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Opinião | Zeca Chaves |

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Zeca Chaves

06/06/2020

Fogo amigo: quando o rival está dentro de casa

O novo SUV Nivus traz de volta o velho risco da briga em família, como já vimos em Fiat, GM e até na própria VW. Será que vai dar certo?

Às vezes uma briga dentro de casa pode gerar bons frutos. Dois irmãos produziam calçados na Alemanha dos anos 40, Adolf Dassler cuidava da criação e Rudolf, da parte comercial. Um dia se desentenderam e cada um construiu sua fábrica num lado da cidade. Isso deu início a uma enorme rivalidade local: lojas e moradores tinham que escolher qual marca apoiar. Até o namoro entre pessoas de “facções” diferentes era um problema. Nasciam, assim, as gigantes Adidas e Puma.

No setor automobilístico, porém, a briga dentro da família não costuma terminar bem. Já vimos dois produtos da mesma empresa competindo por públicos semelhantes na GM, na Fiat e na Volkswagen, que agora vai correr esse risco outra vez.

Com o lançamento do Nivus, um SUV compacto com estilo cupê, a marca alemã vai invadir o território bem consolidado do T-Cross, que tem tamanho e faixas de preço similares. Será que essa jogada vai dar certo?


VW Nivus: como o novo SUV vai afetar as vendas do irmão T-Cross? (Foto: Divulgação Volkswagen)

Bem, na última vez que isso aconteceu, o modelo recém-lançado levou a pior. Em 2014, a VW apresentou o Up!, um moderno hatch compacto que seria a evolução de Gol e Fox, com potencial de substituir os dois no futuro. Como produto, o Up! era brilhante, mas derrapou num dos maiores vacilos publicitários do segmento, já que a campanha não conseguiu mostrar suas enormes qualidades técnicas.

Quem não lembra do anúncio em que o Up! passeava por aí embalado apenas pela música de Cyndi Lauper? Não explicava que se tratava do automóvel mais seguro e econômico do Brasil na sua categoria naquela época. Nem mostrava que, apesar do porte reduzido, era espaçoso por dentro. Tudo o que o público enxergava era um veículo pequeno, de preço não convidativo e design que não apaixonava.

Ao olhar para o lado, o comprador ainda encontrava no mesmo showroom dois concorrentes maiores: um com ótima fama de robustez e valor de revenda (o Gol) e outro com foco no espaço e posição elevada de dirigir (Fox). Tudo mais ou menos pelos mesmos valores.

Não precisa dizer que o Up! levou a pior nessa comparação, porque nem os concessionários sabiam como vender esse novo conceito de hatch pequenino (e vocês sabem como brasileiro adora comprar carro por metro!). As vendas não decolaram e ele se tornou um modelo de nicho: hoje o Up! vende pouco (3.245 unidades este ano), apesar de ser bem mais moderno e racional que o Gol (20.919 unidades).

Quando três é demais




Fiat Mobi: problemas ao dividir o mercado com Uno e Palio Fire (Foto: Divulgação Fiat)

A Fiat também sofreu de fogo amigo na chegada do Mobi, em 2016. Afinal, o comprador da marca italiana tinha, sob o mesmo teto, outros dois hatches que consolidaram sua imagem como bons veículos de entrada, Uno e Palio Fire.

Porém o Mobi não tinha as mesmas qualidades do Up!, apesar da campanha publicitária atraente. Faltava-lhe o espaço interno e a modernidade mecânica do rival da VW. Com o fim do Palio e a derrocada do Uno, hoje até que não vende mal, mas está distante do rival direto (14.446 unidades em comparação com 20.101 do Renault Kwid) e longe do irmão maior e mais caro Argo (19.724).

A GM, no entanto, teve mais competência quando precisou equilibrar as vendas de automóveis semelhantes disputando o mesmo espaço do mercado. Celta e Corsa, hatches compactos com motor 1.0, conviveram com relativo sucesso por quase 10 anos. Em 2005, por exemplo, ambos somados venciam com folga o Fiat Palio, vice-líder do ranking.

Claro que nem sempre a convivência foi harmoniosa dentro da Chevrolet, caso de outra dupla de hatches: o Sonic emplacou apenas 7.487 veículos no seu auge, em 2013, contra os 30.119 do Agile.

Relembradas dessas histórias, podemos analisar com mais racionalidade o lançamento do Nivus. Para começar, ele é mais barato e, em algumas versões, até mais equipado que o T-Cross. Também tem porta-malas maior (415 litros contra 373), apesar de ambos usarem a mesma plataforma. E só o novato traz a VW Play, nova central multimídia que tem acesso à internet, permite baixar aplicativos, conecta-se sem fio ao celular e ainda tem tela maior (10,1 polegadas contra 7). O motor é o mesmo 1.0 turbo de 128 cv que equipa a versão de entrada do T-Cross. Embrulhando todo esse pacote do Nivus, há um design de cupê, único no segmento. Nem precisa dizer como o brasileiro adora uma exclusividade.

Então tudo está contra o T-Cross, certo? Também não é assim. Ele tem predicados que podem encantar amantes tradicionais de SUVs. A começar pelo espaço, um atributo muito valorizado nesse segmento. Proprietários de Ford EcoSport e Jeep Renegade que o digam. O T-Cross é maior e tem mais entre-eixos, ideal para quem viaja com uma família. E só ele tem, por enquanto, uma motorização mais potente, o 1.4 turbo de 150 cv.

Fazendo as contas, acredito que o Nivus leva vantagem nessa briga de irmãos quando estrear nas lojas, em julho. Porém não o suficiente para roubar todas as vendas do T-Cross, pois este já conquistou uma boa reputação no mercado dos zero-km.

Na soma dos dois modelos, não tenho dúvida que a VW vai vender mais SUVs compactos do que hoje, com apenas uma opção. Mas nunca será um caso de enorme sucesso como foram as irmãs separadas no nascimento Adidas e Puma.



E você, o que acha? Mande seus comentários desta coluna ou sugestões para próximas: zeca.chaves@gmail.com



Consultor do mercado automobilístico e jornalista especializado na área há 26 anos, Zeca Chaves é colunista do AUTOentusiastas e do portal Automotive Business; foi editor do caderno Veículos da Folha de S.Paulo e trabalhou por 19 anos na revista Quatro Rodas, onde foi redator-chefe.

Comentários

  • CASSIOARTHUR PAGLIARINI

    Zeca,tem horas que é melhor fazer um inimigo dentro de casa do que perder para o inimigo vizinho. Os SUV fastback (se eu posso chamar assim) vão conquistar uma fatia dos SUVs tradicionais. Se o fabricante não tiver, ele perde tudo para o fastback do inimigo. Concordo com você sobre Fiat Mobi e VW up! - faltou algum julgamento estratégico. Abraço.

  • Carlos

    Concordocom a matéria e o comentário do Cássio. No caso do Up agregaría que além da publicidade, na minha opinião pior foi a estratégia de posicionamento de preço. Talvez aconteça o mesmo com Nivus (Polo Cross?) e T Cross.

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