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Zeca Chaves

18/07/2020

A difícil arte de relançar uma lenda

Qualquer erro no design, preço e proposta podem decretar o fracasso (ou sucesso) de ícones como Strada, Defender e Bronco


O Ford Bronco volta ao mercado depois de uma pausa de 25 anos

Lançar um carro é sempre difícil, mas relançar uma lenda é um desafio de vida ou morte. Em mais de 20 anos como jornalista, acompanhei os bastidores de centenas de lançamentos. Valia tudo para encantar os olhos na apresentação oficial: show de luzes, atores famosos, corrida na neve, estreia no deserto e até – acredite – sorteio de brindes para a imprensa.

Se as fabricantes montavam essa operação de guerra para um automóvel que ganhava apenas faróis novos, dá para imaginar a tremenda pressão que é inaugurar a nova geração de um modelo que marcou a história da empresa.

O maior erro é confiar que a tradição do nome é o principal ativo de um ícone, que é meio caminho para garantir a continuidade do êxito de vendas. Pena que não é verdade. O nome é importantíssimo, mas é só o ponto de partida. A receita do sucesso de uma lenda precisa de três ingredientes bem dosados para fazer o bolo crescer: design, proposta e preço.

A história está repleta de mitos que derraparam no meio da curva por não respeitar essa lista tríplice. O Ford Thunderbird voltou à vida em 2001 com um visual retrô exagerado e quase nada que lembrasse o espírito de 1954. A quarta geração do Chevrolet Camaro (1992) ficou conhecida como a mais feia da linhagem. Em 1997, a Volkswagen modernizou o Fusca após 60 anos inalterado, mas esqueceu da simplicidade e do baixo custo.

Falando em Fusca, nem o modelo original se deu bem no Brasil quando foi ressuscitado a pedido do presidente Itamar Franco. Apesar de manter as linhas clássicas dos anos 30, a proposta e o preço já não combinavam com o mercado de 1993.

Todo esse preâmbulo nos leva aos três nomes de peso que estrearam nas últimas semanas: Fiat Strada, Land Rover Defender e Ford Bronco. Será que todos eles seguiram a lista tríplice? Qual deles está mais predestinado ao sucesso? Façam suas apostas!

Strada: time que está ganhando...




Tudo que agrada na antiga Fiat Strada foi mantido na nova versão

OK, é verdade que a Strada havia sido mostrada à imprensa especializada, porém só agora a Fiat lançou a campanha publicitária. O.comercial revela o tamanho da ambição: Elvis Presley dirige a picape em situações cinematográficas embalado pelo slogan “A lenda se superou”.

Claro que classificar a Strada de lenda é típico da linguagem hiperbólica dos anúncios, mas não dá para negar que a picapinha já faz parte da história brasileira do automóvel. Nascida em 1998, era basicamente o mesmo projeto até agora, quando veio uma nova geração de verdade.

Ela vai dar certo? Sem dúvida, porque a Fiat fez bem a lição de casa ao não descuidar dos três ingredientes básicos. O desenho é o que se esperaria de uma Strada e dá até um passo à frente, ao herdar os bem-sucedidos genes da sua irmã maior, a Toro.

A proposta está bem calibrada: agrada quem deseja um utilitário cumpridor de tarefa e também quem busca um veículo de lazer com pegada urbana e uma pitadinha de aventura. Não esqueceram nem do toque de inovação que sempre marcou a Strada. Agora ela é a primeira quatro portas do segmento.

Por fim, o preço está dentro do previsto. Há uma grande gama de opções, indo de R$ 63.590 a R$ 79.990, fora os opcionais. Até a versão antiga de 1998 vai continuar à venda por R$ 61.590. Afinal, tem gente quer só o básico para o trabalho.

Defender: alguma coisa se perdeu




O novo Defender tem espírito off-road do original. E o restante?

Seu nome é a expressão máxima do fora de estrada. Logo, é impossível recriar um Defender sem que ele seja o bicho-papão das trilhas. E a Land Rover não decepcionou no SUV recém-apresentado no Brasil. Ele atravessa alagados com 90 cm de profundidade e traz de série suspensão e tração 4x4 que se adaptam a qualquer tipo de terreno, além de vários outros recursos.

Se suas credenciais off-road são indiscutíveis, o mesmo não se aplica ao restante. Comecemos pelo preço. No Brasil, ele parte de R$ 400.750. É muito dinheiro para quem está mais preocupado em encarar trilha do que rodar no asfalto da cidade.

Existem no mercado opções mais baratas de 4x4 valentes. Inclusive dentro da própria Land Rover. Na Inglaterra, os fãs também estão chiando. O novo Defender começa em 40.000 libras (R$ 268.000), devido às doses elevadas de tecnologia e equipamentos. Muito acima das 23.000 libras (R$ 154.000) que custava a antiga geração em 2016, quando saiu de linha.

A essência de um Defender era seu desenho tipo caixote e os faróis redondos. Era assim desde que veio ao mundo, em 1948. Agora olhe para as duas gerações nas fotos acima e diga se um parece ser parente do outro. Perdeu a cara de durão do campo, ganhou um ar sofisticado de playboy de shopping.

Não vale alegar que carrocerias curvas e faróis mais complexos fazem parte da indústria atual. A Mercedes-Benz reformulou o jipão abrutalhado Classe G em 2018. Após 40 anos com faróis circulares e linhas quadradonas, ele foi todo reprojetado de modo que ficasse igual. Ao ponto de muita gente nem perceber a diferença.

Ironicamente, a Ford também acabou de resgatar uma lenda off-road. E sabe o que ela fez? Tudo o que a Land Rover não fez. É o que veremos a seguir.

Bronco: acerto triplo




O público viu no novo Ford Bronco o mesmo DNA do original

Para os brasileiros, o Ford Bronco é um nome sonoro, mas sem significado. Para os americanos, é um clássico que emocionou gerações. Alguns defendem ainda que foi o pioneiro dos SUVs: em 1965, ele aliou conforto com robustez no fora de estrada. Até que se despediu em 1996, porque só tinha duas portas num mercado que exigia quatro.

O desafio atual da Ford é muito maior que o de Fiat e Land Rover. Fora do mercado há 25 anos, um novo Bronco poderia não falar ao coração do público mais jovem. Existe ainda o risco precisar criar seu espaço no mercado a partir do zero, justamente no disputadíssimo segmento dos SUVs.

Tudo indica, no entanto, que a aposta arriscada deu certo: público e crítica nos EUA amaram. Todos os elementos estéticos do antigo Bronco estão lá. É impossível ver um e não pensar no outro.

A ousadia da Ford não ficou só no design. O espírito do SUV original está ao longo de todo o conceito do projeto. Há três versões. O Bronco 2-portas e o 4-portas são destinados ao off-road: têm carroceria sobre chassi de longarinas, tração 4x4, reduzida e bloqueio de diferenciais. Já o Bronco Sport é maior, mais urbano, feito sobre o monobloco do Escape e traz tração 4x2.

Os preços também atraem: o Bronco 2-portas começa em US$ 28.500 (R$ 152.000), o 4-portas em US$ 33.200 (R$ 177.000) e o Sport em US$ 26.660 (R$ 142.000). E as versões mais caras podem custar o dobro – ainda não sabemos quanto ele custará no Brasil. É muito próximo do seu principal concorrente, o Jeep Wrangler.

Aliás, o Bronco foi idealizado para superar o lendário Wrangler. O curso da suspensão é 17% mais longo, há mais de 200 acessórios exclusivos e não faltou um câmbio manual. Pensaram até em teto e portas removíveis, que podem ser guardadas no porta-malas. As portas do Wrangler não cabem no interior e ainda levam junto os espelhos, que no Bronco ficam na carroceria.

Mais que um carro, ele foi concebido para ser um estilo de vida: o Bronco será uma marca própria. Por isso não vemos logotipos da Ford na dianteira ou no interior. A estratégia de um modelo virar uma marca é uma tendência atual, como vimos recentemente em Citroën (com a estilosa DS), Dodge (com as picapes Ram), Land Rover (com a luxuosa Range Rover) e Volvo (com a elétrica Polestar).

Desse modo, a Ford planeja criar um ecossistema Bronco, no qual todos sonham com a versão raiz, mas a maioria compra a versão Nutella. E, assim, o mercado inteiro fica feliz. Com exceção da concorrência.



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Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • CASSIOPAGLIARINI

    ParabénsZeca, como sempre artigos intensos e gostosos de se ler.

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