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13/07/2017 | 20h00

Indústria

Hyundai faz 50 anos em 5 no Brasil

Marca avança rápido com fábrica eficiente e produtos desejados


PEDRO KUTNEY, AB | De Piracicaba (SP)

William Lee, presidente da Hyundai Brasil, ao lado do mais novo produto da fábrica de Piracicaba, o Creta: produtos certeiros fizeram a marca crescer rápido
Em meio à severa recessão da indústria automotiva brasileira, com ociosidade média acima de 50% na maioria das plantas, uma rara cena de alta produtividade acontece todos os dias em Piracicaba, no interior paulista, onde há cinco anos a Hyundai inaugurou sua sétima fábrica no mundo e a primeira e única abaixo da linha do Equador, com investimento inicial de US$ 600 milhões – que em 2016 recebeu US$ 130 milhões adicionais. Com processos azeitados e produtos desejados, a planta brasileira opera a todo vapor e fez a marca coreana entrar, em 2016, para o clube das quatro maiores montadoras do País.

O ritmo é intenso, à razão de 36 veículos produzidos por hora em três turnos de trabalho, inclusive feriados, ocupando todos os 170 robôs e 2,5 mil funcionários da fábrica de 130 mil metros quadrados que abriga estamparia, soldagem, pintura e montagem final, além de outros 2,3 mil empregados alocados nos oito fornecedores vizinhos, que juntos operam no topo da capacidade máxima de 180 mil unidades/ano de três modelos: o hatch HB20, o sedã compacto HB20S e o SUV pequeno Creta.

Ainda na primeira infância por aqui, a fábrica brasileira da Hyundai já opera com estatura de gente grande, com linhas de produção altamente robotizadas e conectadas na rede global. A operação de certa forma seguiu a máxima do ex-presidente Juscelino Kubitscheck, que criou condições para a implantação da indústria automotiva no País, quando a montadora coreana sequer existia, e tinha como lema de governo fazer 50 anos de progresso em cinco anos de gestão. Em proporção similar, em apenas cinco anos a Hyundai replicou no Brasil o sucesso mundial que levou cinco décadas para construir desde sua fundação em 1967, terminando 2016 como quinta maior potência automotiva do planeta – foram 7,7 milhões de veículos vendidos, incluindo na conta a Kia, que pertence ao grupo coreano.

“Vivemos um momento especial, celebramos 50 anos da fundação da Hyundai Motor Company, dez anos de montagem de veículos Hyundai no Brasil sob licença pela Caoa em Anápolis (leia reportagem na Revista Automotive Business 44, abril/2017, que pode ser acessada on-line aqui) e agora cinco anos de produção em Piracicaba”, enumera William Lee, presidente da Hyundai Motor Brasil (HMB), que desde 2013 administra o sucesso do empreendimento. “Vendemos carros em mais de 200 países, mas só temos fábricas em sete e o Brasil é um deles, porque é um país estratégico na competição mundial. Nenhum fabricante de veículos pode dizer que é global se não estiver aqui”, reforça Lee.

DESEMPENHO METEÓRICO


A fábrica da Hyundai em Piracicaba opera com elevado grau de automação: são 170 robôs presentes em todas as etapas da produção, desde a estamparia, soldagem de carrocerias, pintura e montagem final.

“Completamos essa jornada inicial de cinco anos com produtos bem avaliados e clientes satisfeitos, que permitiram manter a fábrica ocupada mesmo com o encolhimento do mercado. Isso é devido aos esforços para fazer com máxima qualidade o que o cliente quer. Foi assim com o HB20, que se adaptou ao gosto do brasileiro e fez a operação aqui crescer mais do que em qualquer outro lugar do mundo”, destaca Lee. Fora da Coreia, o Brasil é o país onde a marca tem a maior penetração, com market share ao redor de 10% desde o ano passado, enquanto nos Estados Unidos esse porcentual é de 4% e na Europa de 3%.

Em volumes vendidos, o Brasil foi o quinto maior mercado em 2016 com as 198 mil unidades emplacadas (contando importados, montados pela Caoa em Anápolis e fabricados em Piracicaba), atrás de China (1,2 milhão), EUA (800 mil), Coreia (600 mil) e Índia (500 mil), apesar de a fábrica brasileira ter apenas a sexta maior capacidade de produção (180 mil/ano), atrás até de Turquia (220 mil) e Rússia (230 mil), e muito distante de Coreia (1,9 milhão/ano) e China (1,2 milhão).

Se a demanda alta continuar, Lee não descarta novas ampliações, incluindo a fabricação de motores até agora importados – há espaço para isso no terreno de 1,4 milhão de metros quadrados, ocupado apenas em 10% por área construída de 130 mil metros quadrados. “Monitoramos a situação econômica constantemente e quando o crescimento voltar estamos prontos para ampliar a capacidade e também vamos pensar em novos produtos”, revela o executivo.

Graças à fábrica e aos produtos brasileiros, em 2016 a Hyundai ultrapassou a um só tempo Ford e Renault, que chegaram bem antes, e foi a quarta marca de automóveis mais vendida do País. Com uma única plataforma compacta modificou a quase monolítica configuração de mercado do clube das quatro grandes, que perdurava há cerca de quatro décadas sempre com General Motors, Volkswagen, Fiat e Ford se alternando na ponta do ranking.

PRODUTOS CERTEIROS


Linha de montagem final: operação no topo da capacidade.

Pensado e desenhado exclusivamente para o cliente brasileiro, com trabalho de designers e engenheiros que começou dois anos de antes do lançamento, o HB20 foi um tiro certeiro em design e nível de equipamentos com preço parecido ao da concorrência. O resultado foi a formação de filas de espera pelo hatch na rede de concessionárias (hoje com 208 pontos) montada para vender somente os modelos feitos em Piracicaba. (Em operação paralela, o Grupo Caoa, o maior concessionário da marca no País, tem 61 lojas próprias e 31 licenciadas para a venda dos modelos importados e montados em Anápolis, além de outras 31 concessionárias HMB.)

Dos quase 198 mil carros Hyundai emplacados no Brasil no ano passado, 168 mil (85%) foram dos dois produtos fabricados em Piracicaba, o hatch HB20 e o sedã HB20S – que este ano ganharam na mesma linha a companhia do Creta, lançado em janeiro passado e que já figura entre os quatro SUVs mais vendidos. Entre outras vitórias, o desempenho meteórico garantiu à HMB o título de montadora do ano do Prêmio REI 2017, em eleição dos leitores de Automotive Business (leia reportagem na Revista Automotive Business 45, junho/2017, que pode ser acessada on-line aqui).

Para Angel Martinez, vindo do Banco Mercedes-Benz e diretor executivo de vendas e marketing da HMB há menos de um ano no cargo, o Grupo Hyundai criou cultura corporativa diferente dos fabricantes tradicionais, com ousadia bem dosada e calculada, que fez a marca se diferenciar. “Tirando as marcas chinesas, a Hyundai é mais nova no mundo. Se fosse fazer da mesma forma que os outros seria só mais uma. Apostamos em oferecer produtos desejados, qualidade, garantia e processos de venda que têm como missão conquistar o cliente pelo resto da vida”, garante.

DOMÍNIO VERTICAL


Fachada da fábrica da Hyundai em Piracicaba

A entrega dos carros Hyundai nas concessionárias, quando o cliente recebe as chaves em uma caixinha de presente fechada com laço, é o fim de um processo que a Hyundai aprendeu a dominar de forma vertical, desde a produção do mais básico dos insumos de um automóvel, o aço fornecido pela Hyundai Steel – a siderúrgica própria do grupo mantém uma unidade de distribuição de bobinas bem ao lado da fábrica de Piracicaba e fornece o aço consumido pela planta brasileira, 40% importados da Coreia.

Também pertencem ao Grupo Hyundai quase todos os oito fornecedores que se instalaram ao lado da fábrica e começaram a operar junto com a linha de montagem, fornecendo com enorme diferencial de qualidade, preço e rapidez de entrega de itens que vão desde o aço já citado até peças estampadas, cabos elétricos, conjuntos plásticos e revestimentos, bancos, sistemas de chassis e climatização.

Para fazer em Piracicaba uma das mais modernas, completas, automatizadas e eficientes fábricas do mundo, ajudou o fato de o próprio grupo estar entre os maiores fornecedores de equipamentos de manufatura do mundo. “Ter o domínio de todos os processos e ferramentas nos dá grande vantagem competitiva”, destaca Eugenio Cesare, diretor executivo de produção, um ex-GM.

O processo começa com quatro enormes prensas automáticas da Hyundai Rotem, capazes de realizar 410 batidas por hora, ajudadas por robôs de transferência da ABB.

Na área de soldagem são necessárias apenas 219 pessoas trabalhando em três turnos, algo como 10% do efetivo da fábrica, porque lá a mão humana só é necessária para programar 129 robôs, quase todos Hyundai, que executam 100% dos 1,7 mil pontos de solda – que todos os dias são auditados por amostragem de uma carroceria por turno em sala de metrologia de precisão.

Até o sistema de informática que controla a produção é da Hyundai e interliga todas as fábricas da montadora no mundo, monitorando e ajustando em tempo real todos os processos, operando muito próximos do conceito de indústria 4.0. O padrão de verticalização quase total não é seguido somente na área de pintura 100% automatizada, onde as cabines e robôs da unidade brasileira foram fornecidos pela especializada alemã Dürr, com aplicação de primer, base e verniz em um só processo. São usadas tintas à base d’água.

A mesma linha de montagem final recebe todos os três modelos feitos em Piracicaba, HB20, HB20S e Creta, com dezenas de versões. Também lá é alto o grau de automatização, a começar por carrinhos autônomos (AGVs, guiados por fitas magnéticas no chão) que carregam prateleiras móveis com todos os itens de tapeçaria interna dos carros. A especificação de cada veículo chega na tela do computador de um operador que abastece a prateleira com as peças específicas, então o AGV passa para levar os itens até ao lado da carroceria designada para aqueles componentes. Tudo sem erros, como até agora parece ter sido traçada a estratégia da Hyundai no Brasil.

Assista abaixo reportagem especial da ABTV sobre a fábrica da Hyundai em Piracicaba:


Comentários: 1
 

Elisabete
18/07/2017 | 10h28
Parabéns à Hyundai e ao Pedro Kutney pela excelente matéria.

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