ANÁLISE

INOVAÇÃO

Produtividade e Inovação


Precisamos valorizar os avanços dos engenheiros brasileiros


Estudos recentes da CNI dão conta de que a produtividade no Brasil cresceu apenas 4% de 2001 a 2011. Isto nos coloca em penúltima posição na lista dos dez países que têm parques industriais importantes no mundo. Diante disso, se quisermos salvar a indústria brasileira precisamos revolucionar duas grandes questões.

A primeira delas é o custo do trabalho, pesadamente distorcido pelas pressões trabalhistas. O segundo aspecto a ser melhorado são os processos de produção de bens e serviços. Não precisamos de melhorias sutis nestes dois campos, de alguns pontinhos percentuais de evolução por ano. Precisamos, sim, de saltos. De evoluções radicais de 20% ou 30% ao ano se quisermos competir.

As barreiras técnicas e comerciais, que sempre salvaguardaram o Brasil, fazem cada vez menos sentido nesse mundo globalizado em que vivemos. Para brigar com automóveis que vêm da Coreia do Sul, onde a produtividade cresceu 86% em vez de 4%, os nossos produtos precisarão de mais do que um Deus brasileiro.

Bem, no campo trabalhista e do custo da mão de obra, no qual as coisas levam décadas para serem mudadas, só vemos um caminho: o trabalho em redes de cooperação. Esse conceito, que temos procurado difundir e implantar, trata de uma nova realidade em que as relações de emprego se transformam em relações de fornecedor e cliente. Vamos detalhar mais isto nas próximas colunas, mas vejam, por exemplo, um site chamado Elance. Lá você encontra trabalho de qualquer tipo à venda, realizados por profissionais a preços competitivos globalmente. Tudo bem, alguém poderia dizer: “Pieracciani, não se fazem carros com trabalho de free lancers.” Obviamente eu concordo. Mas, pensem no conceito e no mundo evoluindo rapidamente. Pensem em redes de fabricantes especializados de autopeças. Na possibilidade de produzir lotes cada vez menores e mais rapidamente. Pensem no desejo dos compradores de terem carros personalizados. Enfim, “viagem” um pouco. Não faz mal a ninguém.

Uma nova estrutura de trabalho em redes de cooperação simplesmente tornaria desprezível, completamente inútil, a obsoleta legislação que só prejudica trabalhadores que realmente desempenham e expõe a riscos permanentes quem dá emprego e cria trabalho. O que deve ser feito pela evolução dos processos de produção é reconhecer a inovação que é feita no dia a dia. Valorizá-la e incentivá-la cada vez mais.

Quando se fala em inovação, ela está associada, na maioria das vezes, a novos produtos. Mas é justamente nos processos de produção, montagem e fabricação que nos especializamos no Brasil ao longo dos últimos 30 anos. Produtos, sabe-se bem, não nos deixavam fazer. P&D em produtos era coisa das matrizes, dos países ricos. A nós coube produzir. E, é justamente nisto que nos especializamos. Passando pelas fábricas brasileiras vemos processos que não existem em lugar nenhum. Que deixam o pessoal das matrizes de boca aberta. Carregados de criatividade, engenharia brasileira e tecnologia local.

“Fortaleça-se no que é bom”, não é esta uma das regras da competição? Pois bem, ao contrário disso, temos visto que esta tecnologia brasileira de produção não é nem um pouco valorizada. Pelo contrário, não é sequer vista como inovação tecnológica. É chamada muitas vezes de “engenharia” em tom diminutivo. Como uma coisa dessas pode acontecer se é justamente aí que podem estar nossos diferenciais, se é nisto que nos especializamos? Toda a tecnologia que leva a aumentos significativos de produtividade e qualidade, geração após geração de máquinas e linhas de produção, não é então inovação tecnológica? Não deve ser identificada, valorizada, capturada e incentivada?

São gerados diariamente volumes incríveis de conhecimento e inovação em processos e métodos construtivos no Brasil e estamos perdendo ou subavaliando quase a totalidade disto. Será que é correto nos resignarmos a dizer que não se faz P&D no Brasil como querem muitas pessoas – estrangeira, na maioria? O que precisamos fazer urgentemente é recondicionar nosso olhar e enxergar a inovação brasileira que está acontecendo na nossa frente? Que gera aumentos de produtividade nos processos. Temos que fortalecer a inovação tecnológica produtiva brasileira, criativa e inovadora mesmo em meio a um dos ambientes, em termos de legislação, mais retrógrados e hostis do mundo.

Os primeiros que precisam se convencer de que somos capazes de inovar e gerar inovação tecnológica somos nós mesmos, brasileiros que cresceram ouvindo que isto era “coisa de rico.” A indústria nacional não sobreviverá até que as próximas gerações cuidem de mudar esta realidade. Cabe a nós liderar a revolução. Temos muito trabalho difícil pela frente e temos que fazê-lo depressa.


Comentários: 2
 

Eduardo
02/10/2013 | 08h49
Nos próximos 10 anos Inovar Auto vai transformar o carro fabricado no Brasil mundialmente competitivo? Talvez não, más vamos preservar empregos as custas do consumidor que pagará mais caro por um produto defasado.

Valter Pieracciani
06/05/2014 | 10h44
Obrigado pelo seu comentário Eduardo! Há muito por fazer. Juntos temos mais força para isto... Valter

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