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Ford: “O que fizemos nos últimos 100 anos não é o que vai nos levar adiante”

Estratégia | 11/04/2018 | 18h35

Ford: “O que fizemos nos últimos 100 anos não é o que vai nos levar adiante”

Luciano Driemeier conta como a montadora trabalha para desenvolver mobilidade no Brasil

GIOVANNA RIATO, AB

Em alguns anos as montadoras de carros serão negócios bastante diferentes do que são hoje. Pouca coisa está clara neste novo cenário, mas Luciano Driemeier, gerente de estratégica de produto da Ford traça alguns panoramas. Segundo ele, há dois caminhos entre as diversas possibilidades que ainda estão para se abrir: as fabricantes de carros poderão se transformar em plataforma de soluções de mobilidade para atender a diferentes necessidades de deslocamento dos clientes ou então assumir a função de provedoras de hardware e seguir produzindo veículos para que empresas de tecnologia agreguem valor. Entre tantas dúvidas, uma certeza: a Ford quer ficar com a primeira opção.

“Está claro que precisamos nos posicionar como provedora de mobilidade, não como uma montadora de carros”, diz Driemeier, repetindo o mantra que a empresa tem entoado globalmente. Ele admite que a transformação é desafiadora e enfrenta alguma resistência interna natural a qualquer mudança, mas que este é o caminho que a organização está decidida a trilhar.

“Este é o posicionamento da empresa, com total comprometimento da liderança. Estão todos muito cientes: o que fizemos nos nossos 100 anos de história, que nos trouxe até aqui, não é o que vai nos levar adiante pelo próximo século”, projeta.


QUEM TEM VANTAGEM COMPETITIVA?


Contrariando projeções mais alarmistas, Driemeier acredita que o automóvel seguirá como um meio de transporte relevante no futuro, mas em novos formatos, como o compartilhamento, e dividindo o protagonismo com outras soluções. A mobilidade, para ele, será multimodal. Nesta transformação, o executivo entende que a manufatura começa a se tornar menos relevante do que a inteligência embarcada nos carros, o que deixa as montadoras expostas a uma série de novos concorrentes.

Nesta evolução há notícias boas e ruins, destaca: “Fabricar um veículo é algo muito complexo. As empresas de tecnologia que querem entrar no setor da mobilidade não vão aprender a fazer isso em poucos anos. Por outro lado, estas companhias têm vantagem competitiva no uso de dados, de big data, por exemplo”, diz. Nessa briga, quem tende a ganhar é o consumidor, acredita Driemeier, com novas opções para se deslocar e preços mais baixos por causa da concorrência. Às companhias industriais resta se empenhar em absorver algumas destas tecnologias, diz, citando o exemplo recente da Ford, que comprou a startup focada em inteligência artificial Argo AI.

Para o executivo, a montadora está alguns passos à frente de competidores de outros setores para buscar protagonismo nos próximos anos. “A mobilidade está no nosso DNA. Se alguém tem a confiança do cliente para oferecer serviços neste campo, somos nós”, diz. Enquanto o cenário futuro não está definido, a empresa trabalha internamente para ganhar agilidade e incorporar o conceito de testar e errar rápido quando é preciso. “Temos essa dualidade de ser uma empresa grande, mas precisar pensar pequeno, em soluções pontuais. De ter hierarquia internamente, mas também saber colaborar quando é preciso. Conseguimos testar em algumas frentes, como em serviços de mobilidade, mas tem outros campos onde não podemos arriscar, como na construção dos carros.”

MAIS MOBILIDADE NO BRASIL


Com o assunto entre as prioridades da companhia, há três anos o Brasil ganhou o time focado em mobilidade na empresa, liderado por Driemeier. O grupo ainda é pequeno, com três pessoas dedicadas ao assunto, mas já realizou dois projetos experimentais importantes, ambos com os próprios funcionários da companhia no Brasil. O primeiro deles foi focado em experiência do consumidor (UX), em aprimorar a jornada do usuário.

O segundo projeto foi um sistema de caronas para os colaboradores da fábrica de São Bernardo do Campo (SP), estimulados a compartilhar viagens quando tinham destinos parecidos. “Isso nos ajudou a construir conhecimento. Queríamos descobrir o que leva uma pessoa a oferecer ou não caronas, entender os detalhes”, conta. Entre as descobertas, está a conclusão de que os condutores não se dispõem a levar outra pessoa com foco em recompensas financeiras ou outros benefícios, mas porque acreditam que é a coisa certa a ser feita. Por outro lado, segurança é um desafio, já que muitos usuários têm receio de colocar um desconhecido no carro – ainda que ele trabalhe na mesma empresa.

“A evolução tecnológica vai dar conta de resolver alguns problemas ao longo do tempo. Nos nossos testes vimos que somo atores neste novo cenário. Não conseguimos oferecer todas as soluções em uma ferramenta, sanar os problemas de uma vez. O que precisamos fazer é colocar o ser humano no centro dos nossos desenvolvimentos, construir ferramentas para melhorar a vida das pessoas”, diz.


Driemeier não revela se a companhia pretende lançar algum serviço focado em mobilidade no Brasil no curto prazo. Assim, mesmo com o foco global da empresa em deixar de ser uma montadora e trabalhar melhor os serviços, a Ford ainda mantém a operação brasileira debruçada sobre o modelo de negócio tradicional. Se, por um lado, a situação é desvantajosa para o Brasil, por outro o time de mobilidade local tem liberdade para testar e trabalhar para lançar soluções realmente relevantes nos próximos anos.

“Temos algumas questões aqui que podem fazer com que o País precise que esperar um pouco mais por inovações como o carro autônomo. Uma delas é a dificuldade para avançar com uma nova legislação, além dos desafios da mobilidade e do transporte público de grandes cidades brasileiras", enumera. Ainda assim, diz, o Brasil tem uma vantagem importante sobre mercados maduros: o consumidor. “O brasileiro é muito vanguardista, disposto a adotar novas tecnologias. Quando acontecer, as novas soluções serão implementadas muito rapidamente aqui.”



Tags: Ford, mobilidade, Luciano Driemeier, transformação.

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