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09/01/2017 | 22h00

Indústria

Salão de Detroit sente a sombra de Trump

Montadoras rebatem novo presidente e dizem que investem muito nos EUA


PEDRO KUTNEY, AB | De Detroit (EUA)

Mark Fields e o estande da Ford cheio de veículos produzidos nos EUA: sinal de confiança na administração Trump
No momento de alívio econômico, em que o mercado de veículos dos Estados Unidos volta a se estabilizar no patamar de vendas acima de 17 milhões de unidades/ano, as preocupações dos fabricantes (nacionais e estrangeiros com fábricas no país) agora estão voltadas para outro problema: as ameaças do presidente eleito Donald Trump, que assume o posto este mês após prometer (via Twitter) proteger empregos e taxar carros importados dos vizinhos México e Canadá, dentro da zona de livre comércio do Nafta, hoje são isentos de imposto aduaneiro. Na abertura para a imprensa do Salão de Detroit, na segunda-feira, 9, ficou evidente o temor em relação aos recados ameaçadores de Trump, que se colocados em prática podem abalar o modelo de negócio adotado pela indústria automotiva na América do Norte, onde se aproveita a mão de obra mais barata, especialmente a mexicana, para fabricar automóveis vendidos, em sua maioria, nos EUA. A resposta ao discurso nacionalista dos principais fabricantes presentes nesta edição do North American International Auto Show (NAIAS) foi propagar a mensagem de que já produzem muito no país, e anunciaram novos investimentos em fábricas e produtos made in USA.

Todas as montadoras que mais vendem veículos nos EUA têm grandes operações industriais no México, como é o caso de Ford, General Motors, Fiat Chrysler (FCA), Nissan, Honda e Volkswagen. De olho no livre acesso ao mercado americano, nos últimos anos o país atraiu bilhões de dólares em novos investimentos: a coreana Kia inaugurou fábrica em 2016 e outras já começaram a construir as suas, como Audi, BMW, Mazda e Toyota. Agora, com o discurso nacionalista de Trump, os novos empreendimentos automotivos no México entraram em risco.

A Ford foi a primeira, este mês, a anunciar o cancelamento de investimento no México, de US$ 1,6 bilhão em uma nova fábrica no país. Ao mesmo tempo, confirmou que vai redirecionar parte desses recursos, US$ 700 milhões, para produzir novas versões híbridas do Mustang e do Lincoln Continental em sua planta de Flat Rock, em Michigan, Estado que foi berço da indústria automotiva americana e perdeu muitos empregos do setor nas últimas décadas. O aporte faz parte do plano de investir US$ 4,5 bilhões até 2020 para lançar 13 modelos eletrificados, incluindo opções híbridas até da picape F-150 (leia mais aqui), o veículo mais vendido dos EUA, icônico do American way of life.

O CEO mundial da Ford, Mark Fields, amenizou a decisão e alegou que o redirecionamento do investimento é devido a uma mudança de mercado, além de ser um voto de confiança na próxima administração. “Esperamos um ambiente mais favorável para negócios nos Estados Unidos no governo Donald Trump”, disse Fields aos jornalistas logo após a apresentação das novidades nacionais da marca no Salão de Detroit, com destaque para a nova picape F-150 e o anúncio da volta da produção em Michigan da picape Ranger, ainda este ano, e do SUV médio Bronco até 2020 – o que recebeu aplausos efusivos da plateia na Joe Louis Arena. Mas Fields garantiu que a companhia seguirá com seu foco global: “Somos uma multinacional com muito orgulho, investimos em todas as partes do mundo onde temos negócios e continuaremos a fazer isso”, disse.

“VIDA SEGUE”

“Não temos escolha a não ser nos ajustarmos às regras”, afirmou Sergio Marchionne, CEO do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA), que também usou o Salão de Detroit para anunciar investimentos em fábricas americanas da empresa em Warren (Michigan) e Toledo (Ohio), onde serão aportados U$ 1 bilhão, com criação de 2 mil empregos, para produzir três novos modelos Jeep, o Wagoneer, Grand Wagonner e uma picape offroad. “Esses movimentos expandem nossa capacidade nesses segmentos, para atender à crescente demanda aqui nos Estados Unidos por SUVs e picapes, e também aumentam nossa capacidade de exportar veículos médios e grandes para mercados internacionais”, justificou Marchionne, garantindo que as ameaças de Trump nada tiveram a ver com este anúncio: “São investimentos já previstos há cerca de um ano”, diz.

Seja como for, a FCA também aproveitou o evento para reforçar a informação sobre o quanto a FCA já investiu nas operações nos Estados Unidos: US$ 9,6 bilhões, com geração de 25 mil postos de trabalho, desde que a Fiat assumiu o comando do Grupo Chrysler, em 2009. “Não falei com Trump ou seus assessores. Tudo que fizemos até agora já estava nos planos. Mas é um novo território para nós, nunca tivemos antes um presidente (que manda recados) no Twitter. Falta clareza sobre o que vai de fato acontecer. Estou tão no escuro quanto vocês. Mas vamos nos adaptar como sempre fizemos e a vida segue”, afirmou Marchionne com sua tradicional assertividade, lembrando de quando o Brasil “quebrou” o acordo de livre comércio automotivo que mantinha com o México, fazendo a empresa ter de mudar seus planos. “O certo é que qualquer adaptação será longa, custosa e incerta”, acrescentou.

No salão a FCA expôs em seu estande o Jeep Compass, fabricado no Brasil desde o fim do ano passado, mas que para o mercado americano será produzido na planta da FCA em Toluca, no México, assim como já acontece também com o Renegade. “Por enquanto não dá para dizer que vamos parar de investir no México e trazer a produção para os Estados Unidos, mas claro que neste momento não vamos fazer nenhum investimento antes de saber qual será a nova política. A verdade é que a indústria automotiva mexicana só existe para exportar ao mercado americano. Sem isso o setor não terá o mesmo tamanho lá”, sentenciou Marchionne.

JAPONESAS MUITO AMERICANAS

Todas as três fabricantes japonesas que mais vendem veículos nos EUA, Toyota, Nissan e Honda, também trataram de reforçar a mensagem de o quanto produzem e investem no país, além de lançar carros feitos em suas fábricas americanas.

A Nissan – maior fabricante de veículos do México e que investe em nova unidade no país para produzir modelos Mercedes-Benz e Infiniti de olho nas exportações ao mercado americano –fez questão de informar aos jornalistas em Detroit que produz mais de 1 milhão de carros/ano nos EUA, onde emprega 9 mil pessoas, e que mais de 80% de suas vendas no país, de 1,5 milhão de unidades em 2016, foram de modelos produzidos localmente.

Takahiro Hachigo, CEO da Honda, foi na mesma linha ao lembrar que a empresa produz há 40 anos nos EUA, onde já investiu US$ 17 bilhões em uma dúzia de unidades industriais, responsáveis por 96% das vendas de veículos da marca no mercado americano. Hachigo anunciou que em 2018 a Honda fará novos modelos híbridos e elétricos no país. Em Detroit, a principal atração da montadora foi o lançamento da geração da minivan familiar Odyssey, também made in USA, feita na fábrica de Lincoln, no Alabama.

A Toyota, segunda marca de automóvel mais vendida dos EUA, lançou em Detroit a nova geração do sedã Camry, apresentado em pessoa por um descontraído Akio Toyoda, CEO global e controlador da companhia – que em uma brincadeira com a plateia disse ser o novo porta-voz da marca no país após vencer uma seleção feita com alguns atores famosos americanos e ser chamado pelas entrevistadoras de “versão asiática de George Clooney”. Mas o empolgado Toyoda não deixou de mandar seu contrarrecado a Trump: “A Toyota emprega 136 mil pessoas nos Estados Unidos, onde já produziu 25 milhões de veículos e investiu US$ 22 bilhões em 30 anos no país, e vamos investir mais US$ 10 bilhões nos próximos cinco anos”, afirmou. O executivo e controlador da companhia japonesa também destacou que o Camry é há anos o carro mais vendido do mercado americano: “Vendemos um a cada minuto”.

Até o fim deste mês será sabido o quanto Donald Trump escutou todas essas as mensagens da indústria e se suas ameaças vão de fato se transformar em política de Estado.

Comentários: 1
 

Ulises Peredo
17/01/2017 | 12h25
A politica intervencionista vai contra os princípios elementares do capitalismo que, em essência prega a livre concorrência entre empresas e por inferência, entre países. As decisões de investimento são tomadas pelos empresários com base em analises econômicas e, se um país acredita estar perdendo terreno para outro, este deve atuar para se tornar mais competitivo. O que precisa a Ford, a GM a Nike e tantas outras empresas para tornar seus produtos mais baratos mesmo fabricados nos Estados Unidos? É essa a questão que deve ser analisada e é ai que o governo deve atuar, não com tarifas de importação, mas com planos de redução de custos e incentivos locais que suportem os investimentos no país. Evidentemente existem casos em que a concorrência é desleal e nestes casos vale o dialogo politico entre países para nivelar os custos. Logico que com países que praticam trabalho infantil ou exploração injusta da mão de obra, não tem nem como discutir um possível tratado de livre comercio.

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