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Opinião | Ricardo Bacellar |

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Ricardo Bacellar

08/08/2014

Luz amarela: empresas da cadeia automotiva em alerta

Cenário de retração pode elevar o número de falências no setor

A economia global começou a se recuperar e algumas características da realidade econômica e social brasileira, como elevadas taxas de juros e baixos níveis de investimento, tiraram do País não só um importante espaço no mercado, mas também a atratividade para investidores. Ao contrário do panorama de crescimento econômico favorável de cinco anos atrás, o momento agora no Brasil é de incertezas e atenção por parte dos gestores. Um dado alarmante que confirma este atual cenário é o alto número de falências e de companhias em processo de recuperação judicial no País. Em 2008, eram 312 e o número mais que dobrou no ano seguinte (670). Já no ano passado, foram 874 pedidos, um recorde maior que o registrado em 2009, momento pós-crise mundial.

Dados de uma pesquisa realizada pela KPMG no Brasil com executivos de instituições financeiras, investidores e empresários mostram que essa onda de incerteza já chegou à indústria. Cerca de 25% dos entrevistados apontaram que o segmento formado pelas montadoras de veículos e autopeças deve ser o mais afetado em um cenário econômico instável. Este foi o segundo setor mais citado, ficando atrás apenas de imobiliário e construção civil.

E os números do setor ratificam que 2014 não têm sido bom para a indústria automotiva. Julho teve sua pior produção para o mês em oito anos, segundo dados divulgados pela Anfavea. Ao compararmos com o mesmo período do ano passado, o mês registrou queda de 20,5% na produção (252,6 mil x 317,9 mil unidades). No acumulado dos primeiros sete meses de 2014, o setor apresenta queda de 17,4%, com 1,82 milhão de unidades, ante o mesmo período do ano passado, que atingiu 2,2 milhões de veículos.

Outro dado que precisamos destacar é que acabamos de passar pelo pior primeiro semestre da indústria desde 2010. Foram vendidas de janeiro a junho, 1.583.066 unidades, contra 1.707.633 no mesmo período do ano passado, o que indica uma queda de 7,3%. Apesar da expectativa de melhora, principalmente devido à manutenção da redução do IPI, ainda há forte restrição ao crédito, o que interfere diretamente nas vendas das montadoras.

Não podemos deixar de citar os altos impostos que incidem sobre a venda de automóveis. Estudo sobre a carga tributária do veículo brasileiro com base na participação dos impostos no preço final ao consumidor, também divulgado pela Anfavea, aponta que 28,1% do valor de um automóvel flex com motorização entre 1000cc e 2000cc são de impostos. Esse dado se torna mais impactante se compararmos com outros países como Estados Unidos (7%) ou Japão (9,9%). Outros levantamentos indicam também o percentual da carga tributária adicionado ao preço do veículo sem impostos e, nesse caso, no Brasil é de 54,2%.

Diante deste contexto não tão promissor, a cadeia automotiva no Brasil já apresenta sinais de alerta e as empresas do setor se mobilizam para evitar que uma crise se instale de maneira acentuada. Neste caso, vale a pena ficar atento a qualquer indício de que a empresa pode não estar passando por uma situação confortável, como alto nível de endividamento, redução de rentabilidade, pressão no capital de giro e baixa geração de caixa nos próximos meses.

Também é valida a criação de uma força tarefa formada por empreendedores, bancos, investidores, dentre outros, agindo de maneira integrada, atuando em conjunto e adaptando suas práticas para, dessa forma, utilizar suas competências com o objetivo de evitar crises e manter o valor das empresas. Vale lembrar que quanto mais cedo for feito o diagnóstico de problemas e tomadas as providências necessárias, mais chances as companhias têm de se manter saudável.

Comentários

  • Jorge

    Simples. Baixem os preços dos veículos, os impostos e custos agregados, coloquem financiamento com custo justo, liberem a livre concorrência entre concessionárias, respeitem os preceitos do livre mercado, dentre outros. No Brasil, fazem tudo ao contrário, com os Governos impondo impostos escorchantes e as fabricantes (montadoras) colocando lucros exorbitantes. "Quem não tem competência, não se estabelece", assim sendo haverá muita quebradeira de empresas.

  • marco

    Concordo do o Jorge, ainda que não ache tão simples assim. De fato o preço do veículo no Brasil é alto, e até já foi tema de comissão no senado o fato de pagarmos muito mais que outros países, inclusive vizinhos próximos, como a Argentina. Um veículo mais barato seria possível de ser adquirido por uma fatia maior da população, mas o que geraria problemas de infra estrutura, outra "naba"...kkk A carga tributária é pesada já no insumo da fábrica, a as produtividade de nossa mão de obra não é boa. muitos problemas para pensar ...

  • Joao

    Jorge, corretissimo. Apesar de se falarem tanto em impostos, nunca se vendeu tanto carros. Cm queda nas vendas e eles não reduzem os preços, apesar de comprovadamente o Brasil ter a maior margem. O problema maior é a restrição ao crédito, que creio propositadamente pelo Banco Itaú, o qual arrochou o crédito...

  • Fausto

    Neste país o governo está para ser servido e não para servir. Esta é a causa raiz, o resto é efeito.

  • antonio bevilacqua

    É tudo muito simples: A demanda atual não é compatível com a oferta de veículos, o que gera o ajuste que está ocorrendo. Metaforicamente falando a saída estará na exploração do "volume morto" tal qual se dá com a água do Sistema Cantareira. Quem se candidata a dar crédito a quem não tem a menor condição de toma-lo? Só se for louco ou irresponsável, que não são características típicas do sistema financeiro. Abraços,

  • Jean

    O que precisa ser feito, é não comprar. Comprar com estes preços e taxas de juro, sabendo dos preços praticados em outros paises, é atestar concordancia com a situação. Minha opinião é : parem de comprar e vejam o que ocorre... Continuamos sendo colonia de exploração, e os lucros exorbitantes continuam sendo enviados para o exterior.

  • Fernando

    Quanto a cadeia produtiva, chamo a atenção para causas que contribuem fortemente para a derrocada financeira: -Custo Brasil (mencionado anteriormente); -Baixa produtividade, se nos compararmos com Europa, EUA,China, Turquia...; -Altíssimo custo da mão-de-obra (Será que os sindicatos não percebem que forçar os dissídios em prol da recuperação das perdas salariais devido a inflação é um tiro no pé? Vejam a Europa ! não há mais o que reclamar porque não há trabalho!!); -Devido ao excesso de competidores e de haver um "over capacity ", as montadoras "INSANAMENTE" , em busca do seu lucro, estão MATANDO seus fornecedores.

  • Djalma

    Radicalismos não leva a nada, o Brasil longe do que se fala não é unido, é preconceituos, é racista, é homofóbico, e é individualista. Não sei se as próximas gerações devem fazer algo melhor. Vivemos ainda num pais da época do império, onde agora quem reina são os politicos que assaltam a Petrobras, e cofres públicos, com clientelismos e corporativismo . Acorda Brasil, vivemos uma crise moral. Como dizia Rui Barbosa "Haverá um dia em que o homem terá vergonha de ser honesto" Esse dia chegou.

  • Noracir

    Acrescentem à opinião do Jorge, a forte política do ganha-ganha da maioria das montadoras, que abusam do poder de compra impondo preços cada vez menores aos fornecedores. Tudo isso visando a incessante volúpia pelos lucros a qualquer custo.

  • Augusto Fazio

    Existe alta capacidade produtiva de carros instalada no Brasil. Para manter alto nível de produção terão de ser alterados alguns fatores. As montadoras reduzirem sua margens (que no Brasil é uma das mais altas do mundo) e o governo fazer sua parte, reduzindo impostos (no Brasil está entre os mais altos do mundo), e redução nos juros. Tudo é exagerado neste país, daí os preços tão discrepantes do resto do mundo. Caso contrário não tenho dúvidas de que se instalará uma crise grande na cadeia automotiva.

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