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02/08/2017 | 12h00

Indústria

Montadoras superam meta de economia de combustível do Inovar-Auto

Estudo da Bright revela evolução da eficiência energética no País


PEDRO KUTNEY, AB

Só no fim deste ano serão conhecidos os resultados oficiais de consumo energético dos fabricantes de veículos no Brasil, mas já é possível afirmar que as metas de eficiência energética e em decorrência delas o desenvolvimento de carros mais eficientes no País são a melhor notícia e o maior legado do Inovar-Auto, programa de incentivo à indústria automotiva lançado pelo governo em 2012 que termina em dezembro próximo. Segundo recente levantamento da Bright Consulting, ao qual Automotive Business teve acesso, a análise da frota vendida no mercado brasileiro entre outubro de 2016 e abril de 2017, pouco mais de 1 milhão de veículos leves (sem contar modelos diesel), aponta gasto médio de energia de 1,75 megajoule por quilômetro (MJ/km) e emissões de 131,73 gramas de CO2/km. O nível é próximo dos vistos na Europa e representa notável evolução de 15,46% sobre a média de 2,07 MJ/km medida em 2011, ponto de referência para os objetivos de melhoria estipulados pelo Inovar-Auto.

-Veja aqui os dados de consumo
-Veja outras estatísticas em AB Inteligência

Ou seja, a média alcançada nos últimos sete meses já supera em 3,38 pontos a evolução mínima de 12,08% fixada pela legislação – quem não atingir até outubro próximo este porcentual pode ser punido com multas milionárias. De acordo com as regras do Inovar-Auto, o aumento médio de eficiência energética atingido agora pela maioria das marcas está pouco além da meta-prêmio de 14,97%, o que livra de punições e ainda garante às montadoras benefício fiscal de um ponto porcentual de desconto no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) – quem atingir melhoria superior a 20,77% sobre a medição de 2011 ganha dois pontos de abatimento. A redução da carga tributária em um ou dois pontos é válida por quatro anos, até 2021, com auditorias anuais.

MAIORIA SUPERA META

Apesar de toda a pressão exercida pelas montadoras instaladas no País na época em que o Inovar-Auto estava sendo elaborado, em favor de padrões menos apertados, os resultados medidos pela Bright nos últimos sete meses mostram que a maioria das fabricantes conseguiu com certa facilidade atingir e superar as metas de eficiência energética. Contudo, esses números são ainda parciais, pois as empresas têm até setembro próximo para fazer a medição que vai valer como aferição oficial para enquadramento na legislação. Para isso não adianta apenas ter alguns veículos eficientes na lista de produtos, é preciso também que eles sejam vendidos em quantidade suficiente para puxar para baixo a média geral de consumo da montadora; assim é calculado o índice de cada fabricante. Aqueles que não estão enquadrados poderão ainda adotar medidas para evitar as multas – e outras que atingiram objetivos poderão eventualmente melhorar seus índices para obter desconto tributário maior.

A Bright prefere não revelar agora os resultados particulares por marca, pois ainda são parciais e podem mudar bastante até a medição oficial de setembro próximo. Isso porque, até lá, é possível introduzir tecnologias para redução do consumo. As montadoras também podem simplesmente retirar do mercado ou diminuir a venda dos modelos abaixo da meta, para assim mitigar o impacto desses carros na sua média, ou ainda fazer promoções para vender os mais eficientes, por exemplo, e assim empurrar o índice para o nível desejado. Por causa dessa fórmula para calcular a média de eficiência, os fabricantes introduziram a maioria das tecnologias de redução de consumo somente nos modelos mais vendidos.

Ford, Audi e Nissan gozam do abatimento de um ponto no IPI desde o início de 2017, porque conforme previa a legislação fizeram a medição de seus carros um ano antes do exigido e conseguiram antecipar o benefício fiscal (leia aqui).

A Bright desenvolveu um serviço independente de monitoramento do nível de eficiência energética dos carros vendidos no mercado brasileiro – por isso foi possível antecipar resultados antes da medição oficial. De acordo com Paulo Cardamone, sócio-diretor responsável pela estratégia da consultoria, o sistema foi desenvolvido seguindo as regras estipuladas pelo Inovar-Auto, com uso de ferramentas de big data, data fusion e inteligência artificial. Isso porque milhões de dados precisam ser cruzados. Na conta entraram o volume de vendas de cada modelo e versão de veículo leve no período outubro/2016-abril/2017 (1,026 milhão de unidades com motorização gasolina ou flex), os pesos oficiais divulgados pelas montadoras e os dados de consumo de cada versão na lista mais recente do Inmetro/Conpet, de outubro passado.

Com os dados liberados pela Bright, já é possível ter uma boa ideia do cenário futuro próximo. A consultoria dividiu as montadoras em grupos por nacionalidade e separou também as quatro grandes do mercado brasileiro, as Big Four GM, Fiat, Volkswagen e Ford, que costumam dominar as quatro primeiras posições do ranking das marcas mais vendidas no País. No gráfico abaixo, verifica-se que, com exceção das marcas chinesas, todas as outras analisadas conseguiram atingir a meta mínima de redução de 12% (linha laranja), sendo que a maioria supera o objetivo habilitando-se a ganhar um ponto de desconto no IPI. Em meio a essas, existem algumas que podem obter os dois pontos.



CONTA COMPLEXA PARA BENEFÍCIOS VISÍVEIS

Para Cardamone, os resultados obtidos até agora devem ser comemorados. “Apesar das dificuldades de mercado com a queda das vendas dos últimos três anos, pela primeira vez na história do setor automotivo os veículos vendidos no Brasil terão sua eficiência energética medida por legislação específica. Montadoras, autopeças, entidades de classe, governo e principalmente os consumidores terão informações sobre o consumo dos carros e o nível de emissão de CO2 que impacta o meio ambiente. Com isso temos hoje produtos melhores, mais globalizados e menos poluentes”, avalia o consultor. Ele lembra também que esse avanço contribui para que o Brasil atinja as metas assumidas na COP21 – o acordo internacional de redução de gases de efeito estufa até 2021 estipuladas na conferência de mudanças climáticas realizada em Paris em 2015.

Cardamone calcula que, após a adoção da legislação em 2012 e a imposição de metas, só em 2016 o País economizou algo como 423 milhões de litros de gasolina, que teriam sido gastos com os níveis de consumo de 2011. “Para se ter uma ideia do impacto ambiental que os novos níveis de emissões dos veículos leves trarão ao Brasil, identificamos que entre 2017 e 2025 esses novos modelos deixarão de jogar na atmosfera 15 milhões de toneladas de CO2, o equivalente a três anos de emissões dos carros vendidos de 2015 a 2017. Isso sem considerar as novas metas que deverão ser aprovados para além de 2022, na Rota 2030”, pontua.

Ele destaca ainda que o nível de emissão atual foi conseguido mesmo com o aumento da massa média dos veículos, que atingiu 1.137 kg, ou 16 kg acima dos 1.121 kg de 2011. O peso maior se deve à adição de conteúdo nos carros e à mudança no mix de modelos mais demandados, com elevação significativa de participação dos SUVs em detrimento de hatchbacks e sedans mais leves.

MAIS TECNOLOGIA

A evolução da eficiência energética dos carros no País foi conquistada com a introdução de diversas tecnologias. Entre elas a mais aplicada foi a adoção de motores com comando variável de válvulas, cuja participação das vendas girava em torno de 20% em 2012 e este ano saltou para mais de 65%. A segunda solução que mais cresceu foi o motor de três cilindros, quase inexistente há cinco anos e hoje presente em mais de 21% dos carros vendidos. Também houve ampliação da utilização de turboalimentação, injeção direta de combustível e transmissões automáticas com maior número de velocidades. As melhorias do powertrain (veja gráfico abaixo) foram associadas a alternadores mais eficientes, redução de perdas parasíticas com uso de direção elétrica ou compressores variáveis de ar-condicionado, diminuição do arrasto aerodinâmico e uso de pneus de baixa resistência ao rolamento.



Adicionalmente, algumas outras tecnologias estão sendo adotadas porque trazem créditos de MJ/km (de no máximo 0,351). É o caso do start-stop, monitoramento de pressão dos pneus, grade frontal ativa (que fecha para reduzir o arrasto aerodinâmico) e indicador de troca de marchas, que começaram a aparecer com frequência em modelos recém-lançados. São soluções que aumentam a economia em determinadas condições de uso, mas não apresentam ganhos significativos em bancadas de testes.

Também existem fatores de correção para reduzir o impacto negativo causado pela medição de comerciais leves, veículos 4x4 e de alta performance, que usualmente têm consumo maior. Com o argumento oposto, carros híbridos, elétricos ou com outras tecnologias avançadas de propulsão tem cada venda multiplicada por dois, para elevar seu efeito benéfico na média de eficiência da montadora.

Se por um lado as metas de eficiência energética embarcaram mais tecnologia para os carros vendidos no Brasil, por outro também contribuíram para aumentar consistentemente a importação de componentes e sistemas. Isso porque boa parte das soluções adotadas já estava pronta para ser trazida do exterior. Além disso, o robusto volume de 3,7 milhões de veículos produzidos em 2012 desabou para cerca de 2 milhões em 2016 e assim deixou de ter escala de produção suficiente para a fabricação local de certos itens, como caixas de transmissão automáticas, por exemplo, 100% importadas atualmente.

Por ironia, as metas de eficiência energética são o maior legado do Inovar-Auto, mas não comtemplam nenhum dos dois objetivos registrados em decreto no nome completo do regime automotivo adotado em 2012, Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores, pois não houve inovação ou adensamento de fornecedores locais. Dessa forma, as montadoras só cumpriram os objetivos porque a legislação, corretamente, impõe multas pesadas para aqueles que tiverem frota vendida com consumo energético acima de 1,82 MJ/km (leia aqui). Da mesma forma, a maioria das marcas já superara as metas porque podem embolsar incentivos fiscais que não precisam ser repassados aos preços – o que pode mais que compensar os investimentos feitos.

Cardamone defende que os resultados avaliados até agora só confirmam a necessidade de fixar para além de 2022 novas e mais apertadas metas de eficiência energética, que devem ser estipuladas na Rota 2030, a nova política industrial para o setor automotivo que está em discussão por representantes do setor e do governo. Continuar a reduzir o consumo e emissões dos veículos, ele ressalta, é fundamental para garantir o alinhamento tecnológico dos veículos vendidos aqui aos padrões globais, pois obriga a adição mais agressiva de tecnologias avançadas de propulsão, além de aumentar a competitividade internacional do País.

Comentários: 2
 

Edson Tozato
07/08/2017 | 10h12
Comparando as mototrizações que temos no Brasil com o que se vende na Europa, fica dificil entender que estamos muito proximos das metas que existem na Europa. O que nos diferencia em emissões é a utilização do etanol na gasolina.

Gian
08/08/2017 | 07h43
Ótimo ponto de vista, pois ma Europa eles usam os "temidos" motores diesel !!!! ... balela que engana o povo brasileira, assim como o sensacionalismo do texto! conseguimos evoluir, sim ... mas ainda somos reprimidos em tecnologia por conta dos intere$$e$ maiore$ !!!!!!

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