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Opinião | Stephan Keese |

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Stephan Keese

28/08/2013

Panorama para veículos comerciais no Brasil

Estudo da Roland Berger mostra o cenário de 2013 a 2015

Se 2012 não foi nada fácil para a indústria de veículos comerciais – dado a contração do volume de vendas e produção – 2013 desenha o que parece ser uma surpresa mais do que agradável. É o que aponta o estudo da Roland Berger Strategy Consultants desenvolvido para o mercado brasileiro, Commercial Vehicle Perspectives Brazil 2013-2015 , que abrange o mercado de PBT superior a seis toneladas. De acordo com a pesquisa, o setor deve experimentar este ano alta de 15 mil a 25 mil unidades nas vendas sobre o ano passado.

A análise aponta quatro fatores que serão responsáveis por impulsionar a demanda por veículos da categoria: estabilidade econômica, renovação da frota, mudanças na legislação para o motorista e investimentos em infraestrutura. Analisando cada um destes aspectos cuidadosamente, fica fácil entender porque o setor poderá contar com crescimento das vendas.

Os brasileiros têm hoje a segurança trazida pela estabilidade da economia. Ainda que a desconfortável sombra de um descontrole inflacionário permaneça, os índices de preços vêm recuando mês a mês desde o 1º trimestre de 2013. O teto de 6,5% para a inflação, determinado pelo governo, ainda está muito longe da dura realidade enfrentada nas décadas de 1980 e 1990.

Para o setor de caminhões, existem ainda as baixas taxas de financiamento pelo Finame, de 4% ao ano para o segundo semestre, contra os 7,3% a 7,5% projetados para a Selic entre 2013 e 2015. Por si só, esta vantagem seria capaz de assegurar bons números para o setor, considerando o ambiente propício ao financiamento. Essa conjuntura, no entanto, favorece o consumidor, mas não simplifica a vida de fabricantes e agentes financiadores – pelo menos não de todos.

Diante da boa oferta de crédito, o cliente brasileiro se torna o objeto de desejo de OEMs – que precisam, a todo custo, vencer a guerra por mais uma venda. É aí que mora a pressão pela queda de preços e a máxima econômica que diz que “o mercado define a oferta” se prova verdadeira. Outra disputa recai sobre os agentes financiadores, que têm a sua força enfraquecida pelo novo uso do capital: a queda no spread configura mais em ferramenta de venda e menos em gerador de lucro.

Para tornar mais acirrada ainda a disputa pelo menor preço, há a questão do alto estoque (ainda conseqüência de um ano anterior abaixo das expectativas). Outro fator importante é a resistência do consumidor em desembolsar o necessário para cobrir os custos do conteúdo adicional exigido pelo Proconve P7 – que traz incremento de 10% e 15% no preço do veículo.

O mercado brasileiro muda em velocidade relativamente alta e o estudo da Roland Berger mapeou cinco desafios que podem transformar o cenário do dia para noite nos próximos anos. São eles: a chegada de novos entrantes, a proliferação de modelos, o aumento do custo de propriedade, a inflação e a pressão da cadeia de fornecedores.

Com a chegada das newcomers, estima-se que o volume anual de produção no Brasil possa dobrar até 2015, passando das atuais 280 mil unidades para 510 mil veículos. Outra tendência tem relevância especial para a velocidade das mudanças no mercado de caminhões no Brasil: a necessidade de diversificação de modelos para aplicações específicas. Para que um fabricante se torne mais eficiente e aumente sua presença de mercado, será necessário ter flexibilidade para adequar-se às necessidades do cliente – com portfólio mais amplo, capaz de prover, ao mesmo tempo, veículo para trajeto longo, distribuição regional ou intracidade – ou para adaptar-se caso a capilaridade de powertrains existente seja padronizada para uma fonte energética.

Mudanças que podem impactar o TCO também contribuem para o quadro de incerteza, uma vez que preço (maior por causa da nova tecnologia embarcada), manutenção, seguro e custo da mão-de-obra, podem mudar o critério de compra. Intrinsecamente ligado a isso, custo de inflação e custo de produção dos fornecedores completam a cesta de desafios que podem mudar o mercado em qualquer tempo.

E como o setor de veículos comerciais pode se preparar para encarar a nova realidade tão complexa? É preciso transformar em oportunidade os desafios mapeados.

Para manter o negócio rentável e estável no Brasil, as OEMs precisam trabalhar no custo do produto, eliminando ineficiências na produção, tornando esta realidade uma nova cultura na empresa e, muito importante, monitorando o progresso alcançado. É preciso quantificar melhorias e processos e não só no chão de fábrica, mas também na rede concessionária e de serviços. Assim, será possível detectar as áreas com melhor desempenho e, quem sabe, recompensá-las por isso.

A nova lógica de mercado determina que somente a combinação de qualidade e preço traz a diferenciação para o tão disputado consumidor. Produtos e serviços terão sua sobrevivência no mercado baseada na capacidade de incorporar inovação e tecnologias, conquistar novos mercados e, até, estabelecer novas plataformas em conjunto com outros players.

Em um mercado comoditizado, a manutenção de regras de qualidade no serviço e atendimento ao cliente, medida aparentemente simples e de baixo custo, pode se tornar o diferencial competitivo entre conquistar um novo consumidor ou fazer um inimigo da marca. Para que fabricantes e fornecedores possam crescer em volume de vendas neste cenário é preciso um profundo processo de ajuste.

É hora de olhar para dentro do próprio negócio e realizar um honesto autoexame sobre as mudanças necessárias, não só para manter-se na corrida até 2015, mas para ganhar o prêmio – e por prêmio, entenda-se cliente – porque este é um torneio que nunca acaba.

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