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Câmbio afeta resultado da Bosch na AL
Botelho: crescimento decepcionante na América do Sul

Balanço | 20/05/2014 | 20h15

Câmbio afeta resultado da Bosch na AL

Faturamento em euros caiu 3,6%, mas em reais subiu 8%, para R$ 5,1 bi

PEDRO KUTNEY, AB

A desvalorização do real, em torno de 50% nos últimos 12 meses, puxou para baixo o resultado em moeda forte da Robert Bosch na América Latina (com exceção do México). O faturamento de R$ 5,1 bilhões em 2013 significou alta de 8% sobre 2012, dos quais 69%, R$ 3,5 bilhões, vieram da divisão automotiva. Do total, R$ 4,4 bilhões, ou 86%, foram faturados no Brasil, em elevação bem menor, de 2,3% em comparação com o ano anterior. Contudo, quando se transforma a receita sul-americana em euros, algo em torno de € 1,8 bilhão, o sinal se inverte para queda de 3,6% em relação a 2012. A participação da região é de apenas 4% diante dos € 46,1 bilhões faturados globalmente pelo grupo no ano passado, em avanço de 3,1%.

“O crescimento na América do Sul tem sido decepcionante, muito abaixo do potencial da região. No ano passado tivemos forte influência negativa da desvalorização das moedas no resultado regional”, diz Besaliel Botelho, presidente da Bosch Brasil e América Latina. “Após uma década de crescimento do mercado automotivo, o Brasil começou a andar de lado e isso afeta fortemente o desempenho na região”, acrescenta. “No País, o faturamento em reais dobrou nos últimos 10 anos, mas em 2013 cresceu aquém do potencial, praticamente em linha com a evolução do PIB.”

Para 2014 o cenário para a região parece até pior em princípio. Enquanto a Bosch projeta crescimento do faturamento global de 5% este ano e no primeiro trimestre as vendas já cresceram 8,1%, puxadas por Ásia e Estados Unidos, o resultado trimestral na América Latina já acumula queda de 13%. Botelho projetava no início do ano que a produção de veículos no Brasil e Argentina somados deveria cair 7%. “Mas a evolução recente dos dois mercados já mostra que esse porcentual poderá ser ainda maior, mesmo com alguma recuperação das vendas no segundo semestre”, lamenta. Com isso, a estimativa é que o faturamento regional fique igual a 2013 ou, no máximo, cresça até 2%.

Botelho estima que a ociosidade nas linhas de produção de veículos nos Brasil e Argentina deve crescer fortemente nos próximos anos. “Pode chegar facilmente a 35% em 2016 com todos os investimentos em aumento de capacidade que foram feitos ou estão em curso”, afirma.

EMPREGOS

Este mês a Bosch vai lançar mão de férias seletivas em determinados setores para cortar turnos e reduzir a produção em cerca de 15%. Botelho diz que o esforço é para evitar demissões, mas se a situação continuar a se agravar a única saída será demitir. No ano passado o quadro de funcionários no Brasil passou por leve redução, de 9,75 mil para 9,5 mil. “Tentamos evitar ao máximo as demissões, porque perderemos pessoas gabaritadas”, diz.

Ele defende que seja adotado no País o modelo alemão de redução da jornada de trabalho, com subsídio do governo, que na Alemanha paga de 60% (solteiros) a 80% (casados) das horas não trabalhadas, a empresa arca só com as horas efetivamente trabalhadas e o empregado tem pequena redução salarial. A proposta, também defendida pela associação dos fabricantes de veículos, a Anfavea, encontra apoio de alguns sindicatos, mas até o momento não houve sinalização do governo, que precisaria executar mudança na legislação para adotar essa medida. “Funcionou muito bem na Alemanha na crise de 2008. No Brasil poderia preservar empregos”, avalia Botelho.

POTENCIAL FUTURO

Apesar do cenário atual adverso, Botelho garante que a Bosch mantém altas suas expectativas em relação ao futuro do Brasil e região, com meta de dobrar novamente o faturamento na América Latina até 2020. “O momento não é de desespero, mas de cautela”, afirma. “Não é possível o País andar assim com o potencial que tem. Deverá voltar a crescer com maior vigor”, avalia. Ele lembra que junto com a Argentina os dois países representam produção superior a 4,5 milhões de veículos/ano, número que pode chegar a 4,7 milhões em 2016.

O executivo ressalta que a redução de impostos sobre veículos no Brasil, hoje em torno de 30% do preço de venda, poderia criar um enorme mercado. “Mesmo com os preços altos atuais as pessoas compram e o mercado cresceu muito, imagine então se fosse mais barato”, diz. Ele fez uma comparação com a Europa, onde um carro compacto popular pode ser comprado com grande volume de tecnologias embarcadas por algo em torno de € 8,5 mil, enquanto no Brasil por esse valor o máximo que se consegue é um modelo despojado e ultrapassado, sem nenhum equipamento.

O foco agora, destaca Botelho, deve se concentrar em melhorar a competitividade do País no cenário internacional – e nisso o câmbio pode ajudar. “A desvalorização do real de início traz dificuldades, como aumento dos custos com componentes importados que não são feitos aqui, mas no médio prazo traz mais competitividade”, diz. Hoje a Bosch importa cerca de 40% do total de suas compras na região e tem balança comercial negativa. “O Brasil perdeu capacidade de exportar e agora está difícil retomar”, avalia – as vendas externas já representaram 50% do faturamento da Bosch no início dos anos 2000 e hoje respondem por 22%.

PRODUTIVIDADE

Apesar do cenário adverso recente, a Bosch tem conseguindo dar saltos em ganhos de produtividade nos últimos anos. Em 2013 o avanço foi de 8% e este ano espera-se mais 10%. “Conseguimos isso com investimentos em produtos, automação de processos e fornecedores”, explica Botelho.

Contudo, o executivo aponta que esses ganhos, apesar de expressivos, vêm sendo anulados por custos crescentes de insumos, câmbio desfavorável às importações e salários que sobem de 8% a 9% todos os anos, de 2% a 3% acima da inflação. “Esses aumentos salariais reais têm sido mortais para nossa competitividade”, opina.

Nesse sentido, Botelho defende a continuação do modelo de desoneração da folha salarial adotado em caráter temporário para o setor de autopeças até o fim deste ano, que em vez de tributar em cerca de 20% o total de salários pagos pela empresa, cobra 1% sobre o faturamento bruto. “É muito importante que isso continue. Nem digo que há tanta vantagem para a Bosch, mas com certeza há para minha cadeia de fornecedores como um todo e nosso desempenho também depende deles”, diz.



Tags: Bosch, resultado, balanço, América Latina.

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