ANÁLISE

INOVAÇÃO

Inovação ou morte


Da mesma forma que fomos capazes de ganhar produtividade no passado, temos de nos tornar capazes de inovar agora


Em nosso último livro desafiamos as empresas a se tornarem usinas de inovações. A inovadora serial, que faz da inovação sua tradição e para isso se estruturou. Ser esse tipo de organização não é dom divino, é sistema. São práticas e disciplina que asseguram inovações em série e geram resultados palpáveis. Estas companhias (há várias citadas no livro) têm em comum pessoas capacitadas para inovar, processos que dão vazão às ideias e as transformam em projetos e resultados e um ambiente inspirador.

Entendemos como ambiente mais do que só o local de trabalho. Referimo-nos às conexões que a empresa constrói e mantém com universidades, centros de pesquisa, clientes, fornecedores e com governos. É do capítulo ambiente que falamos quando olhamos para o Inovar-Auto como oportunidade de mover-se em direção às oportunidades.

Não basta mais somente produzir e vender bem. É preciso fazer isso de forma alinhada à lógica de um governo que está disposto a reduzir seus impostos e dar dinheiro à sua empresa, desde que você seja uma usina de novas ideias e eleve seus patamares de inovação e competitividade. Basta ver a Embraer, a Petrobras, a Natura, a Odebrechet e outras empresas que conseguiram ser e mostrarem-se usinas e por isso tornarem-se as mais bem vistas pelo governo em todas as linhas de ação.

Afirmamos também que, boa parte do desenvolvimento e da inovação de uma companhia pode ser feita aqui mesmo no Brasil, por engenharias que são mais rápidas, flexíveis, criativas e produtivas do que as dos “gringos”. Antes disso, temos que nos livrar dos complexos, recondicionar nosso olhar e parar de chamar um montão de coisas de marketing, assistência técnica e outros nomes quando são, na verdade, inovação, P&D e engenharia. O primeiro a ser convencido é você.



Passamos 30 anos tentando destruir nossas engenharias, mas bastou tomar um pequeno fôlego e receber incentivos para vermos ressurgir nossas expertises. Somos capazes. O problema é que deixamos de acreditar nisso. Nos convenceram de que éramos mão de obra barata, celeiro do mundo, produção e não inovação. Chamamos nossas inovações criativas de gambiarras e olhando melhor para elas, vemos em muitos casos, expressão pura da inovação brasileira. No mundo automotivo, quando lá fora se distraíram um pouco com a crise, concebemos plataformas campeãs de vendas, lançamos dezenas de produtos vencedores e criamos veículos e aviões que conquistam o mundo.

Inovação não depende somente de tecnologia e nessa parte, damos show. Conhecemos as pessoas, entendemos suas expectativas não explicitadas. O Inovar-Auto é um dos mais representativos programas de fortalecimento compulsório das engenharias do setor que o Brasil já teve. O governo não diz “se você inovar, reduzo seu imposto.” Na verdade, ele diz “se não inovar e produzir como o país precisa, eu aumento seu imposto, tiro sua competitividade e acelero sua morte.”

Por pura resistência a mudanças, ainda vemos dezenas de executivos brilhantes dizendo que, “enquanto o Inovar-Auto não estiver super definido nos mínimos detalhes, não me mexo.” Complicar coisas simples é um clássico método de resistência a mudanças.

Outros inovadores saíram correndo e disseram “vamos aproveitar já o que até agora foi definido”. Estes estão assinando convênios com centros de pesquisa para atingirem suas metas, estão fazendo encomendas tecnológicas a fornecedores, abrindo frentes de eficiência energética e de segurança. Estes vencerão.

Na transição de um Brasil produtor para um Brasil inovador, as empresas precisarão ter um programa e uma estrutura interna da inovação funcionando. Da mesma forma que fomos capazes de ganhar produtividade no passado, temos de nos tornar capazes de inovar acreditando que somos inovadores e estruturando práticas e sistemas que garantam a inovação serial. A ABNT recém editou a Norma 16501 que orienta para as práticas do P,D&I. Já existem empresas, como a Delphi, certificadas ou em vias de.

É preciso montar comitês de gestão da inovação que integrem áreas de RH, engenharia, vendas e de finanças, já que boa parte dos recursos virão do governo. Se as linhas de incentivo forem bem gerenciadas, elas podem responder por 60% dos investimentos. Já pensaram que o Inovar-Auto vai injetar R$ 1,5 bilhão no sistema de P,D&I e Engenharia?

A pergunta que você tem que se fazer é: Como estamos estruturados para captar estes recursos? Será preciso melhorar a engenharia, mas também as administrações das engenharias, para a cumprir as exigências do Inovar-Auto?

Alguns consideram o Brasil atrasado em relação a outros países na área automotiva. Acredito que poderemos superar o atraso e competir em pé de igualdade. Temos um grande mercado que valoriza a inovação e se fascina com isso. Temos dinheiro do governo, incentivos e a mensagem está dada. No passado nos queixávamos da falta de políticas, agora as temos.

Enfim, montem suas secretarias técnicas e se estruturem para utilizar ao máximo os incentivos que o governo tem oferecido para administrar seus esforços de engenharia. Comecem a ver inovação como inovação e abram suas fronteiras para cumprirem a tarefa ao lado de seus clientes e fornecedores. Em cinco anos existirão dois tipos de empresas: as inovadoras e as falidas.


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