ANÁLISE

INOVAÇÃO

Dois anos depois, Inovar-Auto permanece em “panic mode”


Paralisadas, empresas demoraram a tomar medidas para atender o programa


Dois anos é muito tempo. Ou pouco. É uma questão de ponto de vista. Para o Western Sydney Wanderers, time de futebol criado em 2012 na Austrália, foi o suficiente para que nascesse, estruturasse uma equipe e treinasse com tanto foco e intensidade a ponto de levar a taça da Liga dos Campeões da Ásia, em novembro.

Há alguns dias, ao comentar a própria saúde, o Papa Francisco anunciou, vejam vocês, que terá mais dois anos de vida. Justo ele, que assumiu a liderança dos católicos em março de 2013 e menos de dois anos depois conseguiu tornar-se um dos Papas mais amados e populares da história.

Agora, voltemos nosso olhar para o mundo dos negócios. O que dois anos representaram para o Inovar-Auto e os produtores dessa cadeia? Foi pouco? Muito? Que mudanças concretas ocorreram no mundo automotivo? Que efeitos positivos ou negativos tiveram nesse período as políticas industriais e de incentivo do governo Dilma?

A resposta é que, mais uma vez, o setor deixou o problema para amanhã. Durante os primeiros 25 meses do programa não vimos ajustes concretos na indústria. Há exceções, mas, de forma geral, nem as montadoras veteranas, para as quais os números e metas do programa tinham mais sentido, fizeram a lição de casa para se adequar. Imagine, então, o panorama nas newcomers.

Apesar de virmos anunciando desde antes do lançamento do programa a urgência da tomada de ações, e alertando para as consequências que adviriam caso as montadoras não preparassem a casa, não fomos ouvidos. Os fornecedores, então. O que dizer deles? Olhavam para nós como se fôssemos extraterrestes. Dissemos a eles que o Inovar-Auto era uma oportunidade de se reposicionarem na arena competitiva e que deveriam correr e comporem-se rapidamente com seus clientes para absorver fatias de recursos da engenharia e do P&D.

No entanto, mais uma vez prevaleceu o “deixa pra lá”. Colocou-se foco nas dúvidas, no espírito do “será que vai pegar?”; aquela já conhecida e decepcionante inércia brasileira preponderou. Mais parece um efeito anestésico que, lamentavelmente, costuma instalar-se em muitos dirigentes quando importantes novas regras aparecem diante deles. Como se tivessem todo um sistema imunológico pronto a entrar em ação diante da perspectiva de mudanças.

De fato, o Inovar-Auto representa profunda alteração nas regras. Sempre que isso ocorre, vêm a reboque grandes oportunidades para os mais competentes e adaptáveis. Por outro lado, quem não se mexeu percebe agora, diante dos cronogramas de seus compromissos e do avanço do programa, que a situação se complicou. Temos sido chamados por companhias de todos os portes que, aflitas diante da realidade e dos números, acionaram um verdadeiro “panic mode” em relação ao programa.

As metas do Inovar-Auto são arrojadas. É verdade. As newcomers deveriam há tempos ter feito investimentos em inovação, eficiência energética e etapas produtivas. Várias das definições criadas pelo programa contemplavam os volumes e a realidade de quem já fabricava veículos no Brasil havia décadas, o que obrigava as recém-chegadas a um esforço ainda maior. Tirando as quatro ou cinco maiores montadoras, a realidade das demais é de produção de baixos volumes. Dezessete outros fabricantes estão diante do dilema de ter que nacionalizar pagando três vezes mais pelos componentes, e sem escala.

Felizmente, parte do governo, em especial as competentes equipes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), tem tido sensibilidade e abertura para ouvir o setor privado e desenvolver e implantar ajustes. Outros grupos insistem em teorizar sobre conceitos já consagrados em manuais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que tratam da inovação. Insistem em colocar em xeque a realidade da inovação que se faz aqui no Brasil, classificando-a como engenharia de rotina e defendendo o não enquadramento de boa parte do desenvolvimento experimental. Querem sufocar os incentivos. Corresponde a pisar no tubo de oxigênio de uma cadeia que sobrevive diante de um mercado em crise e assolada pela desindustrialização.

O Inovar-Auto funcionará agora (esperamos) tardiamente, em emergência, mas funcionará. As empresas despertam atrasadas e correm atrás de nacionalizar produtos e etapas produtivas. Avançam em soluções para ganhos efetivos de eficiência energética e, mesmo com a crise, abrem caminho para mais engenharia, mais ferramental e mais tecnologia aplicada. As áreas de tributos e de engenharia descobrem interesses comuns e passam a conversar e fazer estratégias juntas. As subsidiárias brasileiras das multinacionais estão se apoiando no programa, difícil de interpretar e entender, para convencer as matrizes a compartilhar mais engenharia e mais projetos. A nos deixarem desenvolver fornecedores aqui e comprar deles.

As empresas do tier 1 estão pensando em como se tornar tier 0,5 e, para isso, abrem as portas de seus laboratórios para as montadoras. Surgem também as primeiras propostas para atuar lado a lado com as fabricantes de veículos de forma a concretizar projetos e investimentos conjuntos. As importadoras começam a descobrir que há saídas bem mais econômicas, inteligentes e geradoras de resultados do que simplesmente depositar recursos no Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), como se fosse um imposto a mais. Pare e pense: o quanto estaria sendo feito hoje, em plena crise, se não existisse o Inovar-Auto? O “panic mode” é real, mas ao menos está fazendo com que tudo isso comece a acontecer.

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