ANÁLISE

INOVAÇÃO

Cultura: o verdadeiro impulso para a inovação


Em 2014 o Brasil deveria se empenhar em uma transformação


O ano de 2014 já está dentro de cada um de nós pronto para despertar. Ao lado dele, dormem os medos e incertezas específicos do setor automotivo diante de um período cheio de eventos paralisantes (carnaval em março, manifestações, copa e eleições).

Em nossas promessas e pedidos de fim de ano seria bom se fosse possível pedir mudanças na nossa cultura brasileira. Sabemos que é uma transformação demorada e, por isso mesmo, este desejo tem cara de um de nossos sonhos clássicos deste período de Natal.

O pedido é para que nossa cultura de negócios, característica marcante de dirigentes de empresas, governantes, professores e nós todos, deixasse de ser a cultura da postergação, da proteção dos mercados e do improviso na véspera e se transformasse em um conjunto novo de valores. Esta filosofia estaria ligada à estabilidade, ao planejamento e, principalmente, à inovação. A mudança de cultura faria com que não precisássemos de tantas leis, tantas multas e tantos impostos para que fizéssemos o que sabemos que tem de ser feito.

As coisas hoje não são assim: airbags e freios com ABS equivalem ao cinto de segurança de 30 anos atrás no Brasil. Tanto é assim que, por lei, a partir de janeiro de 2014 todos os carros produzidos no Brasil deveriam sair das montadoras equipados com esses itens. A resolução, de abril de 2009, deu às montadoras mais de quatro anos para se preparar para a mudança.

Tudo equacionado e eis que, a 20 dias de a medida entrar em vigor, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, acenou com a possibilidade de uma prorrogação do prazo de adequação para a indústria automobilística. Independentemente de esse anúncio se tornar realidade ou não, está lançada uma semente de instabilidade que atropela o planejamento das montadoras e das fabricantes de autopeças e, pior, joga contra a necessidade imperiosa de inovação e a favor de alguns milhares de mortes a mais nos próximos anos.

A prorrogação daria fôlego extra para a produção de veículos como a Kombi e o Gol G4, que têm projetos antigos, que não comportam a instalação dos novos itens de segurança obrigatórios. De quebra, mantendo-se a produção desses automóveis, seriam preservados cerca de 4 mil empregos na indústria automobilística. Mantega também teme que airbags e ABS encareçam o custo final dos veículos em até R$ 1.500, empurrando a inflação para cima em ano eleitoral. Os carros que sofreriam mais impacto com as novas medidas seriam justamente os de menor valor.

Nos países desenvolvidos, quando fica evidente que determinada inovação técnica ajudará a salvar vidas ou a preservar o meio-ambiente, as montadoras antecipam-se ao governo e correm para implementá-la, buscando também incentivos extras que geralmente são oferecidos às empresas que se adiantam. Não à toa, há mais carros verdes, e sempre mais seguros, nas ruas. Claro que existem leis, por vezes mais rigorosas do que as nossas, mas o que faz a diferença lá é a cultura.

Todos sabemos que inovação é obrigatória para quem quer sobreviver em mercados cada vez mais competitivos. Quem não inovar vai morrer. Mesmo assim, foi preciso criar no Brasil um Inovar-Auto que dissesse às empresas que, se não inovassem, pagariam mais impostos. O aceno do ministro contradiz o pressuposto do novo regime automotivo e traz à tona um cenário de imprevisibilidade que atrapalha o planejamento para a inovação. Diferentemente do que muitos possam pensar, inovação exige uma base sólida para florescer. Não é no caos que ela brota – é num ambiente de estabilidade, com muita programação, que as oportunidades de desenvolver projetos de ponta ficam mais identificáveis.

Entendamos cultura como o conjunto de crenças e valores que regem o dia a dia de um povo, de um governo, de uma empresa, e que se reflete em rituais e práticas. Estamos falando também da cultura organizacional, seja de uma empresa com duas, 2 mil ou 20 mil pessoas. Para mudar esse quadro que se acomoda ao imprevisível da maneira mais confortável, sem dar a importância necessária ao bem comum, será preciso uma mudança cultural profunda, que começa com o simples ato de não jogar papel no chão e chega à decisão de rejeitar o velho lema de “levar vantagem”.

O que nos leva obrigatoriamente a constituir uma cultura de Inovação e empresas mais inovadoras é uma motivação econômica e a lógica dos mercados e da competitividade. A mesma natureza de motivos que determinou o fim da escravidão no Brasil. Na época, os embargos comerciais ao qual o Brasil ficou sujeito por conta da escravidão podem, guardadas as devidas proporções, ser comparados às perdas de mercados que sofreremos se não inovarmos..

É fácil ver um paralelo entre a cultura do povo e a cultura das empresas. Estas, muitas vezes, mesmo sabendo que a mudança é inexorável, escolhem seguir em suas práticas habituais, pensando talvez que, sendo o cenário tão imprevisível, o melhor é ir tocando, fazendo do mesmo jeito de sempre, até que seja obrigatório mudar.

Nós nos perguntamos se precisa ser assim. Recentemente, a Fiat brasileira anunciou grandes melhorias para a linha Fiorino 2014. O motor ganhou potência; ABS e air-bags tornaram-se itens de série. São transformações imensas, que tornaram o veículo mais seguro e eficiente. Segundo a Fiat, demandaram o trabalho de 357 engenheiros durante um ano e meio. O preço final do carro subiu apenas 500 reais. Certamente há muito trabalho de P,D&I por trás desse resultado. Isso é inovação de verdade, não um remendo momentâneo, que resolve o problema agora e adia sabe-se lá para quando o compromisso das empresas brasileiras com a necessidade de inovar.

Em nossa cultura nos ensinam a não andar nos corredores de ônibus recém-implantados em São Paulo aplicando-nos 41 multas por hora. Nós, de outro lado, gostaríamos de poder aplicar uma multa ao prefeito Haddad a cada buraco que pegamos... Já imaginaram: buracos grandes gerando multas gravíssimas?

Nosso pedido de final de ano é que um dia, muito em breve, não precisemos mais de leis, multas e impostos para fazermos o melhor para nós mesmos. Cultura de um país e das empresas somos eu, você, todos nós. Nossas crenças e atitudes. O 2014 vem aí trazendo-nos inspiração e força para mudar.

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