ANÁLISE

COMPETITIVIDADE

Indústria automotiva trilha caminho difícil no Brasil


Interrupção do crescimento desafia fabricantes


Uma vez mais, a indústria automotiva brasileira vive a sensação de estar em uma montanha-russa. Depois de muitos anos de crescimento, durante os quais montadoras e fornecedores realizaram lucros recorde, a perspectiva parece sombria.

A demanda nacional por carros não registra crescimento real desde a redução do IPI, em 2012. Infelizmente, o que se espera até o final deste ano (e mesmo em 2015) não é muito melhor. Muitos especialistas projetam a continuidade da estagnação e até mesmo um ligeiro declínio. Por ora, o mercado parece ter alcançado um platô (de proporções consideráveis) e, no momento, não há espaço para continuar a crescer.

Para o setor automotivo este cenário de estagnação/leve retração se provará extremamente desafiador. A indústria está em fase de expansão, com capacidade para acrescentar ao mercado 1,2 milhão de unidades já nos próximos dois anos. As fabricantes e fornecedores passam a ter capacidade e estrutura para produzir de 4,5 a 5 milhões de veículos, contra o atual volume de 3,4 milhões. Além disso, novas marcas estão trazendo sua produção para o Brasil graças ao Inovar-Auto – e isto quer dizer que a fatia do bolo será menor para cada montadora. Ninguém está preparado para um cenário em que a expansão projetada não se materialize.

Ao longo de quase dez anos, a indústria cresceu acostumada a este cenário em que os custos com mão de obra crescem quase 8% ao ano e têm sido largamente absorvidos pelo efeito escala do crescimento. Como o crescimento se deu em 2012 os aumentos impactaram diretamente as contas. Acrescente a isso o impacto da desvalorização dramática do real no cambio de componentes importados. A indústria agora encara uma forte pressão para sustentar sua lucratividade.

O fato é que muitos dos fabricantes e fornecedores no Brasil já não são lucrativos e muitos já amargam perdas. OEMs estão tentando encontrar alívio no aumento de preços ao consumidor, mas isto impactará ainda mais negativamente a demanda de mercado. No fim a única solução para eles será uma reestruturação muito forte, com foco na eficiência interna e o ajustamento da capacidade à nova demanda. E isto significa a demissão de funcionários – um panorama indesejado por indústria e governo, especialmente nesse momento.

Além disso, faz-se necessário ampliar a exportação para compensar a fraca demanda nacional. A iniciativa de exportar precisa ser suportada pelo aumento da competitividade da indústria nacional. O trabalho precisa ser flexibilizado com a desaceleração do aumento dos custos trabalhistas, redução de burocracia e impostos, desenvolvimento da infraestrutura, estímulo à educação e à inovação e por aí adiante. Montadoras, fornecedores e governo devem sentar juntos e desenvolver o melhor caminho para apoiar a capacidade de exportar do Brasil. Caso contrário, a estrada adiante será muito difícil para todos.

Comentários: 17
 

Alexandre Becker
11/04/2014 | 08h38
Caro Stephan, com o preço cobrado no Brasil por um carro é admirável ver uma coluna pregando crise. O lucro aqui é demais, muito maior que qualquer outro lugar. Por outro lado a carga tributária também é elevadíssima. Portanto concordo em parte com o seu ponto de vista, concordo que as montadoras devem sentar com o governo para discutir uma melhora e não só uma medida paliativa como uma redução de IPI.

Fabio Shimizu
11/04/2014 | 09h30
Stephan, parabéns pelo artigo. Realmente, o caminho será difícil a curto prazo. Esperamos que o governo crie mecanismos estratégicos que viabilizem uma retomada do crescimento da atividade econômica como um todo, e que a indústria automotiva possa voltar a crescer como consequência de um projeto geral para o país. Não adianta termos programas específicos como o Inovar-Auto se o país não"andar bem". Em ano de eleições, que a população tenha mais consciência e vote não em nomes ou partidos, mas em projetos viáveis que possam colocar, enfim, depois de 5 séculos, o Brasil no trilho dos países desenvolvidos de fato. Obrigado.

VANDERLEI NICOLA
11/04/2014 | 12h41
Stephan , muito bom seu artigo , se fosse uma receita culinária com certeza teríamos uma comida de dar agua na boca , más meu caro onde esta o nó deste segmento que hora atrai bilhões de dólares em investimentos , e passado um período sem uma explicação logica derruba a produção , antes do plano Real era as justificativas de que ñ acompanhávamos as evoluções tecnológicas , e agora temos CEOs de alto nível , inclusive com grande repercussão mundial , ou os métodos de hoje são a teoria da pirâmide ,quem começa ganha e o resto segura -se no pincel .Em BH , estão programando uma passeata de empresários , fala se em 1.500 que vão participar ,porque ñ adianta solicitar via governo oque vc citou no seu artigo .E concordo cv em tudo e a Exportação é um ótimo caminho , abraços

Roque Testai
14/04/2014 | 07h57
Especialmente este ano, onde o brasileiro com salarios achatados pela inflacao latente e pela situacao das empresas que impede uma politica salarial ampla, as vendas de veiculos de passageiros devem diminuir consideravelmente. Ano de copa do mundo, logo apos o Carnaval, deixa pouca folga no orcamento dos cidadaos e familias com orcamento ja comprometido pelos pesadas parcelas dos cartoes de credito e dividas. Poucos terao condicoes de trocar ou comprar veiculo em 2014. Para piorar, neste ano eleitoral, o governo refreia e manobra a inflacao, aumentando juros para conte-la, o que tambem dificulta o credito. Sem contar que a ausencia de planejamento da infraestrutura viaria no pais per si, ja mostra sinais de saturacao e nao mais comporta os cerca de 15 mil novos veiculos por dia em sua parca malha rodoviaria de 1,6 milhao de quilometros, que cresce apenas 7000 km em 10 anos. Pena!

Edgard
17/04/2014 | 21h16
Montadoras de todos os cantos do mundo se instalam no Brasil, como se o país fosse um "saco sem fundo" de compradores de automóveis; As montadoras aqui instaladas aumentam suas produções ano após ano; Quando as vendas atingem seus limites os empresários querem "jogar a batata quente" no colo do governo, como se este fosse o único ou corresponsável por esta situação. O que está faltando é planejamento real e visão estratégica no médio e longo prazo por todas as montadoras, sem exceção ! Os Srs. CEO's que me desculpem, mas querer culpar o governo brasileiro por decisões não acertadas não é o caminho certo ! A procura por altos índices de lucratividade para os acionistas é parte primordial de suas tarefas, porem é chegada a hora de repensar sobre os próximos passos, rediscutir os objetivos e principalmente entender que apesar de grande, somente uma (e pequena) parcela da população brasileira tem poder aquisitivo para compra sistemática de bens duráveis, em especial automóveis.

Rodrigo Cesar
23/04/2014 | 08h47
Governo e montadoras vão esperar vários pais de família serem demitidos e o setor se endividar para tomar decisões que já poderiam ser tomadas agora, como sempre no Brasil tem que acontecer para crer, tem que morrer para se mexer tem que se chegar ao extremo para ver o tamanho de tal destruição vamos lá pessoal vamos se mexer e logo, todo mundo comenta mas até agora não vi nenhuma movimentação com a intenção de melhoria do setor! só se fala em copa do mundo, eleição e bla bla! acorda turminha não precisa ser nenhum expert para entender o que fazer! vamos reduzir um pouquinho dos lucros e um pouquinho dos impostos a verdade que ninguém quer dar o primeiro tiro, o governo não abrir mão de seu lucro e montadoras também não ai fica esta situação até chegar ao extremo que involuntariamente mexa em seus bolsos!

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