ANÁLISE

INOVAÇÃO

É preciso soltar o freio da enge-inovação


Falta valorização do modo brasileiro de inovar


Estamos indo no caminho certo. Tornar o País mais inovador é a única alternativa para salvarmos a competitividade, a indústria e o emprego. Ocorre que esquecemos, em termos de País e de ações governamentais, o freio de mão puxado. Explico: estamos fazendo a coisa certa, mas em velocidade incompatível com o que precisamos.

De fato, não se trata simplesmente de aumentar indicadores da inovação, como, por exemplo, a porcentagem do PIB investido em inovação no País em 20% ou 30%. O que precisamos para continuar no contexto competitivo global é triplicar, quadruplicar estes índices de forma rápida.

A China vem investindo pesado em inovação. Um mar de patentes (560 mil) foi gerado em 2012. Trezentos mil engenheiros foram formados no ano, criando poderoso exército de inovação, que mudará completamente a imagem e o posicionamento dos produtos chineses no mundo nos próximos cinco anos. Esta mesma China investe uma porcentagem três vezes maior que o Brasil de seu PIB em PD&I. Um PIB muito maior que o nosso, diga-se de passagem. Ou seja, tem uma força de inovação muitas vezes maior do que a nossa.

Do outro lado do planeta, países do norte da Europa como, Finlândia, Suécia e Dinamarca, colocam todas suas fichas em inovação e pulam na frente quando avaliados sob a ótica, por exemplo, do número de pesquisadores para cada mil habitantes, são 16 da Finlândia. Japão, Alemanha e Estados Unidos nem se fala.

Voltando a nós: dia 24 de dezembro último foi publicado um importante relatório do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), que trata do uso dos incentivos da Lei do Bem. As empresas que lá aparecem são as que declaram seus investimentos em PD&I no Brasil e esperam incentivos. Os resultados são, de alguma forma, preocupantes. Das cerca de 187 mil organizações que existem no Brasil em regime de lucro real - dados da receita federal - apenas 1.042 fazem parte da lista. Um cento e oitenta e sete avos declara que investe em PD&I e concorre a incentivos.

Agrava a situação o fato de que 218 delas são consideradas reprovadas. Na avaliação dos técnicos do MCTI, não fazem PD&I de fato. Estas 787 que sobraram, formam uma elite restrita que não será suficiente para fazer nosso País se tornar inovador e player global da indústria. Elas juntas declaram ter investido cerca de R$ 5 bilhões. Este número foi nove em 2008.

Quarenta por cento menor agora. Estas cerca de 800 inovadoras receberam R$ 1 bilhão em incentivos. Aproximadamente seis milhões ao ano para cada empresa – se a divisão fosse uniforme. Um apartamento de luxo em São Paulo por empresa. A renúncia fiscal pela Fazenda (fechada erroneamente), no campo da inovação - tema do qual fala todos os dias nossa presidenta - é um oitenta avos à renúncia total que foi em 2012 de cerca de 80 bilhões. Este número compreende a zona franca de Manaus (25 milhões), IPI reduzido para veículos e linha branca e outras medidas que certamente não mudam nossa posição competitiva lá fora e, muito menos a nossa capacidade de ocupar mercados globais.

Será que conseguiremos nos recuperar a tempo? Ou teremos de enfrentar uma derrocada da indústria? Mais surpreendente é, no entanto, o que aconteceu em 2012 com relação ao setor automotivo. No relatório publicado não há montadoras. Uma das indústrias que mais inova no Brasil ficou fora. Nem veteranos, nem os chamados newcomers comparecem como tendo feito bom uso dos incentivos.

No ano anterior 16 montadoras, dentre elas, Fiat, Caoa e Volvo, lá estavam para justificar a força do setor automotivo no Brasil da inovação. O que teria acontecido? Teriam as empresas todas juntas, de um momento para outro, deixado de fazer P&D? Nada disto.

O que supomos que possa ter havido é que o MCTI deixou estas candidatas aos incentivos de fora por conta dos ajustes nas definições que estão sendo discutidas com representantes do setor e transcritas em uma espécie de cartilha. Bom, mesmo assim, o cenário é preocupante. Os conceitos ligados à inovação constam de manuais internacionais como o de Oslo e Frascati. Da redação contida nestes manuais, o Brasil e outras nações que participam da OCDE, compactuam. Não poderia ser diferente. As leis que foram editadas, no caso a chamada Lei do Bem, manteve-se, por obrigação e convicção, fiel a estes conceitos. Caberia agora rediscuti-los? Reconceituar inovação?

Talvez pelo fato de que a inovação em um mundo no qual a tecnologia está à disposição na internet é muito mais combinação de coisas conhecidas gerando algo totalmente novo, do que o clássico processo de pesquisa básica se transformando, muito tempo depois, em produtos. É justamente deste tipo de inovação que são feitas as empresas e as histórias de sucesso nos dias de hoje. Desse PD&I de integração. E de muito desenvolvimento experimental. Por vezes chamado, depreciativamente, de engenharia. Como se engenharia, não fosse inovação.

As intenções são claramente positivas e neste contexto é claro que evolução vem por aí. Esperamos melhorias que premiem o tipo de PD&I que fazemos no Brasil. Que levem em conta características e a realidade que temos no País. Um parque tecnológico em desenvolvimento e as universidades em transição, tentando se aproximar do mundo real dos negócios.

Torcemos para que mudanças premiem a inovação corajosa feita em um contexto de enorme mercado, mas escassos recursos: “enge-inovação” brasileira da qual deveríamos nos orgulhar mais.

Comentários: 2
 

mauro
05/02/2014 | 20h27
A classe política do país precisa entender que a inovação é incentivada em todos os países do mundo. Se não fizermos mais do que fazemos hoje, não poderemos concorrer a longo prazo. A nossa competitividade não pode se basear somente na taxa de câmbio.

Valter Pieracciani
07/05/2014 | 12h41
É verdade Mauro! Obrigado pelo seu comentário. Parece que as coisas começam a ser como precisávamos. Abraço. Valter

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