ANÁLISE

INOVAÇÃO

Carro sem motorista é fácil, difícil é carro sem comprador


Sem inovação, indústria terá dificuldade para atrair o consumidor no futuro


Cidade de São Paulo, Avenida Faria Lima. Terça-feira, dezoito horas. Uma consistente fila de bicicletas atravessa o bairro deslizando silenciosamente na ciclovia, ao centro da avenida. Um prenúncio de que uma nova realidade no mundo da mobilidade está chegando. Mesmo em uma cidade difícil como São Paulo, nos últimos cinco anos muita coisa mudou na forma como as pessoas se deslocam.

A sensação é de que a velocidade com que estas mudanças vêm acontecendo é maior do que o esperado. Como se a chegada das novas gerações “abertura”, nascidas quando o Brasil, no fim dos anos 80, iniciou a abrir seu mercado, chegassem com uma espécie de DNA de mudanças. Elas não têm com os carros a mesma relação de afeto e culto que nós, cinquentões, temos. Parece que chegam acelerando não veículos, mas o ritmo das mudanças. No campo da inovação, e mais especificamente na área das inovações guiadas pelo design*, esta combinação de mudanças socioculturais impactando mercados tem nome. Chama-se inovação de significado. E é o que está acontecendo com os carros no mundo e chega com força também ao Brasil.

Inovações de significado, em outros mercados, há tempos vêm acontecendo. Para as empresas que dominam o método e aplicam o conceito representam oportunidades concretas de conquista de margens robustas somente possíveis em inovações radicais e vencedoras.

O Nintendo Wii, por exemplo, mudou o significado dos jogos eletrônicos tirando o jogador de uma realidade virtual que tentava imitar cenários reais e trazendo-o para o mundo concreto, dos movimentos e da simplicidade. Há dezenas de outros exemplos.

Voltando ao mundo do auto e à revolução dos significados, o mesmo carrão que para nós significava liberdade e status, para estes jovens pode ser apenas um vilão poluidor. Em termos de prazer de dirigir – outro importante significado – mesmo os novos e atraentes modelos esportivos, não suscitam nestes jovens as mesmas reações e palpitações que lhes gera um game eletrônico.

Nos nossos tempos, quanto mais um videogame se parecesse com um carro de verdade, mais emoção ele geraria e mais desejado seria. Nos dias de hoje houve uma radical inversão. Quanto mais um carro se parecer com um videogame, mais desejado ele será.

Qual será então o cenário futuro quando terminar a poderosa onda de motorização das classes emergentes que sustenta atualmente as vendas da indústria? Quando terminar a onda das pessoas, de todas as idades, que estão comprando seu primeiro carro ou trocando suas latas velhas? É provável que os veículos sejam “reinventados” e projetados em função de seus significados.

Os significados futuros ninguém ainda sabe. Agora os significados originais poderiam ser resumidos a três, que estão no corredor da morte:
Meio de transporte - novos sistemas de pools de automóveis sem dono e inovações radicais no modelo de negócio de transportar pessoas irão se configurar constituindo uma realidade totalmente diferente da atual;
Liberdade e prazer de dirigir - a oferta de serviços de dirigir e apropriar-se por tempo indeterminado de veículos esportivos e superesportivos irá proporcionar isto. Não nas cidades onde não faz sentido rodar em uma Ferrari, mas em lugares adequados para se andar com um carro destes. Este mercado para aviões e helicópteros cresce 30% ao ano no Brasil;
Status - status... este é o mais efêmero dos significados e ninguém mais tem duvidas de como isto está mudando. Em breve, vai ser bacana andar de ônibus também no Brasil.

Evidentemente estas mudanças irão reduzir o volume total das vendas de veículos. Enquanto estes fatores se articulam criando um novo cenário para a mobilidade, duas poderosas ondas se consolidam: big data – processamento de grandes volumes de dados e geração de conhecimento aplicável em negócios. E, de outro lado, os microchips “vestíveis” ou implantáveis que, muito em breve, estarão em nós. Imagine: estas tecnologias combinadas possibilitarão, por exemplo, reduzir enormemente a improdutividade de sistemas de transporte como os táxis. Aquele tempo que o taxista está parado, dormindo ou rodando vazio.

Sistemas eletrônicos inteligentes “aprenderão” nossas rotinas e permitirão racionalizar e otimizar a disponibilidade e uso desses veículos com consistentes reduções de custos e preços. Os aplicativos que já existem de compartilhamento de corridas são uma pequena indicação disto.

Agora é surpreendente que as indústrias de veículos estejam olhando para o big data apenas como uma forma de se relacionarem melhor com os clientes, acompanharem o ciclo de vida dos veículos e se concentrarem no veículo sem motorista. Há uma revolução muito mais profunda se aproximando.

Parece que há uma espécie de perigosa miopia, diante da aproximação de serviços de frotas super eficientes e baratos, da possibilidade de compartilhamento de veículos esportivos pelas mesmas pessoas que compartilham aviões em uma Netjets, por exemplo, e frente à mudança do significado que ganhara andar de ônibus e de status. Fazer carros sem motoristas será considerado fácil, quando comparado às dificuldades de operar a indústria em uma nova realidade sem consumidores.

Enfim, uma nova e surpreendente realidade da mobilidade. Imagine seu celular oferecendo-lhe a possibilidade de amanhã, a um baixíssimo custo, alguém pegá-lo e levá-lo ao trabalho? No fim de semana a possibilidade de dirigir uma Ferrari na serra mais próxima à sua cidade e você cheio de orgulho cool falando aos amigos de seus filhos que não tem mais carro e que anda de ônibus?

Parece engraçado, mas pode ser trágico para as indústrias que não se prepararem para estas mudanças. O que é essencial é que os inovadores da indústria automobilística comecem, o quanto antes, a trabalhar novos significados. Há riscos de que sejam surpreendidos por uma nova realidade sendo oferecida aos seus velhos consumidores por empresas que nada tem a ver com automóveis. Empresas de tecnologia e serviços invadindo o mundo da mobilidade como a NetFlix invadiu o mundo dos filmes derrubando o gigante Blockbuster.

Novas companhias de base tecnológica com quem a indústria terá que aprender a se relacionar já que justamente eles é que serão os clientes. Os cerca de 500 milhões de smartphones existentes no mundo, segundo estudo da Gartner Group, complementam a infraestrutura necessária para esta realidade.

Esperamos para ver o que o futuro nos reserva? Ou saímos já para construí-lo?

*Conceito criado pelo Professor Roberto Verganti do Politecnico di Milano

Comentários: 4
 

Hugo Zanna
27/11/2013 | 09h45
Valter. Parabéns pelo artigo. Faz pensar e nos faz preocupados. Eu sou um daqueles para quem o "carro" era o sonho máximo na adolescência. Hoje, claro que eu já tive vários, embora nunca o meu sonho "da vez", até porque a "vez" passa também. Mas é muito perceptível o fato de o adolescente/jovem de hoje não se entusiasmar com um "carro". As mudanças vem a galope...

Carlos Silva
29/11/2013 | 17h38
Muito bom o artigo e ainda mais o título. Os adolecentes de 70 começavam o exercicio de negociação treinando com os pais a arte de convercer-los a emprestar o carro ou a nivel de graduação à convencer o amigo a convenser o pai à empresta-lo . O relação de preço do carro era mais atraente , no inicio de 70 meu irmão se formou em agronomia e com 3 salarios de recem formado se comprava um fusca. Imagino que se houvesse um veiculo de 2 lugares para usar na cidade que concorresse em consumo de combustivel e em preço com as motocicletas de ate 300cc, e outro maior e mais potente para uso em auto estrada seria uma forma de crescimento para a industria automotiva .

Valter Pieracciani
07/05/2014 | 11h07
Obrigado Silva pelo seu comentário. Abração. Valter

Valter Pieracciani
14/05/2014 | 11h22
Obrigado Hugo pelo comentário. Estamos alinhados.

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