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23/03/2016 | 23h00

Indústria

Mercedes já faz carros de novo no Brasil

Fábrica de Iracemápolis entra em operação parcial após 13 meses


PEDRO KUTNEY, AB | De Iracemápolis (SP)

Treze meses após assentar a pedra fundamental de sua 26ª fábrica de automóveis no mundo (leia aqui), a Mercedes-Benz colocou para funcionar oficialmente a planta de Iracemápolis, no interior paulista, onde estima ter investido pouco acima de R$ 600 milhões para poder voltar a montar carros no Brasil – após a tentativa frustrada em Juiz de Fora (MG) que durou de 1999 a 2010, quando o empreendimento foi convertido para a produção de caminhões. “Ainda lembro quando vim aqui pela primeira vez e só havia uma grande plantação de cana-de-açúcar. Foi um recorde na história da companhia construir todo o complexo industrial em pouco mais de um ano”, destacou Markus Schäfer, membro do board da Mercedes-Benz Cars responsável por manufatura e logística, durante a cerimônia de inauguração na quarta-feira, 23.

Schäfer assegura que o aprofundamento da crise econômica no Brasil não alterou em nada os planos da empresa: “Estamos aqui há 60 anos e continuamos a enxergar grande potencial de crescimento no País, que é uma das maiores economias entre os países onde vendemos carros. Nosso investimento é de longo prazo e está em linha com o plano de expansão da companhia até 2020, com o objetivo de tornar a Mercedes-Benz a marca de automóveis premium mais vendida no mundo”, afirma. “Em 2015 nossas vendas de carros no mercado brasileiro cresceram 50% (17 mil unidades), mesmo em tempos difíceis. Acreditamos no portfólio de produtos que temos a oferecer e por isso devemos continuar a ganhar participação aqui”, completa.

Os dois carros que começam a ser montados no Brasil este ano, primeiro o sedã Classe C e depois o SUV GLA, continuarão sendo vendidos pelos mesmos valores dos importados, pois segundo a Mercedes-Benz a produção nacional não reduz os custos o bastante para isso, principalmente por causa da grande quantidade de peças importadas em momento de câmbio desfavorável. Ainda assim, a fábrica brasileira ao menos ajuda a não aumentar a tabela. “Nossa estratégia é oferecer preços competitivos e esta planta nos ajuda a fazer isso mais rápido do que apenas importando”, diz Schäfer. Ele acrescenta que, no momento, não há planos de exportar a partir do Brasil, o objetivo é suprir só o mercado doméstico.

RITMO LENTO E FLEXÍVEL



Com capacidade inicial para montar até 20 mil carros por ano, a planta paulista começa as atividades em ritmo bem mais lento. Os 600 empregados já contratados montam em um turno de trabalho, de segunda a sexta-feira, 50 unidades/dia do sedã Classe C, o que soma o máximo de 12 mil/ano. Por enquanto, o carro já chega da Alemanha com a carroceria soldada e pintada, pois só a linha de montagem final entrou em operação efetiva, agregando muitas partes importadas e algumas nacionais como bancos e pneus – a Mercedes não informa qual é o porcentual de nacionalização dos veículos, apenas reforça que cumpre as normas do Inovar-Auto, programa que permite elevado grau de componentes importados para operações de baixo volume, abaixo de 34 mil unidades/ano.

“Vamos crescer conforme a demanda, temos espaço para isso, podemos fazer até outros modelos se o mercado quiser”, assegura Schäfer. “A principal vantagem desta planta é a flexibilidade, que já é uma referência para todo o grupo. Podemos fazer aqui qualquer um dos automóveis Mercedes-Benz, sobre qualquer plataforma, com motor transversal ou longitudinal, tração dianteira, traseira ou integral. Nenhuma outra fábrica do grupo é tão flexível”, explica.

A Mercedes também não informou o número de fornecedores já contratados no Brasil, diz apenas que “são todos parceiros globais que têm fábricas no País”. Desses, por exemplo, sabe-se que a Lear fornece os bancos a partir de sua fábrica em São Bernardo do Campo (SP). O maior contrato firmado até agora não é exatamente de compra de peças, mas de serviços. A também alemã ZF foi contratada para fazer a montagem de partes fornecidas pela Mercedes, incluindo o powertrain com motor, câmbio, radiador e eixo dianteiro, além do eixo traseiro completo. Parte da operação, como montar os periféricos do motor e agregar sistemas de freios nos eixos, será feita por 42 funcionários da ZF em Sorocaba (SP) e a etapa final da montagem vai ser executada por 25 pessoas em uma área de 2 mil metros quadrados dentro da planta de Iracemápolis, cedida à sistemista para isso (leia aqui).

Segundo a Mercedes, os 600 funcionários da planta passaram por 63 mil horas de treinamento, principalmente em um centro do Senai montado para esse fim em Iracemápolis. Depois disso, 90 deles foram enviados ao exterior para estagiar em plantas na Índia, Hungria, Alemanha e Tailândia. Schäfer lembra que a qualificação de mão-de-obra é um dos fatores mais importantes para o bom funcionamento da fábrica brasileira, que tem muitas das operações executadas manualmente, não só por questão de baixo volume de produção, mas também porque essa é uma estratégia mundial da companhia: “Nosso objetivo é reduzir o número de robôs, porque eles são inflexíveis e não permitem a produção mais variada de modelos. Vamos manter maiores níveis de automação somente onde isso for necessário, em operações para garantir mais qualidade nos processos ou que representem risco à saúde dos empregados”, explica.

No segundo semestre começa a produção do segundo modelo em Iracemápolis, o SUV GLA, e também entram em operação as áreas de funilaria (armação de carroceria) e pintura, quando mais fornecedores locais poderão ser nomeados. A fábrica só não terá área de estamparia, pois os volumes não compensam os investimentos vultosos em prensas e ferramental. Assim as partes estampadas da carroceria seguirão sendo importadas de plantas na Alemanha.

A VOLTA DOS CARROS MERCEDES



O presidente da Mercedes-Benz do Brasil e CEO para a América Latina, Philipp Schiemer participou diretamente da decisão da companhia de voltar a produzir carros no País, que começou a ser desenhada antes de assumir seu posto aqui, quando ele estava na Alemanha e era vice-presidente de marketing de produto da divisão de automóveis da lendária marca da estrela de três pontas. “Em 2011 começamos a fazer nosso plano 2020, com o objetivo de alcançar a liderança do mercado global de veículos premium. Então analisamos quais mercados apresentavam potencial para esse crescimento e o Brasil surgiu naturalmente. Mas aí Juiz de Fora não estava mais disponível. Ainda havia espaço no terreno lá para outra fábrica, mas a logística não favorecia. Depois, em 2012, foi lançado o Inovar-Auto e ninguém conseguiria crescer aqui sem uma fábrica. Começamos a procurar um lugar e em 2013 chegamos a Iracemápolis”, conta o executivo.

Schiemer garante que os benefícios recebidos em Iracemápolis dos governos estadual e municipal serviram “apenas para adoçar o bolo, pois não é possível investir em uma fábrica baseada em incentivos que não se sabem se vão continuar”. Segundo o executivo, o que mais pesou na decisão foi a infraestrutura local, localização próxima de muitos fornecedores e mão-de-obra qualificada.

O insucesso da produção de carros no Brasil em passado recente, quando a fábrica de Juiz de Fora não chegou nem à metade da capacidade de 60 mil/ano, segundo Schiemer teve efeito pedagógico para a empresa: “Aprendemos muito com os erros que cometemos em Juiz de Fora, onde fizemos o produto errado no momento errado. O (antigo) Classe A era um bom carro, mas na época muito caro para o consumidor brasileiro e nossas ambições eram altas demais. A desvalorização cambial (do fim de 1998) bem na hora que começamos a produzir tornou as coisas ainda mais difíceis, pois o modelo tinha muitos componentes importados. Hoje a situação é bem diferente. O mercado premium está crescendo, aumentamos a participação no segmento (contra os rivais Audi e BMW) para 37% e vamos fazer em Iracemápolis os dois modelos que já são os que mais vendemos aqui. Por isso dessa vez vai ser diferente.”


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