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Opinião | Bruno Neri |

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Bruno Neri

14/10/2020

O futuro da indústria automotiva e o profissional da qualidade

Os novos desafios tecnológicos da indústria exigem passos adicionais na capacitação dos profissionais da qualidade

Muito se discute atualmente entre os participantes da cadeia automotiva a respeito da evolução futura do automóvel, nas áreas de digitalização, eletrificação, conectividade e compartilhamento. Porém, há mais de três décadas, quando sistemas eletrônicos começaram a ser desenvolvidos para o controle do funcionamento dos motores, a evolução tecnológica cada vez mais acelerada tem trazido desafios para a gestão da qualidade nas empresas.

Tais desafios puderam ser superados à medida que se capacitou para a qualidade profissionais com diferentes formações técnicas, como mecânicos, químicos, eletroeletrônicos, especialistas em materiais, computação e processamento de dados. De fato, ao longo deste período, mesmo diante da complexidade e crescentes exigências dos clientes e legisladores, a cadeia automotiva produziu uma notável evolução da performance, eficiência, sofisticação e durabilidade dos veículos.

Mais uma vez, no entanto, encontramo-nos diante de novos desafios tecnológicos que requerem passos adicionais na capacitação dos profissionais da qualidade. Os veículos caminham para um nível bastante avançado de integração dos diferentes domínios veiculares. Isto requer do profissional da qualidade uma elevada habilidade de networking, já que se torna cada vez mais impraticável dominar todos os conteúdos técnicos envolvido num sistema veicular complexo. Ganha importância neste contexto o profissional com visão integrada das inter-relações do sistema, considerando sensores, atuadores, circuitos elétrico-eletrônico, software e processamento de dados, além do conhecimento específico de sua área de formação técnica.

São igualmente essenciais as competências interpessoais, de comunicação e de gestão de informações, para que este profissional possa transitar de maneira ágil e eficaz entre diferentes especialistas técnicos, obtendo para cada situação os conhecimentos necessários. A habilidade de comunicação é essencial, considerando que estes especialistas podem estar em diferentes empresas e até países, à medida que cada vez mais se divide entre diferentes fornecedores o desenvolvimento e a produção dos componentes do veículo, bem como dos dispositivos eletrônicos, software e calibração que os controlam.

Até 2030, a mobilidade pessoal compartilhada deve se tornar significativamente presente nos mercados automotivos maduros, e num futuro um pouco mais distante, também no Brasil. Ela altera significativamente a orientação do profissional da qualidade quanto a orientação ao cliente.

Num futuro de mobilidade compartilhada, o cliente a quem devemos estar orientados será cada vez menos o comprador/usuário do veículo, como usualmente é hoje, e cada vez mais o conjunto de todos os potenciais usuários de um veículo compartilhado. A intensidade de utilização do veículo compartilhado e a quilometragem rodada por cada unidade tendem a ser exponencialmente maiores, principalmente em centros urbanos. Neste contexto, perdem relevância atributos da satisfação do cliente relacionados à propriedade do veículo, como por exemplo a estética e a alta performance. Por outro lado, ganham relevância atributos relacionados à confiabilidade do veículo, como durabilidade, disponibilidade e a facilidade e robustez de operação dos dispositivos de infotainment do carro.

Adicionalmente, o cliente da mobilidade compartilhada terá um olhar diferente sobre o desgaste e a manutenção do veículo, que não é sua propriedade. Fica reduzida, portanto, a experiência na rede de concessionárias e pós-vendas das marcas de veículos, tema hoje tão central nas discussões sobre satisfação dos clientes.

Dependendo do ramo da cadeia automotiva em que atue, as mudanças para o futuro profissional da qualidade poderão vir a ser ainda mais expressivas. Num cenário de compartilhamento de veículo que não é de sua propriedade, o foco central da satisfação do cliente deixa de ser o automóvel em si, com todos os atributos de satisfação já amplamente discutidos. Aqui, crescem os serviços que envolvem o veículo compartilhado, como por exemplo aplicativos de car-sharing e os relacionados a recarga de veículos elétricos.

Enfim, mudanças importantes colocam-se desde já no horizonte da qualidade automotiva. Todavia, no estudo Qualidade 2020, conduzido pela AIAG juntamente com representantes dos OEM, especialistas do setor já apontavam os fundamentos essenciais para o profissional da qualidade, que formam a base de sua especialização, adaptando-se aos diferentes contextos técnicos:

- Habilidade na solução de problemas complexos;

- Habilidade na gestão de requisitos específicos de clientes;

- Conhecimento dos sistemas de gestão da qualidade

- Competências de desenvolvimento do produto (compliance do produto e desenvolvimento para eficiência operacional na manufatura).

O IQA - Instituto da qualidade Automotiva - é reconhecido no mercado pela sua sólida experiência de 25 anos na capacitação de profissionais e suporte às empresas do setor. Por meio do relacionamento com as entidades de classe das fabricantes de autopeças e automóveis, e de convênio com entidades congêneres no exterior, o instituto é capaz de prover capacitação nestes fundamentos e outras competências importantes para o desenvolvimento dos profissionais da qualidade.

*Bruno Neri é diretor executivo do IQA.

O IQA – Instituto da qualidade Automotiva - é um organismo de certificação sem fins lucrativos especializado em mobilidade. Criado em 1995 por entidades do setor e do governo, o IQA oferece soluções que fomentam a qualidade e a produtividade nos canais de produção e pós-vendas, como certificação de produtos, serviços e sistemas de gestão; treinamentos; manuais e ensaios de laboratório. É parceiro de organismos internacionais e acreditado pela CGCRE (Coordenação Geral de Acreditação) do Inmetro.

Comentários

  • JoãoAmâncio

    Excelenteartigo, Bruno. Além de tudo que você escreveu acima, entendo que temos de qualificar os profissionais de Qualidade nos quesitos relacionados à Data Science, Analytics e Machining Learning dentre outras tantas possibilidades na era da indústria 4.0 e digitalização dos processos. Mesmo na ASQ (American Society for Quality) vejo ainda uma certa inércia em colocar ênfase desses quesitos no corpo de conhecimento (BoK) de suas certificações.

  • LuizSergio Alvarenga

    Esteartigo do brilhante Bruno Neri é um dos mais lúcidos no que tange o impacto ds mobilidade e suas derivações com o ser humano. Parabéns, excelente!

  • ValdemirBertin

    Muitobem colocado Bruno. Principalmente aos quesitos adicionais deste novo cenário, que tangem a confiablidade dos produtos x custos x Product compliance. Este balanceamento nos novos desenvolvimentos e validações por si só trazem muitos desafios na cadeia produtiva e sobre os profussionais da qualidade dentro de cada organização.

  • Paulode Souza

    Bruno,além das habilidades supra citadas, a capacidade de comunicação concordo plenamente que é essencial para o profissional transitar nos mais diversos segmentos de fornecedores sempre com agregação valor aos requisitos de clientes...

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