Automotive Business
Siga-nos em:
AB Inteligência

Notícias

Ver todas as notícias

Indústria | 18/12/2013 | 13h35

Pneus verdes esperam aumento de demanda

Fábricas já produzem esses itens e estão aptas a acelerar suas linhas quando houver encomendas

MÁRIO CURCIO, AB

Os fabricantes instalados no Brasil já produzem e fornecem pneus verdes para as montadoras, ao mercado de reposição e também são capazes de atender futuros aumentos de demanda, uma vez que as exigências de redução de consumo e emissões decorrentes do Inovar-Auto forçarão o emprego de pneumáticos desse tipo.

Embora não haja um conjunto de normas que classifique pneus como verdes, essa palavra é utilizada para designar aqueles com menor resistência ao rolamento em decorrência do uso de sílica em substituição ao negro de fumo em sua composição. Como consequência, eles permitem a redução do consumo de combustível e, portanto, de emissão de gás carbônico, sem que isso prejudique a aderência e a segurança.

“Já fornecemos pneus verdes diretamente às montadoras para cerca de 15 modelos. Até o fim de 2014 será seguramente o dobro disso. Temos condições de suprir o aumento da demanda”, garante o diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pirelli, Roberto Falkenstein.

“Esses pneus custam cerca de 7% a mais, mas as montadoras estão se voltando para eles por causa da necessidade de redução de consumo. Já tínhamos a tecnologia, mas faltava a demanda”, ressalta o executivo. “A Pirelli fabrica pneus verdes no Brasil para aros de 13 até 18 polegadas. Também complementa a gama com a importação da Argentina e da Europa”, diz.

Falkenstein trata por verde todo o projeto do pneu: “Desde a banda de rodagem, do emprego da sílica, de polímeros especiais. Tudo é otimizado para reduzir a resistência ao rolamento. O perfil do pneu precisa reduzir flexões inúteis, que geram apenas calor”, recorda, referindo-se à lateral dos pneumáticos. Falkenstein recorda que em 2016 os pneus passarão a integrar o programa de etiquetagem do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). O futuro selo deve atribuir notas de A (melhor) a G (pior) para os quesitos “Resistência ao Rolamento” e “Frenagem no Molhado”. Também haverá informação relativa ao ruído de rodagem, expresso em decibéis.

“Os pneus que não conseguirem atingir os índices mínimos de eficácia e proteção não poderão mais ser comercializados. Em relação à resistência ao rolamento, os pneus verdes produzidos e vendidos hoje no Brasil seriam classificados como B ou C, pois a intenção do Inmetro era fixar a classificação A em um patamar que ainda deve ser alcançado pela indústria pneumática nacional”, diz Falkenstein.

Pirelli,
Roberto Falkenstein é diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pirelli. O executivo recorda que em 2016 todo pneu terá de receber um selo muito parecido com este, com classificações para resistência ao rolamento e frenagem no molhado, mais nível de ruído em decibéis (Fotos: Ruy Hizatugu e Mário Curcio).

“A maioria dos pneus comercializados atualmente no País se encaixa nas letras E e F. A expectativa, no entanto, é que esse perfil mude com a etiquetagem e que o mercado passe a ser regulado para cima, como aconteceu com a linha branca”, diz Falkenstein, citando como exemplo as geladeiras.

“Se elevarmos os pneus F para C ou B, haverá uma economia de combustível entre 4% e 5% (...) Na classificação A, a poupança energética chegaria a 6%”, afirma, ressaltando que pneus com a letra A ainda são bem raros na Europa, onde a etiquetagem tornou-se obrigatória.

PRONTOS PARA A CORRIDA VERDE

Outros fabricantes de pneus instalados no Brasil já entregam a tecnologia verde e/ou estão prontos para suprir essa demanda. Em suas considerações, eles falaram do preço mais alto desses pneus (até 20% a mais) e das mudanças necessárias, ora nos produtos, ora na fabricação. A Bridgestone já fabrica pneus verdes no País e anunciou na segunda-feira, 18, investimento de R$ 146 milhões para aumentar a capacidade produtiva de sua fábrica em Camaçari (BA) de 8 mil para mais de 10 mil unidades por dia no primeiro semestre de 2015. Em 2011 a companhia havia anunciado cerca de R$ 80 milhões de aporte à fábrica até o fim de 2014, mas decidiu injetar R$ 66 milhões a mais para modernização de equipamentos e contratação de mão de obra.

O gerente de desenvolvimento de produtos da empresa, Antônio Seta, comentou a necessidade por pneus verdes: “São duas frentes: as exigências das fabricantes de automóveis e as do Inmetro.” Seta diz que os verdes custam 10% a 15% a mais que os convencionais e que, se houver demanda, os fornecedores de matéria-prima locais poderão desenvolver-se. Além da sílica, Antônio Seta recorda que o uso de polímeros também é importante na produção de pneus verdes a fim de reduzir o peso da carcaça.

A Continental produz 22 mil pneumáticos por dia no País e 60% a 70% são verdes, de acordo com o diretor superintendente da divisão de pneus para a América do Sul, Renato Sarzano. “Há uma série de tecnologias a ser colocadas na fábrica para produzir pneus verdes e a Continental tem como vantagem ser nova”, afirma Sarzano, referindo-se à unidade de Camaçari, inaugurada oficialmente em abril de 2006. O executivo afirma que o nível de controle do processo produtivo de pneus verdes tem de ser mais preciso não só pelo emprego da sílica, mas dos polímeros também.

Embora inaugurada em outubro de 2013 em Fazenda Rio Grande (PR), a fábrica da Dunlop ainda não produz itens desse tipo, mas está pronta para a demanda por pneus mais eficientes. “Temos conversas avançadas com quatro fabricantes”, diz o gerente de vendas e marketing, Renato Baroli. Ele recorda que a matriz da companhia é muito preocupada com a eficiência dos pneus e que este é um requerimento para todas as medidas em fase de aprovação. Baroli estima que os verdes custem 20% a mais que os convencionais.

Outra fabricante instalada no Brasil, a Goodyear, expande sua fábrica em Americana (SP), onde investirá US$ 240 milhões nos próximos três anos para aumento da capacidade produtiva. A unidade, que fez 40 anos este mês, já produz pneus verdes para aros a partir de 13 polegadas.

“Fornecemos para Fiat, Ford, General Motors, Hyundai e Volkswagen”, afirma o gerente de vendas e marketing, Vinícius Sá. O Fox BlueMotion, que estreou o motor 1.0 de três cilindros da Volkswagen no Brasil, recebeu pneus verdes Goodyear. Segundo a montadora, em uso misto (cidade-estrada) o carro faz 9,3 km/l com etanol e 13,4 km/l utilizando gasolina.

O diretor comercial de pneus de passeio e caminhonete da Michelin, Marco Moretta, recorda que em 1993 a empresa já buscava pneus com baixa resistência ao rolamento e diz que a fábrica de Itatiaia (RJ) só produz pneus verdes. A unidade foi ampliada em 2012. “O maquinário foi pensado para os pneus verdes”, garante.

Michelin
Segundo o diretor comercial de pneus de passeio e caminhonete da Michelin, Marco Moretta, a fábrica de Itatiaia (RJ) só produz pneus verdes.

Para o aumento da produção de pneus verdes, a oferta de sílica também crescerá. A Evonik constrói em Americana (SP) uma fábrica de sílica precipitada, matéria-prima utilizada nos pneus verdes. Embora esteja na mesma cidade da Goodyear, a futura indústria pretende atender outros fabricantes. Antes que essa nova planta fique pronta, a Evonik continuará utilizando a produção de outras de suas fábricas para fornecer sílica a produtores de pneus instalados no Brasil.

TESTE PRÁTICO

Automotive Business conferiu de perto os benefícios dessa tecnologia no campo de provas da Pirelli, na cidade de Sumaré (SP). Na pista, um Ford New Fiesta 1.6 foi avaliado em três testes diferentes, que confrontaram pneus comuns Pirelli P7 com modelos verdes Cinturato P7. Em ambos, as medidas eram 195/55 R15. A pressão de enchimento utilizada foi de 31 libras nos dianteiros e 26 nos traseiros.

Condições como velocidade do vento, umidade relativa do ar e temperaturas ambiente e do asfalto foram monitoradas durante os testes. O equipamento utilizado para as medições das distâncias percorridas foi o V-Box.

Nas três avaliações, o desempenho dos pneus verdes foi superior. Uma diferença bem perceptível ocorreu no teste de resistência ao rolamento, em que o carro subia de marcha à ré em um par de rampas metálicas, para que as rodas traseiras atingissem altura de 50 centímetros, e então descia desengrenado, rodando no plano até parar.

O ensaio foi feito sete vezes com cada um dos jogos de pneus. O melhor e o pior resultados de ambos foram descartados. Com o pneu verde, o Fiesta percorreu em média 19,3 metros, vantagem de 21,38% sobre o modelo comum, que rodou 15,9 metros. Acompanhando cada uma das passagens de dentro do carro já era possível perceber a diferença favorável aos Cinturato P7.

Pirelli,
New Fiesta subia de ré rampas de 50 cm de altura e, em ponto morto, descia e rodava até parar. Com pneus comuns percorreu em média 3,4 metros a menos, como mostram os cones. Na foto central, o pneu à direita é o verde Cinturato P7. No campo de provas, técnico mede velocidade do vento (fotos: Ruy Hizatugu).

Para o teste de consumo, o New Fiesta dava uma primeira volta num percurso de 2 mil metros a fim de aquecer os pneus e abria a contagem, feita em três voltas no mesmo circuito com velocidade estabilizada em 40 km/h. Apenas a terceira marcha era utilizada na medição. Vale lembrar que o motor flexível do New Fiesta 1.6 produz 125 cv com gasolina, 130 cv com etanol e que o combustível utilizado no teste foi sempre o derivado de petróleo. O jogo de pneus comuns alcançou a marca de 18,8 km/l no computador de bordo do carro. A medição foi superada pelos verdes Cinturato P7, que chegaram a 19,2 km/l, marca 2,13% melhor.

Pirelli,
Andando em terceira marcha a 40 km/h constantes e abastecido com gasolina, o Ford fez 18,8 km/h com pneus convencionais e 19,2 km/l com os verdes. Pressão utilizada foi de 26 libras nos traseiros e 31 nos dianteiros. Engenheiros da Pirelli utilizam programa V-Box em seus testes (fotos: Ruy Hizatugu).

O terceiro teste acompanhado por Automotive Business mostrou outra vantagem do emprego da sílica, a melhora da aderência em pista molhada. Equipado com sistema ABS, o New Fiesta foi submetido a nove frenagens com cada um dos jogos de pneus. Assim como no teste de rolamento, a maior e a menor distâncias percorridas com cada jogo de pneus foram descartadas. Para todas as medições, o carro ganhava velocidade numa reta de 900 metros e era freado a 85 km/h, mas o equipamento V-Box só iniciava a medição a partir dos 80 km/h.

Um cone demarcava o ponto a partir do qual o freio deveria ser acionado. O piloto precisava ter muita atenção para não perder o ponto de freada, pois jatos d’água repentinos são fator de distração no campo de provas e chegam a impedir momentaneamente a visão do motorista. Com os pneus comuns, o carro percorreu em média 27 metros até parar totalmente, enquanto os Cinturato P7 imobilizaram o carro em 26,3 metros, uma vantagem de 70 centímetros.

Pirelli,
Nas freadas em piso molhado medidas de 80 km/h até zero, o New Fiesta percorreu 27 metros com os pneus comuns e 26,3 metros com os verdes, uma diferença de 70 cm, como se vê nos cones. Em nenhum dos casos ocorreu travamento porque o carro tem freios com ABS de série (fotos: Ruy Hizatugu).



Tags: Pirelli, Cinturato, P7, pneus verdes, Inovar Auto, sílica, gás carbônico, negro de fumo, Ford, V-Box, Roberto Falkenstein, Bridgestone, Michelin, Goodyear, Antônio Seta, Inmetro, Renato Sarzano, Continental, Dunlop, Renato Baroli, Michelin, Marco Morett.

Comentários

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

ABTV

AB Inteligência