ANÁLISE

INOVAÇÃO

O Brasil 3D


É preciso incluir a inovação no tripé de nossas empresas


Vivemos uma nova era das tecnologias em três dimensões, principalmente nas áreas de engenharia. É uma mudança significativa para qualquer técnico, engenheiro ou trabalhador dessas áreas projetar ou mesmo realizar protótipos em 3D. Uma verdadeira revolução, dizem alguns deles. Vivenciamos recentemente duas evidências disso.

Em uma convenção sobre tecnologias, um profissional da Embraer mostrou fotos da área de engenharia de um passado não muito distante e fotos atuais. Nas imagens, salas cheias de papéis e enormes desenhos contrastavam com salas organizadíssimas e super limpas. A outra evidência foi um de nossos grandes clientes, que nos mostrou com orgulho de quem acabara de comprar um objeto de desejo, as caixas fechadas da bateria de impressoras 3D que haviam acabado de chegar à área de desenvolvimento.

Olhar para este novo estágio tecnológico alcançado como uma revolução é muito inspirador. Revoluções mudaram o mundo, nomearam líderes excepcionais, construíram histórias marcadas por emoções e orgulho. Em tempos de manifestações democráticas nas ruas então, mais ainda, vale sonhar e perseguir um Brasil melhor dentro e fora das empresas.

Voltando aos projetos, minha geração cresceu em engenharias 2D e, mais do que isso, em um País 2D. O modelo mental que nos foi impingido era o do Brasil, celeiro do mundo, da produção e do baixo custo. Estas, e somente estas, eram as duas dimensões nas quais nos foi permitido trabalhar e pensar. Durante os últimos 30 anos crescemos rezando a Deus por maiores volumes, obstinados o tempo todo em busca de intermináveis reduções de custos. Inovação nunca foi para nós brasileiros. Inovação era para a NASA, para o Fraunhofer Institute e para os países desenvolvidos.

Nós tínhamos que nos especializar em produzir mais e de formas mais baratas. Se possível ao ritmo do samba – ouvi isso uma vez de um de nossos diretores estrangeiros, que nos visitara na indústria em que trabalhei no início de minha carreira. Nunca nos foi permitido inovar. Adaptar baixando custos sim. Inovar jamais.

Faço de tudo para acreditar que estejamos vivendo hoje com uma terceira dimensão (3D). A da inovação. Produzir e baixar custos continuam, mas entra a inovação. Esta seria a única revolução capaz de salvar nossa economia. Não me refiro só à indústria, mas à economia como um todo. A inovação brasileira pode impactar fortemente áreas em que a tecnologia sofisticada e patenteada lá fora não faz tanta diferença assim. Me refiro aos serviços, aos modelos novos de negócios, as TIC e os softwares, aos novos conjuntos de relações com quem compra um veículo de sua marca. E a novas arquiteturas de redes competitivas entre montadoras e toda a cadeia de fornecedores e de valor.

Falo do modelo industrial MAN, por exemplo, que teve coragem de inovar em gestão e em negócio. Desafiou todo o credo alemão sobre produção de caminhões e tornou-se uma fábrica única, campeã do grupo ou referência em resultados.

Me refiro ao novo Uno. Inovador à beça. Cheio de significado. Um campeão que não precisou de tecnologias extravagantes “que temos em nossa matriz” para fascinar compradores. Incluir a terceira dimensão, inovação, será a resolução das novas gerações de técnicos. Essa revolução é carregada de felicidade e encantamento. Inovação é também fazer pessoas felizes. Estamos no meio dela. Muitos sem perceber isso. Não seria a primeira vez na história.

Um novo Brasil 3D com inovação vai acontecer. Nossa economia não sobreviverá à mínima abertura de mercado se não tivermos a terceira dimensão e a competitividade necessária. E, sabemos todos, a abertura de nosso mercado vai acontecer. Pode demorar um pouco mais (se conseguirem segurar) ou um pouco menos, mas vai acontecer. Nesse momento os veículos, os componentes, as engenharias e os níveis de inovação terão de ser globalmente competitivos.

Foi dada a bandeirada. Agora é recondicionar nosso olhar. Passarmos a ver, classificar e, sobretudo, valorizar a inovação que fazemos todos os dias e, a partir disso, criarmos uma cultura de inovação nas empresas de todos os tamanhos.

A enorme maioria das usinas de inovação (empresas reconhecidamente inovadoras que fazem inovação serial) quando perguntadas sobre qual é o principal fator que lhes assegura inovação, respondem prontamente que é sua cultura. O problema é que não se faz cultura de inovação por decreto. Muito pelo contrário. As elas têm que ser construídas tijolo a tijolo, atitude por atitude, prática por prática.

Esta cultura é o que, de fato, termina por dar espaço e vida para que mais e mais inovação aconteça. Nossos olhares e novas práticas gerando cultura e essa, por sua vez, reforçando as práticas de inovação.


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