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Opinião | Pedro Kutney |

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Pedro Kutney

19/11/2020

Crescimento é forte, mas insuficiente

Expansão do mercado é limitada por falta de insumos, aumento de custos e economia fraca

Passados dez meses de 2020, oito deles sob o forte impacto da pandemia de coronavírus nos negócios, entre muitas incertezas provocadas pela crise sanitária sem precedentes há pelo menos duas certezas: a primeira, que o mercado nacional de veículos assumiu trajetória constante de recuperação (felizmente) com crescimento mês a mês mais alto do que se imaginava até o meio do ano; a segunda, que ainda assim (infelizmente) não será suficiente para compensar as enormes perdas humanas e econômicas causadas pela Covid-19, que talvez não sejam integralmente recuperadas nem no próximo ano.

Ao que tudo indica até o momento, incluindo os primeiros movimentos do mercado em novembro com mais de 100 mil carros vendidos na primeira quinzena, as vendas de veículos no Brasil em 2020 deverão totalizar número próximo de 2 milhões de unidades, o que representará retração na casa dos 30%, conforme já era previsto por algumas consultorias desde abril e passou a ser considerado pela Anfavea, a associação dos fabricantes, a partir de outubro passado – antes, em julho, a entidade estimada que o tombo seria de 40%. Seja como for, a recessão de 30% ou 25% é grave, deixa sequelas, algumas não recuperáveis.

Para 2021, boa parte das estimativas – nenhuma delas ainda chancelada pela Anfavea – converge para vendas internas de 2,5 milhões de veículos, em crescimento de 25% sobre 2020. Parece factível, pois o mercado já está girando este número anual baseado no ritmo mensal atual pouco acima de 200 mil unidades emplacadas por mês. Ainda assim, o resultado ficaria 12% abaixo do realizado em 2019 (2,8 milhões) e 20% menor do que era esperado para este ano (3 milhões) antes da pandemia arrasar o cenário.

O problema é que o tamanho do mercado doméstico brasileiro projetado para os próximos anos, pelo menos até o meio da década, é insuficiente para manter funcionando fábricas no País que têm potencial para produzir 4,5 milhões de unidades/ano e no momento não utilizam nem metade da capacidade instalada.

Este ano a produção total no Brasil deve ficar em torno de 1,9 milhão, 35% menor do que a verificada em 2019, e ao que tudo indica mal deverá chegar aos 2,5 milhões em 2021. Isso porque a indústria nacional é visceralmente dependente do mercado interno e de um só externo, a Argentina, que compra mais da metade das exportações brasileiras de veículos e sempre está em crise. Com isso, as vendas externas dificilmente passam de 20% da produção (em anos bons) e com a pandemia tudo piorou: a estimativa da Anfavea é que seus associados vão exportar apenas 284 mil unidades este ano, menos de 15% da produção projetada. Mesmo que as exportações crescessem 50% em 2021, o que parece improvável, representariam pífios 17% do que se espera produzir.

LIMITAÇÕES AO CRESCIMENTO



Claro que a recuperação dos negócios em velocidade mais elevada traz certo alívio, mas também pode transmitir a falsa impressão que a crise acabou. Longe disso, até porque a pandemia não acabou – muito pelo contrário, voltou a apresentar viés de expansão de contágio e mortes, o que pode provocar a regressão dos progressos conquistados até agora. Com a doença ainda ativa e os estragos econômicos que ela deixa, o cenário de expansão previsto para 2021 não está garantido.

Um dos legados nefastos da pandemia é a desorganização que ela causou em todas as cadeias produtivas, paralisando fábricas e esgotando estoques. O efeito disso apareceu em sua plenitude nos últimos três meses, com a retomada dos negócios em níveis acima do esperado: há relatos que falta de tudo um pouco para abastecer a produção, aço, plásticos, componentes e até papelão para embalagens.

Pior: além da falta, os insumos estão ficando mais caros, a inflação industrial já encosta nos 20% este ano, impulsionada pela alta do dólar e encarecimento de matérias-primas de forma generalizada. Será inevitável o repasse dos aumentos de custos aos preços finais ao consumidor, o que faz o mercado encolher.

O grande paradoxo desta crise é que o crescimento poderia ser ainda maior, mas está sendo limitado pela falta de peças e produtos. Isso acontece porque muitas empresas esperavam por cenário pior e acabaram pesando demais a mão nos cortes de pessoal e produção – e algumas já precisaram recontratar. Outro fator limitante é que para voltar ao trabalho as fábricas precisaram adotar cuidados sanitários para reduzir o risco de contágio pela Covid-19 entre os funcionários, o que reduziu o ritmo das linhas.

O resultado dessa combinação é que agora não é possível atender todos os pedidos, nem será por algum tempo à frente, porque ninguém vai voltar a investir em contratações e expansão da produção sem ter certeza se o aquecimento atual vai continuar ou é apenas um movimento passageiro, ainda fruto da demanda reprimida pelos meses de quarentena.

Também não se pode menosprezar os efeitos da pandemia sobre a economia que foram mitigados por grandes injeções de capital do governo, como o auxílio emergencial que salvou mais de 60 milhões de pessoas da fome, liberação de mais recursos aos bancos e programas de manutenção de empregos em que o Estado arcou com parte do pagamento de salários. O problema é que isso jogou a dívida pública à estratosfera, equivalente a 100% do PIB, e essa conta deverá começar a ser paga a partir do ano que vem, iniciando pelo fim dos programas emergenciais. Nesse cenário, o desemprego que já atinge níveis recordes de 13% da população ativa poderá crescer ainda mais, outro fator que provoca o encolhimento do mercado.

Em resumo, não são poucas as barreiras postas ao crescimento, todas de difícil superação. Será preciso mais do que efêmeras filas de espera por alguns produtos para recolocar a indústria em uma rota sustentável de expansão. Mesmo com as vacinas que chegarão, por muito tempo a sociedade terá de conviver com as sequelas físicas e econômicas deixadas pela Covid-19.

Comentários

  • LUCIANOSILVA PREDEBON

    Muitoboa a análise! Parabéns!

  • MarcosSantos

    Análisecompleta. Porém com viés negativo, em minha opinião. Seria interessante ao invés de apenas apontar as barreiras para o crescimento, pontuar as oportunidades que estas trazem para o mercado como um todo. Desta forma, creio eu, disseminaria reflexões importantes entre importantes executivos que acompanham este importante canal de comunicação.

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