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Zeca Chaves

12/02/2021

O fim do carro popular: entenda por que ele vai morrer em breve

Três tendências empurram os modelos mais baratos do mercado brasileiro para os livros de história


Com as vendas em queda e comprado principalmente por frotistas, o Fiat Uno pode dar adeus este ano

Fevereiro de 1993. Quem imaginaria que uma simples canetada naquele mês teria o poder de moldar todo o mercado automobilístico nas décadas seguintes. Foi a data em que se assinou o protocolo do carro popular, que baixou o IPI a 0,1% para modelos com motor 1.0. Assim, seu preço despencou e as marcas inundaram as lojas com veículos despojados de equipamentos, que se tornaram objeto de desejo dos sem-carro. O segmento de entrada explodiu: sairia de 15,5% das vendas em 1992 para 69,8% em 2001.

Fevereiro de 2021. Quase 30 anos depois, esses modelos perderam a aura de desejável. Ao contrário, os consumidores torcem o nariz para um carro pelado de equipamentos e as concessionárias evitam deixá-lo na loja. Hoje o futuro desse segmento está em perigo, ameaçado por três tendências que decretarão o fim do automóvel popular. E cada uma delas isoladamente já seria forte suficiente para causar sua morte.

1) Consumidor não quer mais comprar



As estatísticas são reveladoras: mostram que o carro de entrada como conhecemos hoje tende a desaparecer em breve. Em 2001, os automóveis com motor de 1.000 cm³ atingiram seu auge, com 69,8% das vendas. Depois foram caindo até chegar a 33,1% em 2016. Ou seja, mais da metade do segmento derreteu.

A partir daí, porém, ele voltou a crescer. Mas nada tem a ver com o carro de entrada. Ao contrário. Foi a tecnologia do motor 1.0 turbinado que passou a equipar cada vez mais modelos, quase sempre maiores e mais equipados. Hoje se encaixam nessa categoria veículos como VW T-Cross (a partir de R$ 99.000) ou Chevrolet Tracker (R$ 92.850). Fica claro, assim, que esse parâmetro de comparação já não serve mais.

Por sorte, a Fenabrave divulga o ranking de vendas dos chamados “veículos de entrada”. Analisando os números desde 2003, temos um retrato mais apurado do quanto os carros mais baratos do Brasil estão sumindo do mapa. O gráfico abaixo já diz tudo: passaram de 49,1% em 2003 para 12,7% em 2020. Ou seja, 3/4 do segmento desapareceram. O que nos leva à segunda tendência do mercado.



2) Marcas não querem mais vender



Não é segredo para ninguém que os fabricantes decidiram sair dos segmentos que têm pouca margem de lucro, que é o caso dos veículos pequenos e com pouco conteúdo. Trata-se de um movimento mundial.

A Ford fechou suas fábricas no Brasil por ordem da matriz, que em 2018 resolveu deixar de investir nos automóveis de passeio e centrar esforços em SUVs e picapes, que oferecem margens mais gordas.

Carlos Tavares, o novo presidente da recém-criada Stellantis (fusão entre FCA e PSA), já deixou claro que não vai sacrificar suas margens apenas para ganhar mercado.

No Brasil, a Volkswagen abriu mão de perseguir a liderança para aumentar a lucratividade de seus produtos, apostando no dinheiro fácil proporcionado pelos SUVs.

Portanto, carros pequenos e baratos não fazem mais sentido no Brasil. Até porque os que sobraram hoje são comprados muito mais por frotistas e locadoras – que muitas vezes resultam em margens negativas para as fábricas.

Em 2003, as vendas diretas representavam 47,5% no VW Gol; em 2020, disparou para 71%. A situação do Uno é ainda pior: explodiu de 53,7% para 93,6%. Sem falar do encolhimento do volume total: antes o Uno vendia 96.466 unidades e, em 2020, não passou de 22.737 – o que explica a Fiat cogitar em tirá-lo de linha este ano. Conclusão: as marcas vendem menos carros de entrada e o pouco que vende não rende dinheiro.

Até a Europa está sofrendo. Os fabricantes locais reclamam que está difícil permanecer nesse segmento: alguns preveem que ele pode desaparecer em dez anos. Não bastassem os lucros diminutos, muitos modelos não conseguirão atender aos limites de emissão impostos pela legislação antipoluição. A saída seria eletrificá-los, mas isso só faria os custos aumentarem demais num nicho sensível ao preço. O que nos leva à terceira tendência.

3) Os preços vão ficar proibitivos



Se os consumidores já reclamam hoje do preço de carro 0 km em geral, eles podem se preparar para o que vem aí para os veículos de entrada.

O aumento da exigência do público e a inclusão de novas tecnologias para cumprir normas de segurança e emissões vão promover uma escalada de preços ainda maior nos automóveis mais baratos.

Do lado do consumidor, não para de aumentar a demanda por equipamentos de conforto que no passado eram dispensáveis. Em 2019, o ar-condicionado estava presente em 97% dos novos carros, o câmbio automático em 49% e a central multimídia em 40%.

Do lado da legislação, em 2024 o teste de impacto lateral será exigido para a homologação dos automóveis vendidos no país e vão se tornar obrigatórios controle de estabilidade, luzes de uso diurno (DRL), indicação de cintos desfivelados e ajuste de altura dos faróis.

Com limites de emissões mais rigorosos, também temos pela frente a nova fase do Proconve (equivalente ao Euro 6 adotado na Europa em 2014), prevista para 2022, mas que deve ser adiada por causa da pandemia. Ainda assim, não dá para escapar: os futuros motores terão de ser cada vez menos poluentes e, portanto, mais sofisticados e caros.

No fim das contas, a inclusão de tantos equipamentos pesará muito mais na planilha de custos dos modelos de entrada, pois esse acréscimo de conteúdo será proporcionalmente muito maior, o que acabará com seu grande atrativo: o preço. Será o fim do carro popular.

Fevereiro de 1993 nunca esteve tão distante.


Deixe abaixo seus comentários desta coluna ou envie sugestões para as próximas: zeca.chaves@gmail.com; ou visite minha página no LinkedIn.

Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • HumbertoPlais

    Boaanálise e ao final ficam duas questões relevantes: O que é carro popular? Sim, porque os líderes de vendas ainda são os herdeiros dos carros populares, como o Onix, herdeiro do Corsa. O que acontece, e já era necessário há algum tempo, é que as montadorass estão reduzindo suas plataformas e sua oferta, pois venhamos e convenhamos o número de modelos fabricados no mercado brasileiro é excessivo de qualquer ponto de vista, pricipalmente quando se olha a escala industrial. Então, voltando ao Onix, ele é popular mas também se estende a segmentos mais altos. Faz todo sentido. A segunda questão é: o que vai comprar o consumidor do carro popular? Se este produto está se tornando mais caro, o que dizer dos segmentos mais altos como as SUVs? Voltamos à questão do conceito do que é popular. O nicho de entrada vai permanecer para os que decidirem ficar e naturalmente as margens vão se recuperar, afinal é a dinâmica de mercado: menos margem leva a redução de players, e logo a redução de players recompõe a margem (o segmento de aviação nos mostra este ciclo recorrentemente).

  • Wilson

    Fatoressim, que juntos, estão levando as montadoras a focar em SUVs e veículos com maior conteúdo (que na logística, se traduz em menor variabilidade de versões, escala de compras e maior lucro). Mas é preponderante o fato de encarecimento do veículo "popular", aliado ao aumento da desigualdade social, onde fica cada vez mais caro e inacessível, hoje na faixa dos 70mil, com pouco equipamentos. E aqueles que podem comprar, exigem mais equipamentos para um melhor custo x benefício. E o aumento de vendas para Locadoras deu-se somente pelo custo devido à isenção de IPI e ICMS, aliado à documentação em estados com menor alíquota de IPVA, com custo reduzido em cerca de 20 à 30%. E no futuro, provavelmente, teremos SUVs usados no lugar dos então populares, mas com forte depreciação, devido ao custo de manutenção devido á tecnologia embarcada.

  • EduardoFerraz de Alvarenga

    Excelentematéria! Didática e concisa. Apenas a acrescentar que, antes da quase extinção dos modelos "populares" - qualquer modelo de entrada hoje situa-se entre 40 e 50 mil - veremos o fim dos modelos aspirados, dando lugar aos novos motores turbinados de baixa cilindrada (1.0 a 1.4), mais econômicos e mais potentes.

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