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Toyota começa a rodar no Brasil com protótipo híbrido flex

Engenharia | 19/03/2018 | 19h11

Toyota começa a rodar no Brasil com protótipo híbrido flex

Testes de estrada com etanol podem dar origem ao primeiro carro eletrificado nacional

PEDRO KUTNEY, AB

A Toyota começou a rodar em testes com o primeiro carro híbrido flex do mundo, dotado de motor elétrico e outro a combustão que funciona com gasolina ou etanol em qualquer proporção da mistura. O protótipo é um Prius que partiu na segunda-feira, 19, para um trajeto inicial – e promocional da tecnologia – de 1,5 mil quilômetros entre São Paulo e Brasília. Outros protótipos serão montados e mais rotas serão percorridas para desenvolver a solução em situações reais de uso. Se tudo der certo, o projeto tem boas chances de passar à linha de produção, para dar origem ao primeiro carro eletrificado nacional, fabricado no País.

“Meu sonho é que a Toyota seja a primeira fabricante a produzir híbridos no Brasil”, afirmou Steve St. Angelo, CEO da empresa na América Latina.



Antes disso, a ideia é provar que a tecnologia híbrida funciona bem com o motor bicombustível, o que é descrito por St. Angelo como “casamento no paraíso” e “o melhor de dois mundos”, ao unir motores movidos a eletricidade e biocombustível que, ele assegura, criam “o híbrido mais limpo do mundo”. Já faz quase três anos que a Toyota vem fomentando o desenvolvimento do híbrido flex. Em meados de 2015 foram realizados os primeiros testes de laboratório. Foram doados Prius a duas universidades, USP em São Paulo e UnB em Brasília, que participam dos estudos como meio de formar engenheiros qualificados para desenvolver esse tipo de tecnologia.

A Toyota não divulga claramente o que pretende fazer depois de concluir os testes de campo com o Prius flex, a tecnologia pode ser usada até em outro modelo da marca, mas é clara a intenção de lançar o híbrido bicombustível no Brasil, possivelmente em 2019. Para decidir se isso será possível, se trará o carro importado preparado para ser flex ou se vai produzi-lo no País, a empresa espera por decisões do governo brasileiro, que precisa definir se irá incentivar ou não esse tipo de tecnologia.

Se fosse flex, pela atual legislação o IPI do Prius já cairia de 15% para 11%. Mas está na pauta de discussões da atual gestão federal a redução do imposto aplicado a veículos híbridos, que passariam a pagar IPI de 7%, o mesmo de carros 1.0. Essa medida já havia sido antecipada por integrantes do Ministério da Indústria (MDIC) e deveria ter sido anunciada, mas ficou para trás em meio à briga entre os ministérios da Fazenda (contra) e MDIC (a favor) sobre a aprovação do programa Rota 2030 e concessões de descontos fiscais. O próprio desenvolvimento do híbrido flex seria candidato a receber incentivos previstos nas discussões do Rota 2030.

Já faz 20 anos que a Toyota lançou seu primeiro híbrido, o Prius, e desde então vendeu mais de 11 milhões de modelos equipados com motores elétricos e a combustão. No Brasil, o Prius começou a ser vendido de forma comedida em 2013, ainda prejudicado por excessiva tributação de 25% de IPI, acrescida sobre de 35% da alíquota de importação. Em 2016 a Toyota lançou no País a geração mais recente do modelo, que ganhou redução no imposto de importação para 4% e teve o IPI ajustado a 15%, igual ao de carros equipados com motores até 2 litros (o Prius usa 1.8). Desde então, com preços menores (hoje R$ 126,6 mil), as vendas quadruplicaram, mas ainda seguem em patamares muito baixos – foram emplacadas menos de 2,5 mil unidades em 2017.

TECNOLOGIA VIÁVEL



Toyota apresentou em São Paulo o primeiro protótipo do Prius flex, híbrido e bicombustível, que agora parte para testes de campo

A aplicação da tecnologia flex fuel a veículos híbridos apresenta vantagens competitivas relevantes. A primeira é que já é dominada e não encarece o produto. Portanto, é de rápida adoção e não precisa esperar pela implantação no País de infraestrutura para recarga de veículos elétricos, pois os híbridos não precisam recarregar baterias na tomada, são autorrecarregáveis. “O Brasil será o primeiro país no mundo a experimentar essa promissora tecnologia”, destaca St. Angelo.

“O Brasil deverá ser novamente o quinto maior mercado (de veículos) do mundo e precisa inspirar o mundo a adotar tecnologias como essa”, destacou Antonio Megale, presidente da Anfavea, a associação nacional dos fabricantes. “Temos aqui uma situação privilegiada com um patrimônio nacional que é o etanol, que nos dá a melhor alternativa possível para reter pesquisa e desenvolvimento no País. O híbrido flex é um passo além nessa direção, com a adoção de solução própria para reduzir emissões”, acrescentou.

Segundo calculam especialistas, o simples aumento do uso de etanol já seria suficiente para atingir as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa previstas na COP 21, com as quais o Brasil se comprometeu a cumprir. A combinação do biocombustível com carros eletrificados melhora ainda mais essas métricas. O Prius gasta 50% menos combustível do que um carro a gasolina convencional e deverá manter essa vantagem abastecido com etanol. As primeiras estimativas da Toyota dão conta de emissões de apenas 25 gramas de CO2 por quilômetro rodado com etanol, em medição “do poço à roda”, que considera desde a produção do biocombustível até sua queima no motor e a reabsorção do gás pela própria plantação de cana-de-açúcar.

Com esse potencial no horizonte, St. Angelo avalia que a combinação das tecnologias híbrida e flex pode ganhar importância tão grande quanto o primeiro híbrido lançado há 20 anos pela Toyota, e terá papel relevante em ajudar a fabricante a cumprir sua meta autoimposta de oferecer, a partir de 2025, opções híbridas para todos os seus carros, e deixar de produzir modelos equipados unicamente com motor a combustão em 2050.

“Esse projeto cala as vozes daqueles que dizem que o etanol é antigo e superado. O protótipo híbrido flex que começa a ser testado hoje prova que é perfeitamente possível combinar o biocombustível a tecnologias modernas”, afirmou Elisabeth Farina, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, a Unica, que por motivos óbvios é um dos apoiadores institucionais do projeto. “O uso de biocombustível é uma solução ambiental e econômica adequada ao Brasil para atender os objetivos da COP 21, além de vir de encontro ao Renovabio, programa recentemente sancionado pelo governo para descarbonizar o setor de transporte”, disse.



Tags: Toyota, híbrido flex, bicombustível, etanol, elétrico, Prius, protótipo.

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