América do Norte atualmente.

A nova picape média deve ser fabricada no México e já está confirmada sua exportação a mercados latino-americanos, inclusive o Brasil, onde a FCA espera defender sua liderança no segmento hoje mantida pelas Fiat Strada e Toro.

Para aumentar a sofisticação e o valor de venda no altamente rentável mercado de picapes dos Estados Unidos, a Ram 1500, que já foi completamente renovada este ano, deverá ser relançada com novo nome, TRX, até 2022. Também está em desenvolvimento nova geração da Heavy Duty.

Com esses movimentos, a expectativa é aumentar as vendas para 1 milhão/ano em 2022, tornando a Ram a segunda marca mais vendida de comerciais leves da região Nafta (Estados Unidos, Canadá e México).

APOSTA NA ALTA RENDA DE MASERATI E ALFA ROMEO



Esboço do novo cupê esportivo de dois lugares da Maserati, o Alfieri

O belo design e esportividade de duas centenárias marcas italianas do Grupo FCA deverão continuar a trazer os maiores ganhos por carro vendido. A expectativa é aumentar os lucros na mesma proporção do aumento de vendas. O plano é vender meio milhão desses carros por ano a partir de 2022, sendo 400 mil Alfa Romeo, oferecendo margem de lucro de 10%, e 100 mil Maserati, com 15% (o maior porcentual de todas as marcas do grupo).

Para assegurar a continuação do crescimento acelerado de suas duas marcas mais sofisticadas, a FCA vai oferecer eletrificação de alto desempenho para todos os modelos, em novos powertrains híbridos, elétricos e a combustão desenvolvidos pela Ferrari – que até o ano passado fazia parte do grupo, foi separada e agora atua como empresa independente.

De apenas 12 mil unidades vendidas globalmente em 2012, a Maserati alcançou 50 mil em 2017 e deve repetir a marca este ano. O impulso veio do cupê de quatro portas Ghibli, lançado em 2014, e do primeiro SUV da marca, o Levante, desde 2016 no mercado. A FCA espera dobrar as vendas da Maserati nos próximos cinco anos com a renovação completa da gama e oferta de powertrain eletrificado para todos os seus modelos. Até 2022 a projeção é que um terço das vendas da marca sejam de modelos híbridos (HPEV) ou 100% elétricos (BEV).

O novo superesportivo de dois lugares Alfieri, que vai substituir o Gran Turismo cupê e conversível, terá versão elétrica com tração integral que leva o carro de 0 a 100 km/h em apenas 2 segundos, chegando à máxima de 300 km/h. O objetivo é competir em pé de igualdade com os esportivos elétricos da Tesla.

Todo o portfólio da Maserati será renovado até 2022 com seis lançamentos, incluindo dois híbridos e quatro elétricos. Além das duas versões do Alfieri, a marca vai introduzir um novo SUV médio no mercado e lançará novas gerações do SUV médio grande Levante e dos sedãs Ghibli e Quattroporte.




A Alfa Romeo também teve bom desempenho nos últimos anos. Apesar de ter concentrado a maior parte de suas vendas no mercado europeu de veículos premium, a marca conseguiu dar um salto de 66 mil unidade em 2014 para 109 mil em 2017 e espera fechar 2018 com 170 mil, graças especialmente ao lançamento do SUV Stelvio e à entrada nos Estados Unidos, no ano passado.

Até 2022 a marca tem a intenção de aumentar sua cobertura de segmentos de mercado dos atuais 46% para 71%, com sete lançamentos, todos com opção híbrida HPEV e sistemas de condução autônoma de nível 2 ou 3.

Está previsto o encerramento da produção do hatch compacto MiTo, mas para compensar a saída dessa faixa a Alfa Romeo vai lançar dois SUVs completamente novos, um compacto e outro médio grande, acima do médio Stelvio – este também vai passar por reestilização até 2022 e ganhar versão com entre-eixo alongado, para agradar os clientes chineses. O sedã médio Giulietta e o médio grande Giulia também passarão por renovações de meia-vida e o maior deles terá opção alongada. No segmento de cupês superesportivos, a Alfa Romeo vai deixar de produzir o cupê de dois lugares 4C e ressuscitar o GTV e o 8C.



Tags: FCA, Fiat Chrysler Automobiles, Fiat, Chrysler, Jeep, Alfa Romeo, Maserati, Ram, FCA Capital Markets Day, lançamentos, indústria, tecnologia, Sergio Marchionne.

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