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Indústria | 31/07/2012 | 16h38

Continental encara desafio de fazer autopeças eletrônicas

País já perdeu a fabricação de componentes e pode perder desenvolvimento de conjuntos

PEDRO KUTNEY, AB

Imagine a tarefa de processar 5 milhões de pequenos componentes eletrônicos todos os dias, para montar 30 mil placas eletrônicas, com 300 a até mil itens em cada uma. Acrescente a isso a necessidade de importar quase tudo para fazer a montagem no Brasil, em operações que entre a encomenda (normalmente para fornecedores asiáticos) e a entrega podem levar 12 semanas, ou três meses. Mais: considere que o resultado desse processo são autopeças eletrônicas com desenvolvimento local, sujeitas aos altos e baixos do setor automotivo nacional, que se somam aos já conhecidos problemas brasileiros de infraestrutura logística, sobe-e-desce do câmbio e impostos onerosos. Como um dos maiores fornecedores de módulos eletrônicos para veículos, esse é o tamanho do desafio que divisão de interiores da Continental encara em sua antiga fábrica da VDO em Guarulhos, na Grande São Paulo, que produz painéis de instrumentos há cinco décadas.

“O Brasil perdeu o passo de criar um parque de produção de componentes eletrônicos. Não alimento mais o sonho que essa indústria possa florescer aqui, pois o investimento é muito alto para a escala que temos. Mas ainda temos capacidade de desenvolver módulos e não podemos perder essa oportunidade também”, alerta Maurício Muramoto, presidente da Continental Brasil, que tem 10 fábricas no País de todas as cinco divisões do grupo alemão (pneus, peças de borracha, módulos eletrônicos para interiores, sistemas de powertrain e componentes de chassi e segurança).

A evolução dos produtos fabricados em Guarulhos é testemunha do avanço da eletrônica nos carros: os quadros de instrumentos mecânicos dos anos 60 hoje são totalmente eletrônicos. Eles integram os cerca de 40% do valor do conteúdo de um carro contemporâneo, em porcentual ascendente. Por isso a eletrônica veicular está diretamente vinculada ao desenvolvimento tecnológico do setor e levanta o dilema: como desenvolver conteúdo eletrônico em um país que não fabrica componentes e, sob a luz do novo Regime Automotivo, incentiva as compras de autopeças nacionais por meio de descontos em impostos, punindo assim as importações de peças.

DILEMAS E PROBLEMAS

“Como associados do Sindipeças defendemos o adensamento produtivo do setor automotivo nacional, mas temos de fazer o que é possível, começando pelo alto da cadeia”, comenta Muramoto. “Nesse sentido, o mais interessante é desenvolver a autopeça eletrônica aqui, e não apenas montar projetos que vêm do exterior”, completa. Para isso, o executivo elenca os dois principais problemas enfrentados atualmente pelos fornecedores desse segmento: logística deficiente e impostos em demasia sobre componentes eletrônicos e maquinário de produção.

“Nada disso é feito aqui. Então temos de aceitar esse fato e desonerar as importações necessárias”, avalia Muramoto. “No México, por exemplo, não é cobrado imposto sobre componentes eletrônicos importados, assim fica mais caro produzir módulos no Brasil e nós aqui perdemos competitividade.” Ele também argumenta que a burocracia brasileira torna difícil a desoneração tributária (ex-tarifário) para importação das linhas de produção automatizadas – imprescindíveis para a produção de circuitos eletrônicos com componentes minúsculos, impossíveis de serem manuseados. “É muito difícil conseguir o ex-tarifário, pois quando há qualquer parte do maquinário que pareça ter similar nacional a Receita indefere o processo”, explica.

Em Guarulhos, a Continental tem oito linhas automatizadas de montagem de circuitos impressos eletrônicos. O valor FOB (sem impostos) de cada uma gira em torno de € 2 milhões e atualmente elas trabalham a todo vapor, em três turnos, ao ritmo de 30 mil placas/dia. Nesse processo, praticamente tudo é importado, desde as placas dos circuitos até as máquinas. Nesse cenário, a única oportunidade de nacionalização é a da inteligência local, para desenvolver a arquitetura eletrônica e mecânica dos módulos, o design aparente e os programas (softwares) que fazem tudo funcionar. “Temos esse conhecimento aqui, mas podemos perder isso também se não resolvermos nossos problemas”, avisa Muramoto.

DESENVOLVIMENTO LOCAL

Continental-CPD
Centro de desenvolvimento de conjuntos eletrônicos da Continental em Guarulhos (SP)

A divisão de módulos para interiores da Continental mantém um time de desenvolvimento de engenharia no Brasil de 219 pessoas: 34 coordenadores de projetos, 115 engenheiros de desenvolvimento, 49 engenheiros de processo e 21 engenheiros de qualidade. Cada novo projeto consome cerca de 18 meses de trabalho.

Fornecendo para quase 100% dos fabricantes de veículos instalados no Brasil – e para os que estão chegando agora também –, a empresa desenvolve conjuntos eletrônicos veiculares (painéis de instrumentos, controles de ar, rádios, tacógrafos, módulos de conforto e rastreadores) para cada modelo de carro produzido no País, que são reprojetados a cada nova geração, mudando também a configuração das linhas de produção. “São milhares de componentes em comum que dão origem a centenas de produtos diferentes na aparência e nas funções”, destaca Muramoto.

Mesmo quando o projeto do veículo vem do exterior, caso de alguns carros globais produzidos no Brasil, os módulos precisam ser reprojetados aqui, com mudanças em estilo, iluminação e funções. “Já fizemos muito desenvolvimento para caber no bolso do consumidor brasileiro”, explica o executivo.

A Continental investe em torno de 8% de seu faturamento no Brasil (R$ 2,5 bilhões em 2011) em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. “Não fazemos pesquisa básica porque isso vem de fora. Dificilmente o País se tornará um exportador de tecnologia eletrônica. Temos de orientar nossa política industrial de acordo com nossas vocações, fomentando o desenvolvimento do que é possível fazer aqui. Se quisermos criar e produzir tudo aqui pode levar muito tempo e vamos nos atrasar de novo”, teme Muramoto. “Precisamos facilitar a vida aqui para gerar desenvolvimento.”

Assista abaixo a entrevista exclusiva de Maurício Muramoto a ABTV:



Tags: Continental, eletrônica, autopeças, Maurício Muramoto.

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