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MAN absorve tombo e tem primeiro prejuízo
Cortes: ano pior do que as piores expectativas

Comerciais | 09/12/2015 | 19h40

MAN absorve tombo e tem primeiro prejuízo

Fabricante tem pequeno ganho de participação e prevê ano difícil

PEDRO KUTNEY, AB

O resultado da MAN Latin America em 2015 foi pior do que as mais pessimistas previsões. Com o mercado brasileiro de caminhões em queda livre de 50% este ano, foi impossível manter o balanço no azul e a empresa registra seu primeiro prejuízo operacional na região em 20 anos, desde quando estabeleceu fábrica em Resende (RJ), ainda como Volkswagen Caminhões e Ônibus. Segundo registra o balanço da companhia até setembro (último dado disponível), as perdas na América Latina somam € 45 milhões, contra lucro operacional de € 76 milhões nos mesmos nove meses de 2014.

“Praticamente todo esse prejuízo se deve ao resultado do Brasil”, reconhece Roberto Cortes, CEO da MAN Latin America. “Em 2014 o ano já tinha sido de queda de 12%. No começo de 2015 já sabíamos que seria ruim, medidas econômicas ortodoxas teriam de ser tomadas pelo governo. Esperávamos talvez um novo pequeno recuo nas vendas, mas nunca imaginamos uma queda de mercado de 50%. Voltamos ao volume de 1999, são 15 anos atrás. Foi muito pior do que nossas piores previsões. O pior é que foi inesperado, só deu para tomar medidas reativas a cada número negativo”, lamenta o executivo.

Uma dessas reações foi reduzir o ritmo em Resende ao mínimo possível. “Em outubro negociamos com os trabalhadores a redução de 10% da jornada e dos salários antes mesmo de o governo adotar o PPE (Programa de Proteção ao Emprego, que permite reduções temporárias de jornada e salários com parte dos vencimentos dos trabalhadores envolvidos bancado pelo governo). Se soubesse que o ano terminaria assim teria proposto redução maior. Agora já homologamos um pedido de PPE de 20%; não é de 30% porque ainda não estou tão pessimista assim com 2016”, revela Cortes.

Para o próximo ano as expectativas mais otimistas são de estabilidade do mercado, o que deve manter o ritmo inalterado da fábrica. “Reconheço que está muito difícil voltar a volumes (no Brasil) acima de 100 mil caminhões/ano, mas não descarto essa possibilidade se a indefinição política for superada. Se nada mudar e o baixo nível de confiança persistir, 2016 pode ser ainda pior do que 2015, pois caminhão é um bem de capital que precisa justificar o investimento”, avalia Cortes. Na sede da MAN em Munique, Alemanha, onde o CEO está no mínimo uma vez por mês, a avaliação é de que o cenário negativo é passageiro. “O Brasil continua a representar para o grupo uma enorme perspectiva de crescimento. O momento é de preocupação, mas com serenidade, sem pânico.”

Cortes relativiza o fim do PSI, financiamento barato do BNDES responsável por cerca de 80% das vendas de caminhões no País. Para ele, o Finame tradicional é um bom substituto, com custo variável de TJLP (hoje de 7% ao ano) mais a remuneração do banco: “Terá taxas muito parecidas e não depende de subsídio do Tesouro. É bom ter essa definição para o ano. O que estamos pedindo é que a parcela financiável seja aumentada.”

Atualmente o Finame financia 50% do valor para grandes empresas e 70% para pequenas e médias, e pode chegar a 90% em ambos os casos com a diferença remunerada pela taxa Selic (hoje de 14,25% ao ano). O pleito dos fabricantes junto ao governo é que seja aplicada só a TJLP à linha, com financiamento de ao menos 90% do bem. Com tudo incluído o custo da linha ficaria entre 12% e 14% ao ano, dependendo do cliente. “Isso dá de 2% a 4% acima da inflação atual, o que já é bastante bom”, diz o executivo.

RITMO LENTO

A fábrica no sul fluminense da MAN trabalha atualmente com apenas um turno e quatro dias por semana. As férias de fim de ano, que normalmente duravam uma semana, foram antecipadas e já começaram esta semana, com volta ao trabalho programada só para 7 de janeiro. O nível de estoque para atendimento do mercado doméstico chega a 40 dias de vendas.

Este ano, Cortes informa que Resende produzirá e venderá 24 mil unidades de caminhões e chassis de ônibus, algo como 6 mil para exportações, “que estão crescendo com o câmbio favorável, as vendas já aumentaram 50% para Argentina, Chile, México e África do Sul, nossos principais mercados, mas ainda representam somente cerca de 15% da produção”, diz o executivo. “O ritmo é bastante reduzido, basta lembrar que temos capacidade para 100 mil por ano e em 2011 produzimos 72 mil”, recorda.

Cortes ressalta, contudo, que a situação seria bem pior não fosse o sistema mais flexível do consórcio modular que opera a planta de Resende, com fornecedores executando diversas funções dentro da linha de produção. “Temos custos e salários mais baixos e conseguimos ajustar a fábrica para trabalhar com o ritmo atual, sem precisar fazer grandes demissões unilaterais em massa. Se ainda assim nós estamos perdendo dinheiro, imagino que os concorrentes estão perdendo muito mais”, estima.

GANHO DE MERCADO

Ainda que de forma muito leve, o tombo no Brasil foi amortecido pelo ganho de quase um ponto porcentual de participação de mercado este ano, que chega a 27,4% de janeiro a novembro e coloca a MAN na liderança das vendas de caminhões no País, com 18 mil unidades emplacadas que representam queda de 45% sobre o mesmo período de 2014 – abaixo, portanto, da média geral do mercado com recuo de quase 50%. “É preciso celebrar porque conseguimos fazer isso em condições muito adversas, enfrentando a concorrência cada vez mais acirrada, com ofensiva do nosso principal rival (leia-se Mercedes-Benz) nunca antes observada”, destaca Cortes.

Ele atribui o ganho de market share ao planejamento de produtos iniciado ainda no fim de 2013. “Em 2014 lançamos 19 modelos ajustados para atender as necessidades dos clientes em tempos de crise, com vários ajustes para reduzir os custos de operação de nossos caminhões”, explica Cortes. Ele também comemora o fato de nenhuma concessionária da rede ter fechado as portas no ano. “Terminamos o ano com o mesmo número de revendas que começamos.”

No segmento de extrapesados onde, a MAN atua com seus TGX, a participação ainda é tímida, mas Cortes vê chances de crescimento no futuro. “Tínhamos pouca competitividade com o modelo, mas este mês atingimos o grau de nacionalização de 60% em peso e valor do TGX (condição mínima exigida pelo BNDES para financiar o caminhão integralmente pelo Finame)”, explica.

A MAN também continua vice-líder no País em vendas de chassis de ônibus, com 3.351 unidades vendidas de janeiro a novembro, em queda de 45% sobre o mesmo período de 2014. A participação no segmento caiu 1,5 ponto, de 23,1% para 21,6%. “Mas se tirar dessa conta as vendas licitadas para o programa Caminho da Escola do governo federal, que foi interrompido este ano, nós até ganhamos market share, o que nos inspira a buscar a liderança em ônibus também”, promete Cortes.

Com veículos das marcas MAN e Volkswagen, o Brasil até o ano passado era o maior mercado mundial da MAN, com mais de um terço das vendas mundiais do grupo e larga margem de vantagem à frente o segundo, a própria Alemanha. Com o tombo de 2015, Cortes ainda não sabe se manterá essa liderança.

Assista abaixo a entrevista exclusiva com Roberto Cortes para a ABTV:



Tags: MAN Latin America, mercado, projeção, previsão, balanço, resultado.

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