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Opinião | Thiago Costa e Aedson Pereira |

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Thiago Costa e Aedson Pereira

30/06/2020

Pujança do agronegócio garante fôlego ao setor de transportes

As perspectivas para o setor que está puxando as vendas de caminhões

O agronegócio ganhou destaque como grande impulsionador de caminhões desde a década passada. Ainda no fim da crise econômica global de 2008/2009, a conjuntura nacional possibilitou investimentos em diversos setores da economia - e o agronegócio não foi exceção. A iniciativa do governo de oferecer crédito com longo prazo para pagamentos com juros baixos, juntamente com a chegada de novas medidas restritivas de emissões, colocou o Brasil no topo do mundo com relação a caminhões e esse posto tem sido mantido graças à demanda crescente e estruturada do agronegócio.

Mesmo que alguns percalços ao longo dos últimos 10 anos, a demanda por caminhões utilizada no agronegócio vem ganhando notoriedade no mercado interno e se destacado no cenário internacional de forma a manter o país em evidência. Segundo os dados de vendas para caminhões da IHS Markit, ao longo de 2019 o Brasil ocupou o quarto lugar em vendas de caminhões acima de 6t de Peso Bruto Total (PBT) no mundo. Com quase 96 mil unidades vendidas, o país ficou atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia - e o fôlego para esta performance vem do campo.

Caminhões com câmbio automatizado, articulados, com potência acima de 450 CV e nas configurações 8x4 ou 6x4 são os mais requisitados para o uso no agronegócio. Tais modelos representaram 21% das vendas em 2019, e no acumulado de janeiro a maio de 2020 já respondem por 19,7% dos emplacamentos. Vale lembrar que é o segmento que manteve sua performance mesmo frente a um cenário de pandemia.

A série histórica de vendas de caminhões pesados (acima de 15 toneladas de PBT), com a performance do PIB do agro ao longo dos anos, mostra que os investimentos não foram exclusivamente no campo. O modal rodoviário ainda é o preferido no transporte de grãos, mas mudanças foram implementadas ao longo dos últimos anos. O aumento de portos que escoam a produção de grãos - juntamente com maior participação das ferrovias - não diminuiu a demanda por caminhões com essa finalidade, embora as caracteristicas dos veículos tenham sofrido melhorias ao longo dos anos.

A RELAÇÃO ENTRE O PIB AGROE A VENDA DE CAMINHÕES PESADOS DESDE 2007





Fonte: IHS Markit
Industry Sales Forecast, June, 2020 Brazil
Economy Detailed Quarterly forecast, May, 2020

O fluxo de movimentação de cargas entre os principais modais logísticos do Brasil apresentou resultados surpreendentes nos primeiros meses de 2020 em termos de volumes transacionados no período, reflexo da firme demanda internacional pelas principais commodities brasileiras associada às expectativas de maior produção no país. Embora a crise provocada pela Covid-19 tenha gerado impactos negativos em diferentes setores de atividades, a exceção foi o agronegócio. A colheita de uma safra recorde de soja no Brasil, por exemplo, aconteceu num momento em que o dólar atingiu patamares históricos frente ao real, ao mesmo tempo em que a demanda global pela leguminosa e seus derivados disparou.

De acordo com dados da Secex/Mapa, o volume de soja em grão e farelo de soja exportado pelo Brasil no acumulado de janeiro a maio de 2020 cresceu 31,7% em comparação ao mesmo período de 2019, com cerca de 55,0 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil. Para 2020, o time de especialistas em agronegógio da IHS Markit, projeta que cerca de 78,0 milhões de toneladas de soja devem sair dos portos brasileiros para os mais diversos países e outros 16,5 milhões de toneladas de farelo serão exportados no período. A soma chega a 94,5 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil, crescimento de 4,1% frente a 2019. Além do setor produtor de soja, há outros importantes setores do agronegócio que tendem a manter um firme fluxo de movimentação de cargas em 2020. Apesar da maior disputa pela demanda internacional com Argentina e EUA, o Brasil ainda deverá enviar uma grande remessa de milho ao mercado externo, podendo somar cerca de 32,5 milhões de toneladas em 2020, recuo frente ao recorde de 42,7 milhões de toneladas exportadas em 2019, mas o segundo maior volume dos últimos anos.

As perspectivas apontam também para um significativo fluxo de embarque de açúcar pelo Brasil ao exterior devido aos problemas com a produção indiana e maior competitividade do produto brasileiro, podendo somar mais de 25,0 milhões de toneladas em 2020, um crescimento em torno de 40% em relação ao ano passado. Outros produtos do agronegócio brasileiro, como café, proteína animal (bovino, frango e suínos), suco de laranja, etc., também devem apresentar força a expansão na demanda por fretes.

A rentabilidade das culturas de grão também eleva as expectativas para maior demanda por fertilizantes para nova safra, com crescimento em torno de 2% para esse insumo, devendo o Brasil importar cerca de 30 milhões de toneladas em 2020. Na contramão de outros setores, o agronegócio brasileiro crescerá e o transporte de carga vê uma grande oportunidade neste contexto. As informações mencionadas fazem parte do relatório mensal Comag (Consultoria de Mercado Agrícolas) elaborado pela IHS Markit, em São Paulo.

O QUE ESPERAR PARA OS PRÓXIMOS ANOS


A crescente demanda por grãos ao redor do mundo e a vocação do Brasil para o agronegócio deverá permanecer ao longo dos anos, assim como a parceria dos caminhões para mover toda essa riqueza. A chegada de novas tecnologias para o setor de caminhões deverá trazer melhor performance no transporte com redução de custos para o operador. Com o aumento do modal ferroviário ou cabotagem, as rotas dos caminhões deverão ser menores, porém o uso em condições severas será intensificado de forma a mudar as características dos veículos e o volume no longo prazo. Por isso nossa projeção de caminhões para o longo prazo prevê uma curva de crescimento mais suave ao longo dos anos por entender que a demanda deverá ser gradual e robusta ao longo dos anos, mantendo assim a importância do caminhão e suas adaptações às mudanças.

Thiago Costa é analista de produção e vendas de veículos pesados e Aedson Pereira é analista de mercado de agrobusiness, ambos da IHS Markit, consultoria que atua na oferta de informações, análises e soluções críticas para os principais setores e mercados que orientam a economia em todo o mundo. Sediada em Londres, a companhia tem como um de seus pilares o compromisso com o crescimento sustentável e rentável.

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