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Programas de P&D exigem equipes dedicadas
A partir da esq.: Valter Pieracciani, Pedro Kutney (mediador), Bruno Bragazza (Bosch) e Thomas Schmidt (ZF) (Foto: Luis Prado)

Legislação | 14/09/2015 | 13h17

Programas de P&D exigem equipes dedicadas

Empresas devem criar gestão exclusiva para aproveitar todas as ferramentas

SUELI REIS, AB

Criar equipes dedicadas e exclusivas para gerenciar os processos de inclusão das companhias em programas de incentivo à pesquisa e desenvolvimento (P&D) é o primeiro passo para que o setor automotivo possa aproveitar de forma plena todas as ferramentas disponíveis no Brasil, concordam os participantes do painel O Desenvolvimento dos Programas de P&D e Inovação, durante o Workshop Os desafios da Legislação Automotiva, realizado na segunda-feira, 14, por Automotive Business em São Paulo.

“As empresas anseiam por incentivos e para esta área estamos bem servidos, mas precisa se organizar para isso. As companhias precisam focar e entender que é o tipo de trabalho que não dá para fazer nas horas vagas: é burocrático, é complexo e precisa ser tratado com pessoal competente. Falta também quebrar esse paradigma de que P&D tem que ser global e segredo. Há exemplos de empresas que estimulam startups a fim de promover essa parceria quando a ainda não há esse know-how. O certo é que vai chegar a hora de abrir as portas”, afirma Valter Pieracciani, diretor da consultoria Pieracciani, especializada em invovação.

Para Bruno Bragazza, gerente de inovação e propriedade intelectual da Bosch América Latina, o trabalho exige investimento em capacidade e conhecimento: “Essa gestão de incentivos, área que criamos em 2008 na Bosch, consiste em entender os conceitos e objetivos da empresa em pesquisa, desenvolvimento e inovação e buscar oportunidades que viabilizam esses projetos. Há uma série de bons instrumentos e ferramentas disponíveis, mas ainda há pouco uso deles exatamente pela falta de conhecimento: precisa estudar as leis e de uma equipe especializada para isso. Nos primeiros três anos utilizávamos apenas a Lei do Bem. Demoramos algum tempo até conceber e começar a utilizar outros programas”, exemplificou.

Segundo Thomas Schmidt, diretor regional de P&D e inovação da ZF América do Sul, há certas limitações que podem fazer com que haja demora ainda maior na integração com os programas locais de desenvolvimento, como a falta de competitividade brasileira, o que gera discussão interna quando o assunto é investimento. “Trabalhamos com P&D baixo no Brasil porque a matriz preza pelo diferencial e pelo retorno que isso proporcionará no curto e médio prazo. De certa forma, esbarramos nessas limitações. Também há outro aspecto, a dificuldade e o dilema em eleger o que é inovação, porque há falta de clareza quanto às definições de nomenclaturas e conceitos do que é inovação junto ao governo, o que gera dificuldade de acesso aos programas”, alertou.

O executivo lembra que no caso do Brasil há o paradoxo: só se é competitivo quando se inova. Para ele, a formação dessa nova cultura é um processo lento: “Leva bastante tempo e não tem data marcada para ter algum tipo de retorno. Temos um agravante, o da crise atual, que desfigura qualquer intenção de investimento. Seria o momento certo para fazer, mas acredito que só voltará a ser vantajoso investir quando o cenário estiver mais robusto”.

VALOR DA INOVAÇÃO

Os participantes concordaram que não há falta de recursos para sustentar os programas de incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento, mas que a burocracia, além da falta de conhecimento sobre a área, pode atrapalhar o acesso das empresas: “78% do que se gasta com P&D o governo está disposto a devolver de alguma forma, como vemos na Lei do Bem ou mesmo no Inovar-Auto com o incentivo do IPI, mas estamos jogando mal quando o assunto é sua utilização. As empresas têm nos procurado com o viés de redução de custo e isso é amplamente possível com os programas em curso”, afirma Pieracciani.

Para ele, a situação ideal é que a indústria ganhe pelo menos dois anos de “respiro” para aproveitar ao máximo tudo o que há disponível nos âmbitos do Finep e BNDES, por exemplo, sem esbarrar em intervenções burocráticas como os questionamentos do governo sobre o que é ou o que deixa de ser inovação. “Não faz sentido dizer que não se faz inovação no Brasil. Claro, temos erros dentro de casa e no governo. Tem de valorizar nossa engenharia e os primeiros a fazer isso somos nós mesmos. Chegar para os técnicos do governo e dizer: isso é desenvolvimento, é engenharia e é o jeito brasileiro de fazer inovação”, reforçou.

METAS DE EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EM RISCO

Questionados sobre o possível cenário de postergação de prazos para que a indústria atinja níveis de eficiência energética exigidos pelo Inovar-Auto, os participantes foram enfáticos ao afirmar que muitos já contam com tal possibilidade, mas que não é claramente abordado. “Muitas empresas não estão conseguindo atingir, há uma exigência e uma pressão grande quanto ao conteúdo local. Tais dificuldades claramente podem até barrar alguns tipos de investimento, porque a essência do negócio é de que traga retorno. Provavelmente como indústria em uníssono, não vamos conseguir”, disse Schmidt.

“Apesar das restrições, deveríamos prezar ainda mais pelas regras. Isso traria grande credibilidade. Não sou favorável em postergar [os prazos], mas já se sabe que vai acontecer”, cravou Bragazza.

“Seria péssimo adiar. Seria reforçar a cultura do ‘deixa disso’ e atestar incompetência apenas depositando no fundo de investimento [conforme prevê o Inovar-Auto]. O caminho é se unir, investir como uma indústria para fazer engenharia e não tratar o assunto como ‘o me engana que eu gosto’. Temos que definitivamente fazer P&D”, concluiu Pieracciani.

Assista abaixo às entrevistas de Valter Pieracciani e Bruno Bragazza à ABTV





Tags: Workshop Desafios da Legislação Automotiva, pesquisa, desenvolvimento, Inovar-Auto, inovação.

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