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Opinião | Valter Pieracciani |

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Valter Pieracciani

A força dos engenheiros no Brasil

Profissionais são essenciais para que indústria consiga inovar

Aconteceu em outubro o 25º Congresso da SAE, entidade que congrega engenheiros da mobilidade em todo o mundo. Confesso que sinto orgulho de fazer parte deste grupo de profissionais. É gente interessada, aberta, flexível e, o principal, que produzem de fato. Com sua energia, criatividade e inteligência, geram emprego, melhoram a qualidade de vida das pessoas e mudam o mundo com seus projetos.

Nós engenheiros somos vistos muitas vezes como “um animal diferente” pelos homens de negócios que, em sua maioria, são pessoas de finanças, advogados e administradores. Este orgulho, ao qual me referi, nós engenheiros sempre sentimos. O que mudou hoje em dia neste Brasil da inovação é que não precisamos mais escondê-lo.

Atualmente os engenheiros e o trabalho deles têm gerado retorno financeiro para as empresas por meio dos incentivos à inovação. Profissionais das áreas de tributos, finanças e controladoria estão saindo de seus postos de trabalho para buscar saber o que engenheiros estão fazendo, em que projetos estão trabalhando, quantas horas têm investido neles.

Com a chegada desta nova realidade brasileira feita de programas governamentais que estipulam metas setoriais de investimento em inovação, como os programas regionais e o Inovar-Auto, por exemplo, passaram a perguntar a nós, engenheiros, o que mais poderia ser feito e como ampliaremos nossos dispêndios. Nossa! Parece sonho!

Bem, nesse paraíso “engenheirístico” o que nos falta, então? A resposta é: mais rede, mais força e mais ação estruturada. Explico.

Mais rede: A realidade da inovação e, principalmente, da forma de se fazer Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) mudou. Não se faz mais P&D somente partindo da pesquisa básica, pura e clássica. Se houvesse maneira de medir quantas das amadas inovações radicais que estão mudando o mundo partiram do zero o número seria baixíssimo.

Com o volume de conhecimento que está à disposição no mundo, acessível e escancarado, qualquer inovação radical inicia com conhecimentos e tecnologias já dominadas, ao menos em parte, e realiza-se combinando esses elementos para gerar algo novo – um produto ou serviço. Inovação passa a ser novas maneiras de aproveitar tecnologias existentes. Há milhares de exemplos. Do iPad ao Post-it, passando pelo Google Glass.

Boa parte da P&D hoje é juntar coisas, tecnologias e desenvolver inovação. Experimentá-la exaustivamente e, o principal, industrializá-la. Vivemos afirmando que inovação é fazer. É acontecer e faturar, mas, na hora de reconhecê-la, quer se valorizar apenas a pesquisa básica.

As redes de engenheiros e a composição de tecnologias gerando novos produtos e serviços será a fotografia de um futuro da inovação no curto prazo. Isto significa também que os laboratórios estão se abrindo. Os estudantes e as universidades são parte integrante e estratégica destas redes e reconhecer isto é o caminho para a aproximação entre universidades e empresas que tanto precisamos. Os estudantes e os professores são verdadeiros “Tier 0,5”, fornecendo fragmentos de tecnologia e soluções em forma de peças de um “Lego” para as áreas de P&D da indústria inovarem.

Passamos ao segundo ponto: força. A inovação gera desenvolvimento econômico. Em outras palavras, move os negócios. Os engenheiros, por sua vez, movem a inovação. É hora, portanto, de, mais unidos do que nunca, nos fazermos ouvir. Chegou a hora de os presidentes que vieram das engenharias. Que tocaram chão de fábrica e que lançaram produtos e processos inovadores.

Com todo o respeito aos advogados, auditores e financistas discutir valor tecnológico, inovação e classificação de projetos em função de seu grau de inovação não é trabalho para não engenheiros. Inovação tecnológica não é, portanto, a praia destes profissionais.

Por fim, o tópico ação estruturada. Para que haja ação estruturada é necessário que exista sistema de gestão. Neste caso, Sistema de Gestão da Inovação. Felizmente temos uma Norma Brasileira (ABNT NBR 16501) que nos oferece uma referência de como gerenciar as atividades de P, D & I para assegurarmos sistematicidade e inovação serial. É importante que se valorize este trabalho e o avanço feito por brasileiros especialistas. Ele certamente mais dia, menos dia, servirá de referência para uma norma internacional sobre o assunto.

Temos nas mãos um modelo de gerenciamento que inclui como estruturar as práticas nas empresas inovadoras. Mais que isto, temos um padrão para avaliar a conformidade das empresas em relação à norma, e assim, de forma objetiva, entender se qualquer organização tem ou não as características de empresa inovadora.

Isto é decisivo, por exemplo, neste momento em que se discute o Inovar-Autopeças. Adotar as práticas indicadas na norma pode ser um passo decisivo para aquelas empresas do setor que desejam se destacar como inovadoras e evidenciar de forma objetiva que o são. Enfim, rede, força e ação estruturada dos engenheiros e das engenheiras no campo da inovação são os fatores que diferenciarão as empresas inovadoras.

É o que nos fará avançar como País da inovação e o que separará as empresas inovadoras das comuns. As que irão vencer das que, em cinco anos, estarão mortas.

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