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26/04/2017 | 22h30

Autopeças

Grandes fornecedores redobram foco na reposição

Sistemistas elevam a fatia do aftermarket nas vendas totais


PEDRO KUTNEY, AB

Corredor da Automec 2017: novas apostas no aftermarket
A queda constante e acelerada da produção de veículos no País nos últimos três anos está provocando uma transformação nos negócios dos grandes fornecedores de autopeças, que foram obrigados a virar suas atenções para o mercado de reposição, como forma de compensar, ainda que parcialmente, a forte contração das compras das montadoras. Boa parte dos sistemistas multinacionais instalados no Brasil estão elevando substancialmente a fatia do aftermarket nas vendas totais. Essa parcela das operações, que mal passavam de um dígito porcentual do faturamento, em alguns casos já supera a casa dos 20% – e segue crescendo, com expansão do portfólio de peças para reparação e foco maior nos clientes do setor. A Automec, principal feira do setor que acontece de 25 a 29 deste mês no São Paulo Expo com todos os espaços tomados por mais de 1,5 mil expositores, comprova a ebulição do setor (leia aqui), com.

“Neste momento de crise aguda é um privilégio estar no lado da reparação, porque é um setor blindado. Não vejo riscos. O mercado cresceu, já tivemos um primeiro trimestre melhor do que o do ano passado e deve continuar assim em 2017 inteiro”, afirma Fernando Ribeiro, diretor responsável pelas operções da Valeo Service, a divisão de aftermarket da sistemista francesa, que com as vendas de peças de reposição garantiu 13% de seu faturamento global de € 16,5 bilhões em 2016. No Brasil esse porcentual é menor, Ribeiro calcula que gira entre 8% e 9%, mas com tendência de crescimento, pois alguns componentes fornecidos demoram mais para amadurecer no pós-vendas. É o caso, por exemplo, da linha mais recente de motores de arranque e alternadores, que só são trocados após os 100 mil km rodados. No ano passado a Valeo lançou mais de um produto por dia no aftermarket brasileiro, cerca de 380 itens, em um portfólio de nove linhas de produtos para veículos comerciais pesados e 14 para carros. “Nosso objetivo é ampliar a oferta em todas as categorias”, diz Ribeiro.

Na Schaeffler, dona das marcas INA, Luk, FAG e Ruville (esta última exclusiva para vender no aftermarket componentes não fabricados pelo grupo), as vendas para reposição vêm crescendo de 10% a 20% nos últimos dois anos, segundo Rubens Campos, diretor responsável pela área na empresa. Os carros-chefe do portfólio do grupo continuam sendo os sistemas de embreagem e rolamentos, mas o objetivo é desenvolver peças para 80% da frota brasileira em circulação, estimada em 42 milhões de veículos. “A forte queda das vendas as montadoras vem sendo compensada no nosso caso pelo aftermarket e exportações”, destaca Campos. Algo como 75% das partes oferecidas pela Schaeffler são fabricadas no Brasil. Uma das exceções é o kit de reparo lançado na Automec para transmissões automáticas de dupla embreagem, que começaram a chegar ao mercado brasileiro nos últimos anos a bordo de carros da Ford, Volkswagen e Audi. Campos calcula que já existam perto de 200 mil deles rodando aqui e cerca de 10% já são reparados fora das concessionárias, na rede independente de oficinas, que poderá oferecer o kit da Schaeffler aos clientes por preços menores.

Na ZF o aftermarket já representa 30% do faturamento na América do Sul, o maior entre todas as divisões da companhia – globalmente, a venda de partes sobressalentes do grupo somou € 2,8 bilhões em 2016. Após a compra da TRW, anunciada em 2014, o negócio cresceu ainda mais e a área foi a primeira a ser integrada entre as duas companhias. No ano passado, foi concluída a integração no Brasil das operações de aftermarket das duas empresas, com a transferência de todos os funcionários da área, que antes ficavam separados em três escritórios, para a nova sede em Itu (SP), onde foi inaugurado um dos maiores centros de distribuição de peças do grupo no mundo. “Já não se vê mais diferenças nos times que vieram da TRW ou ZF. Foi uma fusão sem traumas, de linhas de produtos complementares. Agora o cliente trata de tudo com uma só pessoa”, diz João Lopes, diretor da ZF Aftermarket na América do Sul, que atua com sete linhas de produtos que incluem elementos de suspensão, direção, freios e eixos, entre outros itens.

DESEMPENHO DESIGUAL

Lopes conta que em 2016 as vendas da ZF no mercado de reposição ficaram estagnadas em relação a 2015, com desempenho desigual entre as linhas de produtos pesada e leve. “Houve crescimento no segmento de veículos de passageiros, porque o grande volume de carros vendidos nos últimos anos passou a precisar de manutenção. O mesmo não aconteceu com os caminhões, que com a crise econômica ficaram mais parados e assim precisaram de menos manutenção”, explica Lopes. Na soma das duas forças contrárias, o diretor afirma que a soma foi quase zero. Para este ano, com a expectativa de recuperação do mercado de veículos comerciais, a ZF espera por expansão de 5% no aftermarket.

Para a Bosch, o faturamento global da divisão de aftermarket alcançou € 6 bilhões em 2016. As vendas do segmento de reposição e serviços a América Latina vêm crescendo ao ritmo de 5% a 7% por ano desde 2013. “Nesses últimos anos fizemos várias mudanças para tornar a área mais eficiente e rentável. Assumimos as operações logísticas e lançamos muitos produtos. Isso nos fez crescer ano após ano”, conta Delfim Calixto, presidente da divisão que oferece cerca de 40 mil itens na região – contra 200 mil na Alemanha. No Brasil, a expansão foi de 3,5% na comparação entre 2015 e 2016, “o que pode ser considerado nada se tirar só a inflação do período”, diz. Para este ano a expectativa é de crescimento de 6%. “O ano começou muito bem e esse resultado pode ser até melhor. O movimento da Automec sinaliza isso, com um clima muito melhor do que o da última feira (em 2015)”, avalia Calixto.

A aposta da Bosch no segmento, destaca o executivo, é oferecer soluções completas ao reparador, incluindo treinamento, serviços e equipamentos de diagnóstico. A empresa tem no Brasil 1,3 mil oficinas credenciadas Bosch Car Service. “São pontos que em muitos casos podem substituir com o mesmo padrão ou até superior os serviços das concessionárias”, diz Calixto. Existem ainda outros 2,5 mil pontos que não usam a marca Bosch, mas compram peças originais e passam por treinamentos oferecidos pelo fornecedor. Também fazem parte da rede 500 centros originais de reparação diesel e mais 500 que atuam com motores diesel mais antigos, sem eletrônica.

A Delphi é outra das grandes fornecedoras de componentes para as montadoras que está acelerando sua atuação no aftermarket, que na América do Sul já representa 18% do faturamento. “Crescemos mais de dois dígitos porcentuais no ano passado, abaixo de 20%, e este ano a expectativa é novamente atingir dois dígitos, mas um pouco menos, mais próximo dos 10%”, diz Amaury Oliveira, presidente da divisão. “O momento não é fácil e assim o mercado de reposição ganha mais importância. Investimos mais no aftermarket para dar sustentação ao negócio, porque o OEM (fornecimento às montadoras) está em grande retração”, avalia.

Com 32 linhas de produtos no aftermarket, a Delphi segue ampliando a gama de peças oferecidas, com 800 itens lançados em 2016 e outros 150 só nesta Automec. Uma das principais novidades é o lançamento da linha de velas de ignição, segmento no qual a empresa nunca atuou antes. O componente é comprado de um fornecedor original com padrões definidos pela Delphi. “A expectativa é conseguir participação de 5% já este ano no mercado brasileiro que gira 45 milhões de velas por ano”, afirma Oliveira.

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