ANÁLISE

INOVAÇÃO

Acorde o “Picasso” que existe em você


Só existirão empresas inovadoras quando os profissionais puderem ousar


O quanto você usa, hoje em dia, de sua capacidade de inovar em sua empresa? Dê a você mesmo uma nota de zero (não uso nada) a dez (uso totalmente). Em seguida, pense em você quando criança. Com 5 ou 6 anos de idade. Brincando em seu jardim. Dê agora outra vez a nota. Avalie o quanto você usava de sua capacidade de inovar quando era criança...

Com esta intrigante pergunta, Joichi Ito, Diretor do Media Lab, que é o Centro de Inovação do MIT (Massachusetts Institute of Technology), começa suas palestras.

A pergunta é, na verdade, uma provocação ao público normalmente composto por dirigentes da comunidade da inovação. E as respostas são espantosamente notas baixas para a primeira pergunta e altas para a segunda.

Mas vamos falar de você. O quanto você utiliza hoje de sua capacidade de desenhar, criar, experimentar e o quanto você usava desta mesma capacidade quanto tinha 5 anos. O quanto você arriscava naquela época e o quanto arrisca hoje, trabalhando no dia-a-dia em sua empresa.

A comparação entre as duas etapas da vida, com a mesma pessoa, é cruel. Mostra que a maioria dos executivos, hoje em dia, deixou de ser o “Picasso” que era quando criança para se transformar em robô, gestor frio de orçamentos.

A dinâmica que foi incutida nas empresas é a de se discutir o que fazer e como fazer até por volta de setembro/outubro, cravar isto em um orçamento “pétreo” e, depois disso, a empresa é colocada em “trilhos ultra rígidos” nos quais ninguém mexe. Os dirigentes que menos desviarem serão reconhecidos como os melhores.

Pensem comigo: É possível pensar como “Picasso” neste ambiente? Como conseguiremos, então, transformar as empresas em inovadoras? Se a inovação é feita pelas pessoas. Se justamente ao centro da tão desejada cultura de inovação estão as atitudes.

Estamos todos de acordo que precisamos transformar as empresas comuns em inovadoras. Em usinas de inovações que produzam inovação serial. Mas, como será isto possível com as pessoas que temos?

A boa notícia é que é possível e administrável. É perfeitamente viável pensar em resgatar o “Dalí” e o “Picasso” que existe adormecido em cada um dos profissionais de suas equipes. Eles estão lá. No fundo da personalidade e das atitudes de cada um. Não morreram. Estão apenas adormecidos. Apagados por força de uma sociedade e um sistema de trabalho que se encarregou, ao longo dos últimos 50 anos, de transformar criativos em gestores de orçamentos. Apagaram em nós, a sedução pelo risco, a coragem de experimentar, ousar, desenhar, pensar com as mãos (prototipar) e criar soluções diferentes, radicais, “fora da caixa”.

Teremos agora, se queremos ser usinas de inovações de verdade, que aprender a desaprender. Não é fácil, mas é perfeitamente possível.

Trabalhando com executivos, até mesmo com os que estão nas empresas mais inovadoras do País, temos obtido resultados positivos e consistentes. Temos expandido, por meio de vivências práticas e transferência de conhecimento estruturado e focado em atitudes, a visão e a mente de cada um deles. Primeiro importante passo no caminho do resgate dos inovadores. Provocamos o “Picasso” adormecido que está dentro destes dirigentes.

A realidade tem nos mostrado que são basicamente quatro importantes características dos profissionais inovadores. As mesmas, aliás, que separam o “você de hoje em dia” daquele “Picasso” que você era quando tinha 5 anos.

Estas características poderiam ser resumidas em:

1. Sua capacidade de sentir e perceber
Os gestores inovadores estão sempre conectados ao que está acontecendo em volta deles, no mundo. Mudanças de atitudes dos clientes e principalmente as mudanças socioculturais são vistas por eles como combustíveis importantes para a inovação. Estes pensamentos povoam a mente destes gestores em boa parte da vida, até mesmo no tempo livre. É justamente nessas horas, em contato com a arte e a música, que estas percepções se cristalizam. É no estado de relaxamento que nossa capacidade de sentir e perceber se expande. Nestas horas estamos um pouco mais livres da “espada” dos modelos rígidos de gestão de nossas empresas.

Mas isto não basta. É preciso que estas mudanças sejam sentidas e interpretadas. E é aí que entra a sensibilidade de cada um deles. O quanto cada um consegue interiorizar e sentir cada movimento do mercado e do cliente é um forte diferencial. Lembre-se. Quando você tinha 5 anos era muito atento a tudo, aprendia o tempo todo e era muito sensível.

2. A sua capacidade de sonhar e criar
O que hoje em dia é um verdadeiro xingamento “Ele é um sonhador...” era talvez uma de suas características mais evidentes e valiosas quando você tinha 5 anos. Uma cadeira tombada podia virar imediatamente uma cabana ou uma charrete. E provavelmente várias vezes ao longo do dia você sonhava acordado e inovava criando novas brincadeiras.

Sonhar acordado. Ver as coisas com olhos e perspectivas diferentes. Fantasiar e apoiar-se em metáforas. Inventar usos diferentes para coisas iguais é uma característica comum, fortemente presente nas centenas de gestores inovadores com os quais temos convivido.

3. Acreditar e arriscar
A inovação e o risco são irmãos. Andam juntos e de mãos dadas. Aversão ao risco significa aversão à inovação. Combate obsessivo ao erro, punição a quem não cumpre à risca os padrões, tudo isto é um veneno letal à inovação. O pior é que as empresas fazem questão de borrifá-lo, todos os dias de manhã, em cima de suas pessoas e ambientes.

Depois, horas mais tarde, pedem que sejam criativos e reclamam deles por não serem inovadores...

4. A última é Transformar
Este é o quarto último verbo que temos que reaprender a conjugar todos os dias se quisermos uma organização mais inovadora. O executivo inovador é um transformador contumaz. Transforma a si mesmo o tempo todo. Com isto, transforma o ambiente no qual está inserido. Vive e excita-se com a mudança. É capaz de gerenciá-la, tratando com dedicação e competência a resistência a mudanças que naturalmente surgem nele mesmo e nos integrantes de sua equipe. Transformando permanentemente a si mesmo e ao seu ambiente, cria terreno fértil para a inovação. Abre espaços para o novo. Marca sua liderança de inovador e fortalece a cultura de inovação. Quantos adultos não ficavam em volta de você aprendendo e repensando seus paradigmas quando você era o “Picassinho” de 5 anos?

Finalmente, a boa notícia é que é possível voltar no tempo. Ao menos neste campo da inovação. E é disso que a maioria das empresas que conhecemos precisa. Necessita avançar em inovação. Precisa do “Picasso” que existe dentro de você e das pessoas de seu time.

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