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Salão de Detroit mostra recuperação
Lexus, marca de luxo da Toyota: nascida americana

Indústria | 15/01/2018 | 22h30

Salão de Detroit mostra recuperação

Estrangeiros dominam mercado e reafirmam investimentos nos EUA

PEDRO KUTNEY, AB | De Detroit (EUA)

Há exatos 10 anos os Estados Unidos eram o centro de uma das maiores crises econômicas da humanidade e Detroit, cidade símbolo do automóvel e da indústria automotiva americana, foi atingida em cheio, era a maior expressão da penúria causada pela severa recessão que tomava conta do país e do planeta. Passada uma década, ficaram importantes cicatrizes na mancha urbana e industrial da região, a começar pelas chamadas “três grandes de Detroit”, GM, Ford e Chrysler (hoje FCA), que não conseguiram manter o mesmo gigantismo de antes, estiveram próximas da falência e perderam espaço para as marcas estrangeiras em seu próprio território e no mundo todo. Mas renasceram mais enxutas e eficientes em um cenário que mudou substancialmente para melhor. O North American International Auto Show (NAIAS), o Salão de Detroit, reflete essa recuperação, mas com comemorações comedidas, ainda sob o temor que a sanha nacionalista da administração federal de Donald Trump estrague a festa com restrições à participação estrangeira e importações no segundo maior e o mais rentável mercado automotivo do mundo. Por isso, assim como aconteceu no mesmo evento em 2017 (leia aqui), todas as fabricantes presentes na exposição trataram de reafirmar seus compromissos com investimentos e produção local (que não são poucos, diga-se).

Ao menos por enquanto, o discurso de Trump foi mais assustador do que seus atos, não conseguiu acabar com a festa automotiva estrangeira nos Estados Unidos – e será difícil que o faça


Apesar da pequena queda próxima a 2% em 2017, pela quarta vez na história e pelo terceiro ano consecutivo as vendas de veículos ficaram acima de 17 milhões de unidades. E a marca líder do varejo de automóveis no país foi a japonesa Toyota, hoje quase tão ou mais americana em produtos, investimentos, fábricas e pessoas quanto as outrora “três grandes”.

AMERICA FIRST


A Toyota tem nada menos que 10 fábricas nos EUA (14 na América do Norte), incluindo a maior do grupo no mundo localizada no Kentucky. A empresa promete investir US$ 10 bilhões no país nos próximos cinco anos, colocou mais US$ 150 milhões para ampliar seu centro de pesquisa e desenvolvimento que mantém há 40 anos em Michigan (Estado onde fica Detroit), quase todos os carros da marca vendidos no mercado americano são desenhados, projetados e produzidos por americanos – exemplo clássico é o Avalon, principal lançamento da Toyota este ano em Detroit, um belo sedã de grande porte feito ao gosto do freguês americano, com muito luxo e sofisticação a preços acessíveis.

Mais ainda, dias atrás a Toyota anunciou novo investimento de US$ 1,6 bilhão em sociedade meio-a-meio com a também japonesa Mazda para construir uma fábrica com capacidade de 300 mil unidades/ano, que a partir de 2021 fará o sedã Corolla e um novo SUV compacto da Mazda. A Toyota pretendia produzir o Corolla em uma nova planta no México, onde a Mazda já tem uma planta, mas ainda não tinha produção nos EUA. Portanto, o arranjo pode ter sido uma engenhosa resposta às ameaças de Trump, que vem pressionando pesadamente os mexicanos para mudar e até acabar com o tratado de livre comércio da América do Norte, o Nafta (do qual o Canadá também faz parte) – durante 2017 foram realizadas oito reuniões, sem entendimento entre as partes, com pedidos de aumento de nacionalização e de revisões do acordo a cada cinco anos. Para alguns especialistas, a estratégia é impor barreiras até fazer o México desistir de permanecer no Nafta.

“Vocês já devem ter ouvido muitas reclamações hoje”, disse em tom bem-humorado Jack Hollis, vice-presidente da Toyota North America e diretor geral da divisão Toyota na região, em uma das últimas apresentações do dia aos jornalistas que cobrem o Salão de Detroit. “Mas eu só tenho três coisas a dizer: a Toyota é a marca de automóvel preferida dos consumidores americanos por seis anos seguidos, é também a favorita de SUVs, e o (sedã) Camry (renovado ano passado) é o carro mais vendido do país há 16 anos consecutivos”, comemorou, sem dar nenhuma atenção à leve retração de 0,5% das vendas nos EUA, onde foram vendidos 2,1 milhões de modelos Toyota em 2017 – além de 305 mil Lexus, a marca de luxo do grupo, que nasceu americana. Para o grupo japonês, portanto, a América de Trump já está em primeiro lugar muito antes de o empresário que virou político inventar o bordão “America first”.

A BMW vai na mesma linha e talvez seja a mais americana das fabricantes alemãs. No salão os executivos do grupo fizeram questão de lembrar que a empresa produz carros nos EUA há 20 anos, em Spartanburg, na Carolina do Sul, onde começou fazendo o primeiro SUV da marca, o X5, que deu origem à família X, hoje a maior fábrica do grupo, que faz 1,4 mil carros por dia, 70% deles exportados. “Geramos aqui 70 mil empregos. Já investimos US$ 9 bilhões em Spartanburg e estamos investindo US$ 600 milhões adicionais para ampliação e outros US$ 200 milhões em treinamento e educação. Também somos o exportador de maior valor dos Estados Unidos”, destacou Nicolas Peter, executivo chefe de finanças (CFO) do BMW Group.

Bem ao lado, a Volkswagen comemorou os primeiros bons resultados de sua estratégia de recuperação para a divisão norte-americana, criada há dois anos em meio ao escândalo dos motores diesel que “enganavam” os testes e emitiam poluentes muito acima dos níveis permitidos – o que rendeu multas bilionárias e até a prisão de executivos do grupo nos Estados Unidos. “Desapontamos muitas pessoas, não só aqui mas no mundo todo. Esse é só o começo de nossa reorganização no país e ofensiva de lançamentos. Os Estados Unidos são uma grande nação industrial com forte setor automotivo, onde nós temos orgulho de participar”, afirmou Hebert Diess, CEO da Volkswagen, que até 2020 programa investir US$ 3,3 bilhões na região.

A marca parece ter conseguido se descolar da crise: em 2017, com a ajuda do lançamento do SUV médio Atlas, as vendas cresceram 2%, para 590 mil unidades, enquanto o mercado americano encolheu 1,8%. No salão, a Volkswagen quis mostrar a independência que ganhou no país com o lançamento de a versão GT do Passat, a primeira projetada pela equipe de engenharia americana, que custará US$ 29 mil. O sedã é produzido desde 2011 nos EUA, em Chattanooga, Tennessee, onde a VW investiu US$ 1 bilhão para construir sua primeira fábrica no país.

Mas é feita no México a maior novidade da Volkswagen em Detroit, que foi palco do lançamento mundial do novo Jetta, até agora o mais vendido da marca nos Estados Unidos, onde pode ser considerado um “carro compacto popular”. Montado sobre a plataforma modular MQB, a nova geração cresceu, ganhou mais sofisticação tecnológica, sistema de som de 400 W, motor 1.4 turbo e câmbio automático de oito velocidades. Para os americanos vai custar só US$ 18,5 mil – para os brasileiros, que também poderão comprar o novo Jetta antes do fim deste ano como carro de luxo, os preços certamente vão passar dos R$ 100 mil.

A Nissan, que apurou 9,2% de participação de mercado com a venda de 1,5 milhão de carros nos EUA em 2017, grande parte deles fabricada no México, foi outra que destacou os investimentos já feitos em três fábricas no país desde 1981, de US$ 11 bilhões, com a produção de 15 milhões de veículos e 10 milhões de motores no território americano. “Geramos 22 mil empregos diretos aqui e devemos contratar mais 8 mil em uma nova planta. Investimos nos Estados Unidos porque este é o mercado propulsor de nossos negócios”, destacou o mexicano Jose Muñoz, CEO da Nissan North America. Não por acaso, o elétrico Leaf lançado no fim do ano passado e apresentado agora em Detroit começa a ser produzido na unidade do Tennessee, que deverá dar conta com facilidade de entregar as 14 mil encomendas já feitas do modelo. Também é de autoria do centro californiano de design da Nissan o projeto do conceito Xmotion, um SUV compacto futurista ainda em estágio de pré-realidade, “para americano ver”.

 

PICAPES FIRST

 

“Há 10 anos Detroit e suas empresas lutavam para sobreviver. Hoje a cidade deu a volta por cima e nós tivemos de nos reinventar, como temos feito em 114 anos de história após passar por muitas crises”, reconheceu Bill Ford, presidente executivo do conselho (chairman) da empresa que leva o nome de sua família.


Agora a Ford promove a transformação de um fabricante de veículos para um fornecedor de mobilidade com veículos autônomos e elétricos. Enquanto Bill Ford anunciou o aumento para US$ 11 bilhões do investimento da fabricante em 16 modelos elétricos e 24 híbridos a partir de 2020 (leia aqui), a marca apresentou um pouco mais do mesmo: as caminhonetes que os americanos adoram com roupagem um pouco mais eficiente, como a versão híbrida da F150 (veículo mais vendido dos EUA) ou uma opção menor e mais barata: a principal novidade da Ford este ano em Detroit é a picape Ranger com motor Ecoboost 2.3 e câmbio automático de 10 marchas, especialmente projetada para o mercado norte-americano (diferente da feita na Argentina e vendida no Brasil e outros países sul-americanos). Também está lá o primeiro SUV da Ford a receber seu sêlo de alta performance, o Edge ST equipado com um possanteV6 Ecoboost 2.7 de 335 cavalos.

No estande ao lado, entre as diversas marcas do grupo Fiat Chrysler, a novidade foi da divisão de picapes Ram, que lançou também uma opção média (para os padrões americanos). A Ram 1500 foi apresentada como a picape com maior capacidade offroad do mercado americano.

Para a General Motors North America, o lançamento do ano (e do salão) é também uma picape, mas de grande porte, a nova Chevrolet Silverado, que rivaliza com a Ford F150. Bem ao lado estava a rival média da Ranger, a Colorado (equivalente à S10 produzida e vendida no Brasil). Pelo menos nesse segmento, as “três grandes de Detroit” ainda dominam.

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A cobertura da Salão de Detroit 2018 é apoiada pela Toyota



Tags: Salão de Detroit, NAIAS 2018, Estados Unidos, mercado, protecionismo, Trump.

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