NOTÍCIAS
16/12/2016 | 19h16

Indústria

Com SUVs, Chery tenta reescrever história

Empresa acumula mais um ano desastroso no mercado brasileiro


PEDRO KUTNEY, AB

Tiggo 2 chega em abril com a missão de fazer a Chery voltar a crescer no Brasil
No fim de 2015, Luis Curi, vice-presidente da Chery Brasil, avaliava que nada mais podia dar tão errado. Estava enganado. Tudo piorou, e muito. As vendas, que já tinham caído 42% para 5,4 mil unidades em 2015, continuaram a descer a ladeira e este ano devem fechar em torno de 2 mil veículos, em baixa ainda mais acentuada de quase 63% e muito distante da previsão feita em dezembro de um ano atrás, considerada modesta, de 8 mil. Novos produtos foram adiados para 2017, houve mudanças de planos de lançamentos, a rede de concessionários se esvaiu de 58 casas para as atuais 37 (e 15 delas devem deixar a bandeira), mais uma greve aconteceu na planta de Jacareí (SP) no início do ano e em junho a produção foi paralisada com a adoção de layoff (suspensão temporária do contrato de trabalho) por seis meses. Agora a Chery tenta reescrever sua história no País, com a aposta em uma ofensiva de lançamentos de SUVs que começa em abril com o Tiggo 2.

Na prática, após receber investimentos de R$ 1,2 bilhão desde 2011, quando foi tomada a decisão de abrir a primeira fábrica chinesa de veículos fora da China, a operação brasileira da Chery quase não produziu em 2016 e só volta à atividade na primeira semana de janeiro próximo. “O ano de 2015 já não tinha sido bom e 2016 foi pior”, reconhece Curi. “Podemos dizer que foi um ano sabático para nós”, disse ele novamente, em mais um encontro de dezembro com a imprensa, na sexta-feira, 16.

“Mas aproveitamos para fazer a reestruturação que precisávamos, para perder o menos possível, pois tivemos prejuízo em todos os carros vendidos em 2016”, afirma o vice-presidente. Segundo ele, isso também foi feito na matriz chinesa da Chery, que desde a inauguração em 2001 criou um confuso portfólio de produtos sobrepostos. “Há quatro anos foi iniciada uma reformulação completa, com o projeto de uma nova geração de veículos baseada em apenas três plataformas, que agora começa a chegar aqui também”, explica Curi.

NOVO CICLO DE PRODUTOS

Agora todas as expectativas estão voltadas para o novo ciclo de produtos, que começa em abril com o lançamento do utilitário esportivo compacto Tiggo 2, já apresentado ao público brasileiro no Salão do Automóvel de São Paulo em novembro passado. “O carro deve entrar em produção já no meio de fevereiro”, afirma. A maior parte dos componentes, inclusive as partes estampadas da carroceria, virão da China para montagem em Jacareí, onde já são feitos o compacto QQ e o Celer hatch e sedã.

“Não fizemos a melhor escolha de produtos para o Brasil, lançamos carros justamente no segmento que mais caiu, o do cliente emergente que desapareceu. Ficou pior ainda para nós que ainda não tínhamos uma marca bem estabelecida, que nessa hora pesa para o comprador com receio de fazer negócio”, analisa Curi. “Nesse cenário, os planos ambiciosos tiveram de ser reestruturados, mas a Chery é uma empresa estatal chinesa e as decisões e aprovações demoram a acontecer. Mas agora devemos recomeçar com uma nova linha de produtos e vamos voltar a crescer”, aposta.

O executivo explica que a estratégia é “sair da carnificina do mercado de veículos de entrada e partir para a ofensiva no segmento de SUVs, o único que ainda cresce no Brasil”. Um ano depois do Tiggo 2, em abril de 2018, deve ser lançado aqui o Tiggo 7, SUV de tamanho intermediário, similar ao de um Hyundai ix35. E no início do segundo semestre de 2018 será a vez do Tiggo 9, de porte maior, parecido com um Honda CR-V. Todos entrarão na linha de produção de Jacareí com promessa de estar entre as opções mais baratas do mercado em suas categorias.

“A decisão de apostar em SUVs não acontece só no Brasil, mas também na China, onde o segmento já representa 42% de um mercado esperado de 27 milhões de veículos este ano. E metade desses SUVs são feitos por fabricantes chineses como Chery, Great Wall e Geely, que lideram as vendas com modelos com baixo custo. Esperamos fazer o mesmo no Brasil”, revela Curi. Segundo ele, foi feita uma pesquisa feita com visitantes do Salão do Automóvel para prever o preço do Tiggo 2, “e os valores ficaram até acima do que deveremos cobrar”.

A Chery também vai entrar no disputado segmento de sedãs médios no País. Provavelmente em agosto chega importado da China o Arrizo 3. Logo depois, entre setembro e outubro e igualmente importado, vem o Arrizo 5. A intenção é sentir a receptividade do mercado e, se for boa, começar a produzir um ou os dois carros em Jacareí.

Todos os novos produtos fazem parte da chamada Geração 2, ou New Generation da Chery, projetada por uma equipe de designers europeus que começou a ganhar as ruas há cerca de dois anos. Curi conta que o foco foi em qualidade e design moderno, transformando completamente o portfólio de produtos da marca chinesa, agora baseado em apenas três plataformas.

NOVA REDE E AMBIÇÕES ADIADAS

Paralelamente, a Chery negocia a reconstrução da rede de concessionárias no País. Ainda no primeiro trimestre de 2017 deve ser anunciada uma grande reformulação, com provável associação com um grande grupo de revendas. Curi ainda não confirma, mas existem conversações avançadas com o Grupo Caoa, que já administra concessionárias Hyundai, Subaru e Ford.

A Chery chegou a ter 108 concessionárias no País, mas depois de tantos altos e baixos a rede se esfacelou. A ideia, agora, é aproveitar a chegada de uma nova geração de produtos para renovar também as revendas que ficarem e abrir novas, incluindo até mudanças no logotipo da marca. Para ajudar nas vendas, está em fase final a criação de um braço de financiamentos da Chery, em parceria com o Banco Santander.

As ambições, contudo, são bem mais contidas agora. Curi estima que só em 2021 a fábrica da Chery deverá atingir sua capacidade inicial máxima de 50 mil unidades/ano. “Isso se mais nada der errado”, pondera. Para 2017 ele prevê a produção em Jacareí de cerca de 6,5 mil veículos. A unidade também deve ser ajudada com o início das exportações para países da América do Sul. “Já está quase certa a venda do Tiggo 2 para mercados vizinhos”, diz Curi. Ele espera exportar cerca de 500 unidades por ano.

Comentários: 1
 

marco antonio dos anjos
07/02/2017 | 23h56
Não é fácil estabelecer uma relação de confiança entre montadora sem tradição e o consumidor brasileiro. Carro aqui se confunde com ativo financeiro, o que não é, e se espera que dure muito. O preço é em muito aviltado pelos absurdos impostos o que cria uma relação de conquista social sem igual no resto do mundo. Se a rede escolhida fosse um pouco melhor dos que as marcas tradicionais e os produtos tivessem mais robustez, ou melhor , menos fragilidade, é possível que os resultados fossem melhores. Tive a oportunidade de testar alguns chineses e eles são no geral sofríveis. O acabamento plástico em geral , além das cores carnavalescas, tem problemas de encaixes e durabilidade, lembram aqueles brinquedos que os camelos vendem nas feiras de contrabando. Mas piores mesmo são a suspensão , as relações de marcha longas demais e a ergometria.

Comente essa notícia

Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de questões técnicas ou comerciais. Os comentários serão publicados após análise. É obrigatório informar nome e e-mail (que não será divulgado ao público leitor). Não são aceitos textos que contenham ofensas, palavras chulas ou digitados inteiramente em letras maiúsculas. Também serão bloqueados currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.
Seu nome*: Seu e-mail*:

QUEM É QUEM NO SETOR AUTOMOTIVO

Encontre empresas e profissionais do setor.
Confira seus perfis e biografias.

Encontre empresas e profissionais do setor.

Encontre empresas e profissionais de comunicação.

Confira seus perfis e biografias.

COLUNISTAS

ALTA RODA | 20/09/2017
Salão de Frankfurt mostra que evolução da mobilidade também atrai público

Esta coluna é apoiada por:

Documento sem título
Advertisement Advertisement Advertisement
DE CARRO POR AÍ | 22/09/2017
Leve renovação exterior com adição de sistemas de segurança
AUTOINFORME | 21/09/2017
Empresa se prepara para grandes mudanças na indústria
INOVAÇÃO | 15/08/2017
Indústria automotiva precisa abrir os olhos para novas formas de trabalhar
DISTRIBUIÇÃO | 03/08/2017
Marca percorreu caminho árduo e conseguiu destronar a Toyota da 1ª posição
QUALIDADE | 03/07/2017
Rota 2030 terá missão de levar a indústria automotiva nacional até o futuro
Negócios | 08/03/2017
Tecnologia faz parte da receita para sair da crise
QUALIDADE | 23/11/2016
Empresas do setor automotivo precisam atualizar sistema de qualidade até 2018
Indústria | 01/08/2016
Declaração do presidente da FCA evidencia crise no setor de autopeças
Pressão de montadoras adia controle de estabilidade obrigatório
Tecnologia | 23/07/2015
Novas ferramentas de desenvolvimento encurtam caminho para a competitividade
Tecnologia | 13/03/2015
Setor enfrentará grandes mudanças nos próximos anos
MERCADO | 16/01/2015
Utilização do potencial só deve melhorar a partir de 2016
COMPETITIVIDADE | 08/04/2014
Interrupção do crescimento desafia fabricantes