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20/07/2017 | 19h23

Mobilidade

Nas grandes cidades a prioridade é o tempo, não o carro

Matheus Moraes, da 99, defende uso mais eficiente do automóvel


GIOVANNA RIATO, AB

Mobilidade urbana é cada vez mais multimodal Secretário de Transportes de São Paulo defende modelo multimodal Ainda que continue como um sonho de consumo no Brasil, o carro está perdendo o apelo com o consumidor, que não quer ficar longas horas desconectado e preso no trânsito. A conclusão é de representantes de empresas como 99, Uber, Moovit, Pegcar (plataforma em que os proprietários oferecem seus veículos para alugar) e Tembici (empresa de compartilhamento de bicicletas que gerencia o sistema de bikes do Itaú). Eles participaram do Fórum Mobilidade promovido pelas revistas Quatro Rodas e Superinteressante na quinta-feira, 20, em São Paulo. “Entre ter o carro por status ou ganhar tempo ao se deslocar de outra forma, as pessoas tendem a ficar com a segunda opção”, acredita Matheus Moraes, diretor de política e comunicação da 99.

Sérgio Avelleda, secretário de transporte da cidade de São Paulo, concorda: os jovens não querem tirar os olhos do celular nem por um momento para conduzir um carro.” Para Tomás Martins, da Tembici, a situação é bastante clara. Segundo ele, “ter carro não é mais interessante, não é fácil. É por isso que jovens não querem”, resume. Segundo eles, o melhor caminho é a multimodalidade ao combinar caminhadas, bicicletas, transporte público, carros compartilhados, carona solidária e, claro, o veículo particular – provavelmente em proporção menor.

Para Moraes, o compartilhamento de veículos faz com que os automóveis sejam usados com mais eficiência, melhorando a vergonhosa taxa média de 95% de ociosidade dos carros. “Você tem uma utilização melhor e reduz a necessidade de estacionar, já que o veículo fica em circulação a maior parte do dia.”

NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO

A Moovit lançou recentemente no Brasil uma ferramenta de carona solidária, que ajuda pessoas sem carro a encontrar condutores que costumam ter deslocamento diário semelhante. Neste caso, o dono do carro dá carona e recebe apenas um valor equivalente às despesas com combustível, por exemplo. “Assim podemos melhorar a média de apenas 1,2 pessoa por carro em circulação em São Paulo”, aponta Pedro Palhares, diretor da empresa.

Moraes, da 99, aponta que, neste contexto de mudança nos interesses do consumidor, um dos pontos importantes é ter um modelo de negócio que se adapte às rápidas transformações – desafio importante para a indústria automotiva. “Nosso modelo de negócio não é estático. Qualquer empresa que acha que não está ameaçada precisa lembrar de um passado não tão distante em que linhas telefônicas valiam milhares de reais. Olha como essa realidade mudou rápido”, reforça.

PRIORIDADES DIFERENTES

Enquanto aumentam as opções de como se deslocar em grandes cidades, com crescimento na oferta de carros compartilhados e carona solidária, por exemplo, uma conclusão ganha cada vez mais força: a mobilidade urbana precisa ser multimodal. “Sabemos que construir novas vias não resolve a questão da mobilidade. Ninguém hoje conseguiria se eleger com a promessa de um novo minhocão”, avalia Sérgio Avelleda.

Ele fala com conhecimento da causa. Já foi presidente do Metrô e da CPTM na cidade, que acumula números impressionantes: são 8,4 milhões de veículos licenciados no município, incluindo 5,9 milhões de carros e 1,2 milhão de motos. “Temos um carro para cada 1,3 habitante, um índice muito alto. Enquanto isso, contamos com 17 mil quilômetros de vias, número que não deve aumentar tão cedo”, diz, expondo o problema. Segundo ele, aumentar as avenidas só vai atrair uma nova demanda.

O único caminho, aponta, é apostar na multimodalidade, com o uso de novas soluções oferecidas por empresas como Uber e Moovit. Ele também defende o aumento da eficiência do transporte público. “Há alguns anos tínhamos 2 milhões de passageiros por dia no metrô. Hoje este número cresceu para 5 milhões só por causa da integração da tarifa com o Bilhete Único”, exemplifica. Avalleda aponta que 31% dos deslocamentos na cidade são feitos de carro, outros 31% de transporte público e ainda 31% a pé. “Me pergunto, afinal porque o automóvel recebe toda a atenção das políticas públicas se ele não é responsável por parcela maior? Temos que dar atenção equivalente aos outros modais.”

A cicloativista Renata Falzoni enfatizou que é essencial olhar com mais cuidado para o chamado transporte ativo, de pessoas a pé ou de bicicleta. “As cidades são pensadas de forma carrocentrada e perdemos assim o princípio da mobilidade, que é garantir o acesso universal à cidade, independentemente da classe social ou região onde a pessoa mora”, resume.

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