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Montadoras aumentam consumo de couro

Insumos | 11/04/2016 | 12h00

Montadoras aumentam consumo de couro

Até 2020 indústria deve comprar 25% das peles bovinas no mundo

PEDRO KUTNEY, AB | De Bordeaux-Cestas (França)

A indústria do couro está cada vez mais dentro dos automóveis e o setor vem aumentando ano a ano o uso do insumo em revestimentos de bancos e interiores. A evolução é rápida: em 2009 as montadoras e seus fornecedores representavam apenas 8% das compras mundiais de peles bovinas, porcentual que saltou para 18% em 2015, cerca de 45 milhões de peças semiacabadas do total de 250 milhões de unidades curtidas no ano. Segundo estimativas dos curtumes e seus consultores, no ritmo atual até 2020 os fabricantes de veículos vão responder por 25% de todo o couro consumido no mundo, processando quase 69 milhões de peles. Os dados foram apresentados em seminário dedicado ao assunto promovido pela Lectra em sua fábrica em Bordeaux-Cestas, na França. A empresa francesa já tem quase 40% de seu faturamento no setor automotivo com o fornecimento de máquinas digitais, softwares e treinamento para corte de tecidos de bancos e airbags, e agora direciona esforços para aumentar da mesma forma sua penetração no corte de couro para carros.

Dois movimentos contrários fazem a demanda por couro pender para a indústria automobilística: de um lado está a queda do uso de couro natural pelas fábricas de calçados – ainda responsáveis por pouco mais da metade do consumo mundial, mas que já representaram acima de 70% há menos de 10 anos – e do lado oposto está o crescimento compensador da oferta global de carros premium, que usam a matéria-prima no acabamento interno como diferenciação de luxo e sofisticação. A BMW, por exemplo, usa mais de 15 mil peles bovinas por dia na fabricação de seus automóveis. Modelos de altíssimo padrão da Rolls-Royce ou Bentley chegam a usar de 10 a 15 peles no revestimento interior de um único veículo.

“O couro é um insumo estratégico para criar valor e trazer lucro”, afirmou em sua apresentação Gerard Payen, diretor do projeto New Espace da Renault. “O couro traz uma mensagem de qualidade premium, já é uma condição para automóveis topo de linha. Se você olhar para o interior de um Bentley todo revestido com diversos tipos de couro, dirá que é um carro de alto luxo mesmo sem saber que é um Bentley”, exemplificou. Segundo ele, a presença do material teve crescimento exponencial nos últimos 20 anos mesmo nos modelos mais caros do mercado. Payen citou que, em 1996, na Europa 35% dos sedãs acima de 4,7 metros de comprimento traziam revestimento de couro, porcentual que já saltou para 55% este ano.

Segundo projeções da consultoria IHS apresentadas durante o seminário da Lectra, a demanda por veículos com revestimento de couro natural ou sintético (não-tecido) está aumentando entre todos os fabricantes. Somente considerando marcas premium, principalmente as alemãs Mercedes-Benz, Audi e BMW, a IHS calcula que até 2020, de todos os modelos vendidos, cerca de 45% devem sair de fábrica com revestimentos de couro na Europa, 84% na América do Norte e 78% na China. Levando em conta os fabricantes de carros de alto consumo, os porcentuais de uso de não-tecidos caem para 9% na Europa, 32% na América do Norte e 54% na China.

Não foram divulgadas estatísticas para a América do Sul, mas sabe-se que os números são ainda muito modestos. Os curtumes calculam que as montadoras instaladas no Brasil consomem cerca de 40 mil metros quadrados de couro por mês, o que significa revestir algo como 24 mil veículos por ano, cerca de 1% da produção nacional em 2015. A abertura de fábricas de marcas premium no País pode fazer esse número crescer nos próximos anos.

DESEJO DO CONSUMIDOR

“Nos principais mercados do mundo o consumidor aprecia o aumento do conforto interno e da sofisticação dos veículos, ele quer se sentir como se estivesse na poltrona de sua casa, e o acabamento em couro atende essa exigência”, argumenta Céline Choussy-Bedouet, diretora de marketing da Lectra.

Um estudo apresentado no evento por Guilherme Motta, diretor comercial da divisão de couros da JBS, confirma a maior procura pela matéria-prima natural no interior dos veículos: pelo preço agregado estimado de US$ 1 mil nos Estados Unidos, assentos genuínos de couro são o terceiro atributo mais desejado na compra do próximo carro pelo consumidor, atrás somente de ar-condicionado e acionamento elétrico dos vidros. Os revestimentos em couro do volante, console central e painel interno das portas também aparecem na 8ª, 15ª e 17ª posições entre os 20 itens mais procurados. “O crescimento não é só nas marcas de luxo, mas em quase todos os fabricantes, que muitas vezes nem cobram o couro como opcional, mas oferecem como promoção”, pontua Motta.

Nesse ritmo, a brasileira JBS tornou-se um gigante do setor, que exporta cerca de metade de sua produção de peles principalmente para fabricantes de assentos automotivos. Segundo dados apresentados por Motta, o setor automotivo aumentou de 5% em 2000 para 30% em 2015 a participação nas vendas anuais de peles bovinas curtidas do Brasil, algo como 12,7 milhões de peças do total de 42,2 milhões produzidas por ano pelo País – que abriga atualmente o maior rebanho bovino comercial do planeta, com 212,7 milhões de cabeças de gado, e é o segundo maior produtor de couro bovino do mundo, atrás da China.

MAIS EFICIÊNCIA

A indústria automobilística desponta como tábua de salvação dos curtumes, pois compensa a queda de consumo do setor calçadista. A oportunidade, contudo, também representa um desafio aos fornecedores do insumo, que precisam se modernizar e aumentar produtividade e qualidade para atender às exigências das montadoras. “Estamos aprendendo com os fabricantes de veículos: eles têm robôs, eficiência e nós temos de acompanhar o cliente no mesmo ritmo”, afirma Motta.

Muitos dos curtumes brasileiros já atendem essas exigências, mas apesar de estarem entre os maiores fornecedores de couro para a indústria automotiva, vão só até a produção da pele bruta com pigmentação, a peças semiacabada, vendida hoje no mercado internacional por valores entre US$ 65 e US$ 75 por pele. Se entregassem as peças já cortadas e costuradas, o valor de venda poderia crescer cerca de 30%, no cálculo de alguns especialistas. “Alguns pequenos fornecedores de couro automotivo estão comprando máquinas digitais de corte para oferecer uma diferenciação em relação aos concorrentes de grandes volumes, porque assim podem desenvolver produtos mais rapidamente e com maior qualidade”, explica Roy Shurling, diretor de desenvolvimento global de couro automotivo da Lectra.

Em geral, os curtumes fornecem peles semiacabadas para alguns dos principais fornecedores das fabricantes de veículos, como os fabricantes de bancos Lear e Johnson Controls, que fazem os cortes e costuras das capas. Por isso, por larga margem o maior fornecedor de peças acabadas de couro acabadas para as montadoras é o México, onde são cortadas quase 40 mil peles por dia para a indústria, boa parte exportada na forma de carros revestidos para os Estados Unidos, o maior consumidor mundial do produto. Logo atrás vêm China, com processamento de 22 mil peles/dia, e Itália, perto de 18 mil/dia. O Brasil aparece apenas em 17º no fornecimento de couro acabado para automóveis em 2015, com menos de 2 mil peles cortadas diariamente.

RUMO À DIGITALIZAÇÃO


Versalis Auto, da Lectra: aumento de produtividade e economia de matéria-prima com leitura e corte digital da pele bovina

Seja nos curtumes ou nos fornecedores de primeiro nível das montadoras, Shurling destaca que a digitalização do desenvolvimento de componentes como assentos e corte digital do couro serão essenciais para aumentar a eficiência dos processos industriais e atender aos pedidos cada vez mais diversificados dos fabricantes de veículos. A principais marcas premium estão multiplicando o número de modelos e versões oferecidas. A Mercedes-Benz, por exemplo, oferecia sete modelos em seu portfólio em 1980, passou a 24 em 2010 e vai chegar a 40 em 2020, com centenas de opções entre bancos, painéis e revestimentos. Isso significa um menor número de componentes e mais variações por projeto, mas mais peles para cortar no total com maior flexibilidade dos processos de produção.

Em busca de agilidade de desenvolvimento e flexibilidade da produção, atualmente 80% dos bancos revestidos com tecido são produzidos com peças cortadas por máquinas digitais – no ano 2000 esse porcentual era de apenas 10%. Para as capas de couro essa proporção quase se inverte: apenas 10% das peles são cortadas digitalmente e 90% por prensas, em uma operação artesanal. O problema é que o desenvolvimento de uma matriz de lâminas de prensa pode levar mais de três semanas, o que inviabiliza o atendimento rápido de mudanças de modelo requerido pelas montadoras, o processo gera mais desperdício de material e os desvios de qualidade são constantes, elevando substancialmente os custos de produção.

Em oposição a esse processo – com a aposta de que a digitalização também chegará inexoravelmente à indústria do couro automotivo assim como já aconteceu com os revestimentos de tecido –, a Lectra lançou em 2011 a Versalis Auto, especialmente para o corte de peles para automóveis. Com sensores a laser, a máquina “lê” o formato da pele (nunca igual um ao outro), exclui as partes com defeito marcadas pelo operador e faz o encaixe digital das partes a serem cortadas, previamente programadas. Depois uma esteira leva a peça adiante para que as cabeças de corte façam a separação das partes. O processo otimiza o uso da pele, reduzindo o refugo.

Alguns clientes da Lectra que passaram a usar a Versalis Auto aumentaram o aproveitamento das peles de 60%, no corte com prensa, para 70% a 80% com o uso do processo digital. A produtividade por hora trabalhada aumentou, em média, 20%. A adoção de softwares de prototipagem virtual, também fornecido pela Lectra, reduz entre 12 e 16 semanas o tempo de desenvolvimento de um banco. Como a máquina digital tem facas controladas por computador que deslizam por cima de qualquer pele, torna-se desnecessária a fabricação das caras matrizes usadas nas prensas, diminuindo substancialmente o tempo de resposta a um pedido do cliente.

“Os tempos de produção e o número de pessoas utilizados são praticamente iguais aos de corte com prensas, o que muda é a velocidade de reação a um novo projeto e o aumento da qualidade e produtividade do processo”, resume Shurling.


A Versalis Auto em operação: os defeitos da pele são marcados e a peça passa pelo leitor laser, para o encaixe digital das partes. Depois a peça é transportada para o corte pré-programado



Tags: Couro, indústria, fornecimento, insumos, Lectra, JBS.

Comentários

  • remirr silva

    TENHOINTERESSE NA SOBRA DE CORTES DE COUROS PARA FABRICAÇÃO DO BANCO DE VEICULO!

  • RemirRodrigues Silva

    Soucomprador de sobras de cortes de couro para bancos veiculos, se tiver como me passar possíveis empresas neste seguimento, lhe agradeço!

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