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Opinião | Stephan Keese |

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Stephan Keese

Indústria automotiva trilha caminho difícil no Brasil

Interrupção do crescimento desafia fabricantes

Uma vez mais, a indústria automotiva brasileira vive a sensação de estar em uma montanha-russa. Depois de muitos anos de crescimento, durante os quais montadoras e fornecedores realizaram lucros recorde, a perspectiva parece sombria.

A demanda nacional por carros não registra crescimento real desde a redução do IPI, em 2012. Infelizmente, o que se espera até o final deste ano (e mesmo em 2015) não é muito melhor. Muitos especialistas projetam a continuidade da estagnação e até mesmo um ligeiro declínio. Por ora, o mercado parece ter alcançado um platô (de proporções consideráveis) e, no momento, não há espaço para continuar a crescer.

Para o setor automotivo este cenário de estagnação/leve retração se provará extremamente desafiador. A indústria está em fase de expansão, com capacidade para acrescentar ao mercado 1,2 milhão de unidades já nos próximos dois anos. As fabricantes e fornecedores passam a ter capacidade e estrutura para produzir de 4,5 a 5 milhões de veículos, contra o atual volume de 3,4 milhões. Além disso, novas marcas estão trazendo sua produção para o Brasil graças ao Inovar-Auto – e isto quer dizer que a fatia do bolo será menor para cada montadora. Ninguém está preparado para um cenário em que a expansão projetada não se materialize.

Ao longo de quase dez anos, a indústria cresceu acostumada a este cenário em que os custos com mão de obra crescem quase 8% ao ano e têm sido largamente absorvidos pelo efeito escala do crescimento. Como o crescimento se deu em 2012 os aumentos impactaram diretamente as contas. Acrescente a isso o impacto da desvalorização dramática do real no cambio de componentes importados. A indústria agora encara uma forte pressão para sustentar sua lucratividade.

O fato é que muitos dos fabricantes e fornecedores no Brasil já não são lucrativos e muitos já amargam perdas. OEMs estão tentando encontrar alívio no aumento de preços ao consumidor, mas isto impactará ainda mais negativamente a demanda de mercado. No fim a única solução para eles será uma reestruturação muito forte, com foco na eficiência interna e o ajustamento da capacidade à nova demanda. E isto significa a demissão de funcionários – um panorama indesejado por indústria e governo, especialmente nesse momento.

Além disso, faz-se necessário ampliar a exportação para compensar a fraca demanda nacional. A iniciativa de exportar precisa ser suportada pelo aumento da competitividade da indústria nacional. O trabalho precisa ser flexibilizado com a desaceleração do aumento dos custos trabalhistas, redução de burocracia e impostos, desenvolvimento da infraestrutura, estímulo à educação e à inovação e por aí adiante. Montadoras, fornecedores e governo devem sentar juntos e desenvolver o melhor caminho para apoiar a capacidade de exportar do Brasil. Caso contrário, a estrada adiante será muito difícil para todos.

Comentários

  • Alexandre Becker

    Caro Stephan, com o preço cobrado no Brasil por um carro é admirável ver uma coluna pregando crise. O lucro aqui é demais, muito maior que qualquer outro lugar. Por outro lado a carga tributária também é elevadíssima. Portanto concordo em parte com o seu ponto de vista, concordo que as montadoras devem sentar com o governo para discutir uma melhora e não só uma medida paliativa como uma redução de IPI.

  • Fabio Shimizu

    Stephan, parabéns pelo artigo. Realmente, o caminho será difícil a curto prazo. Esperamos que o governo crie mecanismos estratégicos que viabilizem uma retomada do crescimento da atividade econômica como um todo, e que a indústria automotiva possa voltar a crescer como consequência de um projeto geral para o país. Não adianta termos programas específicos como o Inovar-Auto se o país não"andar bem". Em ano de eleições, que a população tenha mais consciência e vote não em nomes ou partidos, mas em projetos viáveis que possam colocar, enfim, depois de 5 séculos, o Brasil no trilho dos países desenvolvidos de fato. Obrigado.

  • VANDERLEI NICOLA

    Stephan , muito bom seu artigo , se fosse uma receita culinária com certeza teríamos uma comida de dar agua na boca , más meu caro onde esta o nó deste segmento que hora atrai bilhões de dólares em investimentos , e passado um período sem uma explicação logica derruba a produção , antes do plano Real era as justificativas de que ñ acompanhávamos as evoluções tecnológicas , e agora temos CEOs de alto nível , inclusive com grande repercussão mundial , ou os métodos de hoje são a teoria da pirâmide ,quem começa ganha e o resto segura -se no pincel .Em BH , estão programando uma passeata de empresários , fala se em 1.500 que vão participar ,porque ñ adianta solicitar via governo oque vc citou no seu artigo .E concordo cv em tudo e a Exportação é um ótimo caminho , abraços

  • Roque Testai

    Especialmente este ano, onde o brasileiro com salarios achatados pela inflacao latente e pela situacao das empresas que impede uma politica salarial ampla, as vendas de veiculos de passageiros devem diminuir consideravelmente. Ano de copa do mundo, logo apos o Carnaval, deixa pouca folga no orcamento dos cidadaos e familias com orcamento ja comprometido pelos pesadas parcelas dos cartoes de credito e dividas. Poucos terao condicoes de trocar ou comprar veiculo em 2014. Para piorar, neste ano eleitoral, o governo refreia e manobra a inflacao, aumentando juros para conte-la, o que tambem dificulta o credito. Sem contar que a ausencia de planejamento da infraestrutura viaria no pais per si, ja mostra sinais de saturacao e nao mais comporta os cerca de 15 mil novos veiculos por dia em sua parca malha rodoviaria de 1,6 milhao de quilometros, que cresce apenas 7000 km em 10 anos. Pena!

  • Edgard

    Montadoras de todos os cantos do mundo se instalam no Brasil, como se o país fosse um "saco sem fundo" de compradores de automóveis; As montadoras aqui instaladas aumentam suas produções ano após ano; Quando as vendas atingem seus limites os empresários querem "jogar a batata quente" no colo do governo, como se este fosse o único ou corresponsável por esta situação. O que está faltando é planejamento real e visão estratégica no médio e longo prazo por todas as montadoras, sem exceção ! Os Srs. CEO's que me desculpem, mas querer culpar o governo brasileiro por decisões não acertadas não é o caminho certo ! A procura por altos índices de lucratividade para os acionistas é parte primordial de suas tarefas, porem é chegada a hora de repensar sobre os próximos passos, rediscutir os objetivos e principalmente entender que apesar de grande, somente uma (e pequena) parcela da população brasileira tem poder aquisitivo para compra sistemática de bens duráveis, em especial automóveis.

  • Rodrigo Cesar

    Governo e montadoras vão esperar vários pais de família serem demitidos e o setor se endividar para tomar decisões que já poderiam ser tomadas agora, como sempre no Brasil tem que acontecer para crer, tem que morrer para se mexer tem que se chegar ao extremo para ver o tamanho de tal destruição vamos lá pessoal vamos se mexer e logo, todo mundo comenta mas até agora não vi nenhuma movimentação com a intenção de melhoria do setor! só se fala em copa do mundo, eleição e bla bla! acorda turminha não precisa ser nenhum expert para entender o que fazer! vamos reduzir um pouquinho dos lucros e um pouquinho dos impostos a verdade que ninguém quer dar o primeiro tiro, o governo não abrir mão de seu lucro e montadoras também não ai fica esta situação até chegar ao extremo que involuntariamente mexa em seus bolsos!

  • João Silvano Pacheco

    Prezado Stephan, Sua análise é bem crítica do momento atual, onde o aumento da produção e das vendas nos últimos anos propiciou maior competitividade em nosso mercado. Se somássemos as intenções de fatia de mercado de todas as montadoras, certamente chegaríamos a 200%. No entanto, discordo de você quanto às perspectivas futuras de nossa indústria e de nosso mercado. Creio que ainda temos um mercado em expansão, ainda há espaço para crescer para atingirmos o grau de maturidade de países europeus e dos Estados Unidos, onde a demanda atende unicamente a reposição e não ao crescimento. Só lamento que ainda tenhamos uma deficiência tão grande em infra estrutura e planejamento, que nos leva a situações emergenciais de contingência, como tem sido os casos de subsídios através de reduções de impostos e/ou juros em linhas específicas de financiamento. Enquanto a Anfavea e a Febraban decidirem os rumos de nossa indústria automotiva, dificilmente melhoraremos.

  • Carlos

    Caro Stephan, saudações. O que dizer de uma fabrica que produz um carro no Brasil e aqui cobra R$ 80 mil por ele. Exporta para a Argentina, e lá cobra o equivalente a R$ 60 mil. Não citarei casos. Há vários. Tom,o a ousadia de sugerir o artigo do seu colega Joel Leite. http://www.autoinforme.com.br/exibeNoticia/Lucro-Brasil/n/1488#.U3a_KtJdVWY Sucesso.

  • Anderson

    Os impostos são muito altos no Brasil. Todo mundo sabe. O governo só ajuda o setor porque recebe mais impostos. É uma mina de ouro para o governo. Se fosse um pais civilizado, o governo reduziria os impostos (já que não dá retorno para a população), para que as margens de lucro ficassem realmente na cadeia produtiva (materias primas, fornecedores, montadoras, distribuidoras) e todos possam ser competitivos. Pedir que sejam competitivos, retirando a competitividade através de impostos absurdos é que é absurdo.

  • Marcos Rolim

    Caro Stephan Keese, todo mundo vai em defesa da montadoras, mas este país é o paraíso delas! Não vejo ninguém dizendo que as montadoras tem que baixar o lucro, mas que o governo tem que diminuir os impostos, e os trabalhadores tem que perder os direitos adquiridos durastes anos de lutas, com a tal flexibilização! Claro, conforme já cantou Paulo Ricardo, num Show do grupo RPM, que paga a conta do jornal?! Neste caso, é claro que são as montadoras. É vergonhoso quantos defendem o indefensável, tudo por uns tostões no bolso. Numa entrevista do CEO da FIAT, ele disse que o lucro esta baixo e tem que subir para dois dígitos, e ele espera que ocorra com a inauguração da fábrica da JEEP em Pernambuco. Claro que muitos brasileiros vão comprar carros da JEEP, desde que a "prestação" caiba no bolso! E você, e outros, como o Fernando Calmon, estarão para defender os interesses do Patrão (as montadoras).

  • Osmar R. Hidalgo

    Artigo inquietante, Stephen, mas correto. Se tomarmos os objetivos de venda dos diretores comerciais das montadoras instaladas no Brasil, teremos uma soma de mais de 5,5 milhões de veículos em 2015. Isso dá quase 1,5 carro por comprador potencial. Alguém terá que ficar pelo caminho.

  • Fabricio

    Parabéns Stephan! Matéria objetiva e sem meias palavras. Infelizmente tenho que reconhecer como fornecedor deste segmento tão vital para a nossa economia que o cenário futuro é de pessimismo. Independentemente da tendência obscura, como todo bom brasileiro, temos que ter fé e caminharmos pensando positivo de que algo deve ser feito. Fabricio.

  • Vera

    Fui vendedora por muito tempo e vi esse mercado crescer e decrescer, e , como no Brasil a primeira coisa que fazem é demitir na crise. Somos sacrificados no meio de um trabalho árduo e pedregoso, quando deveriam esperar por melhores resultados .

  • Klaus Steinhauser

    Montadoras deixam escapar bilhoes de reais em custos de garantia, outros bilhoes sao perdidos pelos sistemistas e auto peças em custos de nao qualidade ( refugos , retrabalhos, devoluçoes tecnicas, fretes extras, embarques controlados, etc ). Uma chuva de incompetencia O que mostra sao os indicadores das Industrias com dificuldades financeiras , em recuperaçao judicial . Sao nada menos que 76 em cada 100 empresas. Depois disso colocam culpa no governo. CEO´s e toda a cupula dos chamados conselhos diretivos tem que sujar a mao de graxa no chao de fabrica e ver o que acontece a cada minuto com sua Gestao, ou mais precisamente com a falta absoluta de Gestao , de controle, de governança, compliance e de foco em Qualidade e produtividade. Falta de planejamento estrategico , de desdobramento de metas , de planos de açoes robustos e principalmente de pessoas e empresas serias que saibam o que relamente significa Auditar processos. Titulo de CEO ta cheio por ai. Acorda Brasil !!!!!

  • geraldo

    Falar em crise no mercado brasileiro é uma piada para otário acreditar. O lucro que se tem na venda de um carro aqui pode-se dizer que é no minimo uma cinco vezes maior do que qualquer outro lugar do mundo. Por mim sinceramente que parasse de fabricar carros no Brasil que iriamos importar mustang 2015 a 25 mil doláres...

  • Buenos

    Com uma postura de mercado predatória e inconsequente, que visa apenas ao lucro abusivo, sugando o trabalhador e o consumidor, além de usurparem o trouxa do brasileiro que tem a ilusão de amar carro(ças), que tolera todos abusos e aceita e consume todo o tipo de lixo que é colocado à venda no mercado, esperavam o quê????? Que fosse o mar de rosas dos lucros de eterno??!! Um dia satura! Um dia o brasileiro deixa de ser menos idiota e pára de pagar caro por lata e plástico! Tem que falir mesmo. Vendas zeros para essas carroças que chamam de carro e vendem a preços de veículos de luxo. Sinto pelos trabalhadores, mas que essas empresas automotivas sintam na pele o declínio de uma postura indecente, imoral e exploratória.

  • sammy jorge

    Essas montadoras são umas engraçadinhas isso sim. Com o preço praticado aqui tem mais é que cair mesmo as vendas. triste pelos metalúrgicos e profissionais da área mais essa safadeza que é a industria auto no Brasil tem que acabar uma hora.

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