ANÁLISE

INOVAÇÃO

Briga de turma, agora!


Buscar soluções em grupo pode ser mais eficiente


Quem na adolescência não passou por um momento no qual tenha se sentido inferiorizado ou agredido? Quem nunca pensou em juntar os amigos e partir para a briga? Todo mundo sabe bem o que é isso. Pois foi justamente essa expressão – “briga de turma” – a escolhida, com sensibilidade, por Roberto Yokomizo e Ambra Nobre durante o Programa de Gestão de Inovação para Empresas de Roupas Profissionais. Roberto foi escolhido para ser o líder do grupo de trabalho e Ambra dirigiu o projeto, desenvolvido pela Associação Nacional da Indústria Têxtil (ABIT) com o objetivo de fortalecer a inovação em empresas desse setor. Os recursos vieram da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Durante 20 meses, 18 empresas associadas da ABIT trabalharam em grupo para se tornarem mais competitivas e inovadoras. E conseguiram! “Elas alcançaram um grau de maturidade que é único”, afirmou Rafael Cervone, presidente da associação. Segundo Caetano Ulharuzo, da ABDI, “o segmento de roupas profissionais está em um momento de agregação de tecnologia e pode gerar uma alavancagem nacional e internacional de mercado”. O mesmo Ulharuzo afirma ser possível repetir esse tipo de trabalho em outras cadeias produtivas, empresas, fornecedores e clientes visando aumentar o grau de inovação nas indústrias-chave do Brasil.

Apresento esse caso aqui porque o considero um claro exemplo de como é possível deixar de lado temporariamente o individual e trabalhar em “cluster” - desde que haja desejo e disposição por parte dos dirigentes. Vale destacar que esse projeto aconteceu em um setor (indústria têxtil e de confecções) que vive as mesmas ameaças do setor de autopeças. São territórios nos quais as importações e a força industrial da China têm deixado um verdadeiro rastro de sangue.

As importações e a baixa produtividade e competitividade brasileiras têm levado inteiros setores à míngua e, com eles, milhares de empregos e possibilidades de geração de renda. O governo federal, por intermédio da ABDI, sabiamente destina recursos para projetos de fortalecimento desses setores. No caso do têxtil e de confecções, um conjunto de empresas selecionadas pela associação e dispostas a participar se uniu para encontrar no campo da inovação as adequações das quais precisam, e o mais rápido possível. O projeto permitiu a elas adquirir o conhecimento necessário para competir. As 18 empresas capacitadas concretizaram planos que definiam como a inovação passaria a fluir internamente. Os representantes delas passaram a operar em sinergia. Trocaram dicas, experiências, emprestaram recursos uns aos outros e se tornaram um grupo. Ao final, criaram um Comitê de Inovação do setor que seguirá com os trabalhos.

O projeto prova que é possível, e extremamente válido, atuar em grupos de empresas quando a crise bate, de verdade, à porta. Pena que tenha de chegar a esse extremo...

Lembremo-nos de que as entidades associativas foram concebidas justamente para conferir força às associadas. No entanto, raramente conseguem-se resultados significativos. Nas reuniões, a choradeira corre solta, há um monte de blefes e nada, de fato, se concretiza. É como se os participantes, em dias de reunião nas associações, acordassem de manhã e vestissem uma máscara com um sorriso falso. Tudo bem, tudo muito bonito, mas, por trás, vigora um espírito de “como é que eu vou levar vantagem sobre os demais”.

“Briga de turma” é bem diferente. É se unir contra o inimigo. Conhecer as reais vulnerabilidades de cada um dos participantes do grupo e compor-se para eliminá-las. É somar as poucas forças que restam para defender a ação do conjunto.

O sucesso do projeto envolvendo o setor têxtil deveria ser inspirador para o setor de autopeças. Em especial para as empresas de médio e pequeno porte, que, quando imaginam que chegaram ao fundo do poço da crise, descobrem que tudo pode piorar. São elas que estão cara a cara com o fantasma da desindustrialização.

A mesma estratégia de agrupamentos para reativar a competitividade aparece ao revisitarmos o que salvou a indústria de crises em outros momentos históricos e países. São múltiplos os casos de estruturação de “clusters” e arranjos produtivos, como os que ocorreram na Itália do final da década de 1970.

Espera-se que o caso de sucesso descrito seja inspirador também para o governo, e que ele destine mais recursos desse tipo para um maior número de setores em crise. E mais: que os recursos encontrem dirigentes que acreditem nisso e se disponham a aprender para crescer.

Antes que seja tarde demais.

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