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08/09/2016 | 19h13

Mobilidade

Volvo Bus quer transporte coletivo eletrificado

Presidente da companhia conta resultados da experiência na Suécia


GIOVANNA RIATO, AB | De Gotemburgo, Suécia

A Volvo colhe em Gotemburgo, na Suécia, os primeiros resultados de um projeto que pretende mudar a maneira como as pessoas se deslocam de ônibus nos centros urbanos. Desde o fim de 2015 a cidade conta com a Linha 55 de ônibus eletrificados que passa pelo centro, liga algumas universidades e leva 100 mil passageiros por mês. São 10 veículos, todos da marca sueca: três totalmente elétricos e sete híbridos diesel-elétricos, que só usam o motor a combustão em velocidades superiores a 30 km/h.

“O foco está em oferecer três grandes vantagens: eficiência energética, redução e ruído e uma solução para que as cidades sejam mais sustentáveis”, contou Hakan Agnevall, presidente mundial da Volvo Bus, enquanto levava a reportagem para um passeio de ônibus por Gotemburgo em uma cena difícil de adaptar para o contexto brasileiro. Por aqui é bastante improvável que o alto executivo topa dar uma entrevista enquanto circula no transporte público. Segundo ele, a companhia tem a eletrificação dos chassis como investimento estratégico há pelo menos 10 anos. No raciocínio do executivo, este é um dos caminhos essenciais para garantir a qualidade de vida nas grandes cidades que, no cálculo dele, devem abrigar dois terços da população global em 2060 (hoje 50% das pessoas vivem nos centros urbanos).

“Já fizemos testes no Brasil com etanol e em outras regiões com gás natural. A verdade é que nenhuma destas opções traz ganho importante de eficiência e ainda não há melhora no conforto para o motorista”, avalia Agnevall, assegurando que a eletrificação é o melhor caminho para os ônibus urbanos. A grande ousadia da iniciativa em Gotemburgo não está só em oferecer veículos com baixa ou nenhuma emissão, mas em garantir solução completa, incluindo a estrutura de recarga.

COMO FUNCIONA

Das 15 paradas da Linha 55, duas contam com sistema de recarregamento, uma delas fica, inclusive, em espaço fechado, o que garante proteção para o gelado inverno sueco. “Sem emissões ou ruído, o transporte pode ser planejado de um novo jeito na cidade, com paradas dentro de shoppings, bibliotecas e até de hospitais. Isso muda completamente a forma de se pensar as metrópoles e garante mais conforto aos passageiros, que não precisam se expor ao frio ou à chuva.”

Na estação, o condutor para o ônibus e, depois de acionar um botão no painel, o sistema de reabastecimento se conecta ao teto do veículo, onde fica a bateria. Em quatro a seis minutos a bateria tem 70% de seu potencial energético preenchido. Em uma destas paradas, o motorista Dzavid Murati desceu do veículo que conduzia e contou que a tecnologia tornou seu trabalho melhor, menos cansativo. Ele lembra que, quando o projeto começou, uma das preocupações era o silêncio dos ônibus, que poderiam oferecer risco aos transeuntes distraídos. “Achávamos que as pessoas não iriam escutar, mas esse problema não existiu. Os pedestres percebem o ônibus chegando”, conta.

Com a possibilidade de recarga ao longo da operação, a Volvo conseguiu reduzir o tamanho das baterias. “Menos peso, mais passageiros”, resume Agnevall. Depois de reabastecido, o chassi volta a rodar, aproveitando também a energia gerada na frenagem. Só durante a noite o veículo passa por reabastecimento convencional e alcança novamente 100% de carga.

O presidente da Volvo Bus conta que foi uma surpresa perceber o tamanho da melhoria causada pela redução no nível de ruído. Internamente, há internet wifi e tomadas para recarregar celulares e outros gadgets. “Nas pesquisas constatamos aprovação alta dos usuários”, conta, confirmando o que não poderia ser diferente.

O operador que optar por investir em um ônibus elétrico da montadora terá de desembolsar o dobro do valor que pagaria em um modelo a diesel. O custo operacional, no entanto, é significativamente menor, garante Agnevall, que prefere não especificar o tamanho da redução nos gastos com o uso do veículo, que pode variar de acordo com a aplicação. “A prefeitura de Gotemburgo oferece também incentivos para a compra de modelos zero emissão.”

Quanto à bateria de íons de lítio, a Volvo trabalha com um sistema de aluguel em que o cliente paga valor fixo por quilômetro rodado com os custos de recarga já inclusos. A economia nos gastos com combustível varia de 30% para o ônibus diesel a 75% no caso do elétrico. A vida útil da bateria é estimada por Agnevall em quatro a sete anos. Depois deste prazo a montadora se responsabiliza por destinar o componente para reutilização em aplicação menos severa ou à reciclagem.

PROJETO COLABORATIVO

A linha 55 é um projeto piloto que faz parte do programa ElectriCity em Gotemburgo. São 14 parceiros envolvidos na iniciativa, incluindo a prefeitura da cidade, empresas da área de energia elétrica, universidades e a montadora, claro. A ideia é desenvolver e testar opções sustentáveis de transporte. “Não queremos entregar o ônibus, mas uma solução viável”, conta o executivo.

Com isso em mente, toda a tecnologia de recarga usada na linha foi criada em plataforma aberta, sem segredo industrial. Assim, outras fabricantes também podem produzir veículos para rodar na mesma estrutura. A inovação já atraiu mais de 6 mil clientes da montadora à Gotemburgo para conferir como funciona o sistema. O potencial é global, garante o executivo. “O mercado brasileiro, por exemplo, já testa nossos híbridos e com certeza vai precisar de modelos elétricos no futuro, quando superar a crise. É um caminho sem volta.”

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