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Zeca Chaves

14/08/2020

Ford Territory faz bonito entre os SUVs médios. Mas não será páreo para o Compass

As qualidades do novo modelo chinês não devem compensar o erro na estratégia do preço em um mercado que cresceu 33% em dois anos


Com preço a partir de R$ 165.900, o Ford Territory é mais caro que Compass, Tiguan e Equinox (Fotos Divulgação)

O Jeep Compass é um assombro. Goste-se ou não dele, temos de reconhecer que é um legítimo fenômeno de vendas. Quando ele foi lançado no Brasil, em setembro de 2016, os outros SUVs médios ocupavam uma fatia inexpressiva no mercado. Eram carros de nicho. Depois que o Compass deu as caras, o cenário mudou. Em 2017, fechou o ano como o nono automóvel mais vendido do país, segundo a Fenabrave, à frente de modelos de entrada como VW Up!, Toyota Etios e Hyundai HB20S, que custavam menos da metade. E todos os demais que vinham abaixo dele até a 40ª posição no ranking eram mais baratos.

O sucesso do Compass despertou a cobiça da concorrência. Em setembro de 2017, a Chevrolet apresentou o Equinox, que tinha o motor potente como ponto forte. Em 2018, a Volkswagen renovou o Tiguan, que ficou muito maior. Mesmo assim o Compass seguiu firme e forte: sozinho representa 56% das vendas da categoria. Quer dizer que ele vende mais do que todos os outros rivais somados – são mais de 10.

Como o segmento dos SUVs médios cresceu 33% em apenas dois anos (de 74.444 unidades em 2017 para 99.060 em 2019), é natural que outros queiram beliscar um pedaço desse bolo. E o primeiro da fila é o Ford Territory, que desembarca nas lojas em setembro.

Tive a oportunidade de dirigir o modelo por uma semana e gostei do que vi. Não fossem três problemas, ele teria potencial para causar estragos no Compass.

Comecemos pelo que ele tem de bom. O design chamou a atenção de todos com quem conversei. Na garagem do prédio, virou uma atração. Mas se você achou que as linhas revelam uma dose do antigo Land Rover Evoque na lateral e traseira, não está sozinho.


O espaço interno é impressionante. Dá para cruzar as pernas sem dificuldade

O ponto forte, porém, está lá dentro. O espaço no banco traseiro é quase um exagero. Literalmente dá para cruzar as pernas – apesar do espaço para cabeça reduzido para quem tem mais de 1,80 m. E ainda acomoda três pessoas lado a lado sem apertos.

O nível de equipamentos e tecnologia é outro benefício. A versão básica SEL vem com teto solar panorâmico, central multimídia de 10,1 polegadas com Apple CarPlay sem fio, faróis e lanternas de LEDs, seis airbags, ar-condicionado automático (de uma só zona, mas com saídas de ar na traseira) e quatro entradas USB.

Diferencial mesmo é o recurso FordPass Connect. Por um aplicativo do celular, dá para ver informações como quilometragem, nível de combustível e calibragem dos pneus, travar e destravar portas a distância, checar no mapa onde está o veículo e até ligar o motor e acionar o ar-condicionado ainda dentro da sua casa.

Se o Territory é espaçoso, confortável, bem equipado e cheio de tecnologia, então por que ele não será páreo para o Compass? A principal razão está na estratégia de preço adotada pela Ford.

Começando em R$ 165.900 com opção única de motor 1.5 turbo (150 cv), ele está distante dos R$ 121.990 do preço básico do Jeep Compass 2.0 (166 cv). Na verdade, está acima até do Compass 4x4 diesel (170 cv), hoje vendido por R$ 161.990. Há ainda o Territory Titanium, que custa salgados R$ 187.900.

Na briga pelo preço, o lançamento da Ford também perde para os demais rivais. O Tiguan 1.4 turbo (150 cv) começa em R$ 143.990 e o Equinox 1.5 turbo (172 cv) sai de R$ 137.260.

É bom deixar claro que o Territory traz mais equipamentos que os equivalentes da concorrência. No entanto não dá para negar que a diferença de preço é grande demais.

Melhor teria sido depenar o Territory para baixar seu custo e permitir que mais pessoas pudessem comprá-lo e funcionassem como propaganda informal. Seja divulgando no boca a boca ou apenas despertando a curiosidade dos vizinhos de garagem. O fenômeno PcD comprova que essa estratégia de SUVs mal equipados funciona muito bem no Brasil.

Se o preço alto não for suficiente para afastar o comprador interessado, outros dois inconvenientes podem ajudar a restringir o potencial de vendas.

Modelos importados da China ainda têm uma grande resistência no mercado de automóveis. A Chery só perdeu esse estigma quando os veículos passaram a ostentar a marca Caoa e ser produzidos por aqui, apesar de terem o mesmo projeto da versão chinesa e usarem boa parte das peças importadas de lá. E não podemos nos esquecer do caminhão de dinheiro que a Caoa tem investido em publicidade para relançar a marca como sendo “100% brasileira”.


Porta-malas decepciona: com 348 litros, ele é menor que o do irmão menor EcoSport

Por fim, há o porta-malas, um atributo muito valorizado para donos de SUVs, especialmente os modelos médios. Quem abrir a tampa traseira para conferir o espaço da bagagem vai se decepcionar. Os números ajudam a entender do que estamos falando. O Territory oferece 348 litros, o Compass tem de 390 a 410 litros, o Equinox traz 468 e o Tiguan conta com 710. Para encerrar esta discussão, basta dizer que o Territory tem porta-malas menor do que o EcoSport, que vai de 356 a 362 litros.

Nem vou colocar em pauta o motor, criticado por parte da imprensa especializada. Pessoalmente eu não acredito que isso seja um problema, já que seus 150 cv e 22,9 kgfm (em conjunto com o câmbio CVT de 8 marchas simuladas) dão conta do recado apesar de não empolgar. Afinal, se desempenho fraco e consumo alto fosse determinante para decretar o fracasso de um SUV, Renegade e Compass nas versões flex não teriam sido líderes do seu segmento.

Assim, resta à Ford seguir os passos da Caoa e gastar um caminhão de dinheiro na publicidade para o Territory mostrar suas qualidades. E torcer para ninguém comparar os preços com a concorrência.



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Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

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